top of page

O Inferno é Aqui

  • 4 de fev.
  • 9 min de leitura

I. A Teologia do Abismo


Disseram-me, na catequese que a minha avó Glória me obrigou a frequentar, que o Inferno era um lugar de fogo eterno para onde íamos depois de morrer se fôssemos maus. Mentira. Uma invenção pirosa para assustar crianças e velhas. O Inferno não é um destino turístico pós-vida com chamas e demónios. O Inferno é um conceito muito mais subtil, mais doméstico, mais penetrante.


O Inferno é o silêncio da mesa de jantar. Não o silêncio confortável, de quem partilha pensamentos ou lê. Mas o silêncio pesado, forrado a ressentimento e palavras não ditas, onde cada garfada ecoa como um tiro e o ranger da louça é a única banda sonora. É o ar parado que se recusa a ser respirado.

O Inferno é o som dos saltos altos da minha mãe a baterem ritmicamente no soalho flutuante, a anunciar que a inspeção vai começar. Tum. Tum. Tum. Um metrónomo impiedoso que marca o tempo da minha asfixia. Cada passo é a contagem decrescente para a próxima crítica, para o próximo olhar de desilusão que me perfura a testa.

O Inferno é a ausência de ar. A incapacidade de puxar o oxigénio para os pulmões sem a sensação de estar a engolir cinzas. É a claustrofobia de viver num corpo que a tua própria mãe detesta.

Depois da Sofia morrer, deixei de acreditar em Deus, no Diabo ou na Redenção. A morte da minha Tia foi a linha de água, o ponto final na fé. Se houvesse um Deus, não a teria levado. Se houvesse um Diabo, ele seria um arquiteto amador comparado com a minha mãe. Ele desenha círculos de sofrimento; ela cria universos de vazio com um simples olhar.

Ela olhava para mim e já não via a filha; via o erro. Via a mancha. Eu era o resíduo biológico de uma relação que ela lamentava, uma recordação permanente da traição e da fraqueza que ela se esforçava por erradicar.

— Estás igual a ele — dizia ela, com nojo a contorcer-lhe o canto dos lábios, quando me via chegar a casa com as pupilas dilatadas, a cambalear ligeiramente, com o cheiro a tabaco barato entranhado no casaco. — Tens o caos do teu pai no sangue. É uma doença. Uma praga que herdaste.

Ela tinha razão. Eu estava doente. Mas a minha doença não era o caos. Não era a droga nem o álcool que me adormecia os sentidos. A minha doença era a lucidez. Eu via, com uma nitidez dolorosa e não solicitada, a farsa que era a nossa família. Via os sorrisos falsos nas fotografias, a fachada de perfeição que ela erguia como uma fortaleza. Eu era o único espelho rachado que refletia a verdade: éramos três fantasmas a viver numa casa demasiado grande, aprisionados pela sombra de quem já não estava ali.

E era por isso que eu precisava de me anestesiar. Não para fugir da dor, mas para não gritar. Para não destruir a sua obra de arte. Eu injetava o silêncio e o esquecimento nas veias para conseguir suportar o peso da minha própria clareza. E assim, eu sobrevivia, um sopro inútil num inferno flutuante.


II. A Química do Esquecimento


A minha rebeldia não era um mero grito de atenção juvenil, um espetáculo fútil para chocar os adultos. Era, na verdade, uma tentativa desesperada de amputação emocional. Eu ansiava por cortar, extirpar cirurgicamente, a parte de mim que se sentia irremediavelmente incompleta sem a Sofia, a minha âncora, e, ao mesmo tempo, a parte que ainda teimava em implorar, em rastejar, por qualquer migalha do amor da Beatriz, um amor que se tinha revelado uma ilusão tóxica e fraturante. Eu estava farta de sentir. Queria a anestesia do nada.

Comecei pelas lâminas, instrumentos frios e precisos que se tornaram os meus bisturis. A dor física era um alívio paradoxal e imediato, um curto-circuito que momentaneamente desligava a tortura mental incessante. Ver o sangue correr, aquelas linhas vermelhas, metódicas e paralelas nos braços, era a única coisa que me fazia sentir presente, real. O sangue a escorrer era a minha tinta, e a pele, o meu pergaminho. Era a minha forma rudimentar de desenhar o mapa exato da minha dor, já que a mãe, na sua ânsia de controlo e negação, tinha rasgado, rasurado e queimado todos os meus diários, as minhas confissões silenciosas. O meu corpo, marcado e ferido, tornou-se o meu último e inviolável caderno, a única prova física de que eu existia e sofria. Cada cicatriz era uma palavra, cada corte um capítulo.

