O Crime de Existir Com Sentimentos
- 4 de fev.
- 3 min de leitura
Ao mundo,

A todas as bocas que já me rasgaram,
A todos os dedos que me apontaram como se eu fosse um erro ambulante,
E a todos aqueles que nunca tiveram coragem para ouvir a verdade:
Hoje escrevo-vos porque já carreguei silêncio demais.
Silêncio que me pesou nos ossos, que me secou a voz, que me fez acreditar que a dor que sinto não merecia espaço.
Silêncio empurrado para dentro por cada gesto pequeno, por cada frase envenenada, por cada riso escondido quando eu, frágil e nova, tentava simplesmente sobreviver.
Vocês pediram-me para ser forte.
Mas arrancaram de mim tudo o que podia sustentar essa força.
Vocês pediram-me para ser mãe.
E depois zombaram do modo como fui.
Vocês pediram-me para crescer.
E depois castigaram-me por não crescer rápido o suficiente para o vosso gosto.
Dizem que a maternidade é divina.
Mas quando a vivi, vocês tornaram-na num inferno.
Quando o meu primeiro filho chegou ao mundo, prematuro, frágil, dependente de máquinas…eu estava a renascer e a morrer ao mesmo tempo.
E vocês, em vez de me segurarem, enterraram-me ainda mais.
“És muito nova.”
“Não sabes ser mãe.”
“Nem parto natural tiveste.”
“Vais estragar a tua vida.”
Vocês disseram isto quando eu ainda estava a aprender a respirar naquele novo corpo, naquela nova realidade, naquela nova dor.
Eu estava aberta, completamente, e vocês entraram sem pedir permissão.
A verdade é que vocês marcaram-me.
Marcaram-me tão fundo que até hoje o meu útero treme quando tenta imaginar uma nova vida.
O corpo lembra aquilo que vocês disseram.
E o que vocês disseram foi cruel.
Fizeram-me acreditar que a maternidade era mérito vosso, não meu.
Que eu tinha de vos provar algo, quando na verdade eu estava a lutar para não desmoronar.
E tudo o que recebi foram julgamentos.
Sei que vocês não querem ouvir isto, mas vou dizer mesmo assim:Se hoje tenho medo,vocês ensinaram-me esse medo.
Se hoje me sinto pequena,vocês encolheram-me.
Se hoje me sinto insuficiente,vocês plantaram essa ideia até criar raízes.
Se hoje o meu corpo hesita em gerar vida,é porque aprendeu que o mundo não foi gentil comigo quando eu tentei pela primeira vez.
Nenhuma mulher deveria sentir isto.
Mas eu senti, por culpa vossa.
Vocês dizem que exagero, porque é fácil chamar sensível a quem foi ferido.
É fácil dizer “já passou”, quando não foram vocês a viver a guerra no corpo.
É fácil minimizar quando não é a vossa menstruação que traz luto todos os meses.
É fácil virar costas quando nunca tiveram de recuperar de palavras que cortam mais fundo que bisturis.
Vocês não viram as noites em que chorei escondida para não parecer fraca.
Vocês não viram o meu corpo a expulsar sonhos.
Vocês não viram a culpa que me ensinaram a sentir: culpa que nunca pedi, nunca procurei, mas que vocês tiveram prazer em me oferecer.
E agora, quando falo em querer outro filho, vocês riem, comentam, desvalorizam, inventam razões para que eu desista.
“Um já chega.”
“Com essa diferença de idades, para quê?”
“Nem para o primeiro foste mãe como deve ser.”
Vocês continuam.
Até hoje.
Ainda hoje.
Mas agora eu também continuo: só que por mim.
Estou cansada de carregar as vossas opiniões como se fossem verdades absolutas.
Cansada de permitir que as vossas vozes ecoem mais alto que o meu próprio coração.
Cansada de deixar que o vosso medo, a vossa inveja, a vossa pequenez se metam entre mim e o que eu desejo.
Vocês apontaram-me o dedo tantas vezes que eu comecei a acreditar que era defeito.
Mas agora percebo: o defeito nunca fui eu.
O defeito foi a vossa incapacidade de amar sem julgar, de apoiar sem criticar, de cuidar sem destruir.
Escrevo esta carta porque finalmente compreendi que não devo nada a vocês.
Nem explicações.
Nem desculpas.
Nem justificações.
A minha dor é minha.
A minha história é minha.
A minha maternidade: falhada, tentada, sonhada — é minha.
E se um dia eu for mãe novamente, não será por causa do vosso silêncio…mas apesar dele.
E se nunca for, também não será culpa minha: porque aprendi que um útero ferido não é sinónimo de fracasso,é sinónimo de sobrevivência.
E eu sobrevivi a todos vocês.
Com dor, marcas, sim.
Com memórias que não pedi, sim.
Mas sobrevivi.
E escrevo-vos esta carta para que saibam:a partir de agora, o vosso dedo apontado já não me paralisa.
Já não me molda.
Já não me define.
Vocês foram o vento que quase apagou a minha chama.
Mas eu ainda estou aqui.E uma chama que sobrevive a tempestades nunca volta a ser pequena.
"A mulher que vocês tentaram quebrar, mas que aprendeu a levantar-se sozinha."




Uma carta de uma mãe que foi julgada e criticada desde o início da maternidade. Quando o filho nasceu prematuro, em vez de receber apoio, recebeu palavras duras e acusações que a fizeram sentir medo, culpa e insuficiência.
Carregou silêncio e dor por causa desses julgamentos e aprendeu a proteger-se sozinha. O que disseram e fizeram deixou marcas profundas, mas não a quebrou.
No final, só sobreviveu e agora ninguém pode decidir ou julgar a sua vida. a maternidade e a força são só dela.