Depois, veio o mergulho na escuridão líquida do álcool, seguido de perto por tudo o que me oferecessem, sem questionar, nas casas de banho imundas e claustrofóbicas das discotecas de Lisboa. Não era pela diversão, não era pela euforia ou a dança. A ideia de rir ou celebrar era-me repugnante. Eu não queria socializar; eu queria apagar. O meu único objetivo era silenciar o ruído branco, a cacofonia ensurdecedora de pensamentos e culpas que me martelava na cabeça. Engolia a escuridão para me tornar escuridão. Esgotada, chegava a casa nas primeiras luzes da manhã, cambaleante, a cheirar a tabaco velho, cerveja e o meu próprio vómito. Arrastava os pés pelo corredor, ciente do que me esperava. A mãe, invariavelmente, estava lá, à porta do meu quarto ou na sala, de braços cruzados. Não esperava para me abraçar ou para me perguntar se eu estava bem. Esperava para me ver cair, para me olhar com aquele desprezo gélido, o seu silêncio mais ruidoso que qualquer grito, para me catalogar, uma e outra vez, com a sua voz monótona e clínica, como "lixo tóxico", um desperdício que ela tinha sido forçada a gerar. Ela via o meu desespero não como um pedido de socorro, mas como uma falha de caráter, uma mancha na sua fachada impecável. 


III. A Quarentena da Alice


A Alice, com os seus dez anos e olhos de corça, tentava aproximar-se. Ela ouvia-me chegar. Ouvia-me chorar ou partir coisas. E vinha bater à minha porta, arranhando a madeira como um animalzinho assustado. — Clara? Posso entrar? Fiz um desenho para ti...

Mas a Beatriz interceptava-a sempre. — Não, Alice! — A voz dela era um chicote. — Não entres aí. A tua irmã não está em condições. Não olhes para ela. Ela é perigosa.

A minha mãe criou uma zona de contenção. Eu era o vírus. A Alice era a paciente saudável que precisava de ser protegida a todo o custo. Beatriz trancava a Alice na perfeição do ballet e dos estudos, usando a minha decadência como o exemplo do que não ser. — Vês, Alice? É isto que acontece quando não tens disciplina. É nisto que te tornas se seguires o caminho do teu pai.

E a Alice, em vez de fugir, olhava para mim através da fresta da porta com uma mistura de terror e fascínio. Ela não via uma drogada; via uma mártir. E eu odiava isso. Eu queria gritar-lhe: Foge, estúpida! Eu não sou uma heroína, sou um cadáver que ainda anda.


IV. O Carcereiro Relutante


O pior e mais devastador golpe que minha mãe me desferiu não foi o desprezo frio e calculado, a indiferença com que me tratava diariamente. Foi, sim, o uso que ela fez do meu pai. O Duarte, o homem que, na minha mente, representava a liberdade, o escape, a arte fora das regras burguesas da Beatriz, tornou-se o braço armado dela. Ele, o meu herói, o Baterista Livre, transformou-se no meu carcereiro pessoal, obediente à vontade manipuladora da minha mãe.

O ciclo era sempre o mesmo. Quando ele voltava das intermináveis tours com a banda, exausto, cheirando a aeroportos, fumo e cerveja barata, a culpa pesando-lhe nos ombros por ter estado ausente, a Beatriz não lhe dava tréguas. Não o deixava desfrutar sequer de uma hora de descanso. Em vez de um abraço ou de um pedido de comida, ela entregava-lhe, com uma frieza clínica, o relatório dos meus supostos "crimes". A lista de acusações era sempre crescente, sempre mais dramática.

— A tua filha chegou bêbeda outra vez, Duarte. Às cinco da manhã. Não consegues ver o estado dela? — dizia ela, com uma voz de mártir. — A tua filha foi suspensa da escola. Encontraram-na a fumar nos sanitários. Vais deixar que ela deite a vida dela fora assim? — E o golpe final, o que o desarmava: — A tua filha cortou-se. Olha para os pulsos dela. Ela precisa de limites, não de condescendência. Resolve isto, Duarte. Sê homem uma vez na vida. Assume a responsabilidade.

E ele, o Duarte que eu idolatrava, o rebelde, o músico, tornava-se subitamente pequeno e cobarde. Em vez de questionar, em vez de me defender ou de sequer tentar entender o que se passava comigo, ele obedecia. A necessidade de provar a sua "seriedade" à Beatriz, de compensar as suas ausências, era mais forte do que a necessidade de ser pai.

Lembro-me de uma noite em particular, a mais violenta de todas, que selou o meu desgosto por ele. Eu estava instável, com aquela euforia descontrolada que vinha depois de uma noite de excessos, a rir de tudo e de nada, a tentar escapar. Tinha a perna já fora da janela do meu quarto, no sexto andar, pronta a saltar, para longe daquele inferno silencioso. Ele apanhou-me em flagrante. Puxou-me para dentro do quarto com uma força bruta que nunca soubera que ele possuía. O cheiro dele invadiu-me:o medo, a raiva, o suor e um profundo e nauseante cheiro a desespero.

— Para com isto, Clara! Pára! — gritou ele, abanando-me pelos ombros com tanta violência que a minha cabeça estalou. — Estás a matar a tua mãe! Estás a enlouquecê-la!

Eu estava demasiado ferida, demasiado zangada para ter medo. Juntei a saliva e o ódio e cuspi-lhe na cara. O cuspo escorreu pela barba por fazer. — Eu estou a matar a mãe? Tu mataste-nos a todos no dia em que assinaste o contrato com ela! Tu és um fraco, pai. Não és nada mais do que o cão de guarda dela. O executor.

Vi a dor nos olhos dele. Ele sabia que cada palavra era uma verdade cortante. Mas em vez de admitir a sua fraqueza, em vez de se desculpar, ele canalizou a sua fúria e vergonha para a única coisa que podia controlar: a minha liberdade. Para provar a sua "autoridade" e "seriedade" à Beatriz, ele trancou a minha janela. Não apenas a fechou: ele pregou-a com tábuas de madeira que arranjou sabe-se lá onde, transformando o meu quarto numa cela mal iluminada. O meu herói, o Baterista Livre, o homem que me prometeu o mundo, tornou-se o meu carcereiro.

Não parou por aí. Ele tirou-me a chave de casa, alegando que eu não era "responsável" o suficiente. Tirou-me o dinheiro que tinha guardado de prendas de anos e concertos. E a humilhação final: revistava o meu quarto, revolvendo as minhas gavetas e livros à procura de drogas, com as mãos a tremer de nervosismo e vergonha. A cada revista, a minha mãe assistia do conforto da ombreira da porta, de braços cruzados, um sorriso frio e satisfeito nos lábios. Ela não precisava de dizer nada. A performance dele era a sua vitória. Ele era a ferramenta que ela usava para me destruir.


V. O Fundo


Fiquei sozinha. Sem a Sofia, a minha única âncora neste mar de indiferença. A sua ausência era um buraco negro que me sugava a pouca luz que ainda restava. Fiquei à mercê de uma mãe que me via, não como filha, mas como um erro grotesco de fabrico, uma mancha indelével na sua fachada de perfeição imaculada. Os seus olhos, frios e inquisidores, avaliavam-me constantemente, procurando o defeito que justificasse o seu desprezo silencioso.

Fiquei sob o jugo de um pai que, na sua hipocrisia puritana, me prendia e me sufocava, transformando a minha vida numa prisão dourada para expiar os seus próprios pecados inconfessáveis. A minha existência era o seu penitente particular, um sacrifício silencioso no altar da sua consciência atormentada.

E a minha irmã, ah, a minha irmã. Ela observava-me através do vidro inquebrável da sua superioridade moral, uma espectadora privilegiada do meu lento declínio. Idolatrava a minha destruição com um sorriso contido, sem nunca entender a dimensão da agonia que me consumia. Ela via o fogo, mas não percebia que eu não era o espetáculo; eu era o combustível, e estava a arder viva, reduzida a cinzas por dentro, enquanto por fora fingia ser de mármore.

O Inferno, descobri tarde demais, não era o fogo crepitante das lendas ou o enxofre. O Inferno era aquela casa. Fria, geométrica, de linhas perfeitas e ângulos retos, onde tudo estava no lugar, exceto eu. Eu era o único erro de cálculo na equação perfeita da sua vida burguesa. Uma anomalia estatística que ninguém sabia como apagar, como remover da lousa sem deixar vestígios. A minha presença distorcia a simetria, quebrava a ilusão de ordem.

Nesse abismo de incompreensão e repulsa, tomei a única decisão que me restava: se era para ser o monstro, se já me tinham atribuído esse papel no teatro da sua vida, eu abraçaria a máscara com ferocidade. Seria o pior monstro que eles já tinham visto. Aquele que faria tremer as fundações da sua perfeição. Aquele que, em vez de se deixar apagar, se tornaria a chama que os consumiria. A destruição seria a minha redenção, e o meu rugido seria a única verdade na mentira polida daquela casa.

2 comentários


TAmorim
13 de fev.

Este texto é muito duro e muito honesto. Mostra que o “inferno” não é um lugar com fogo, mas uma casa onde não há amor. Só silêncio, críticas e culpa.

A Clara sente-se sempre errada, sempre o problema. Depois da morte da tia, a única pessoa que a entendia, ela perde completamente o chão. Em vez de receber ajuda, recebe desprezo. A mãe trata-a como uma vergonha. O pai, que devia protegê-la, acaba por se virar contra ela. E a irmã é afastada, como se a Clara fosse uma ameaça.

O mais forte no texto é essa ideia de que a rebeldia não é diversão. É dor. As drogas, os cortes e aas fugas não são para chamar atenção, são…

Curtir
Membro desconhecido
13 de fev.
Respondendo a

Não poderia ter melhor interpretação desta história. Muito obrigada pelo comentário! 🙏

Curtir
bottom of page