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O Poeta e a Âncora de Papel

  • 16 de fev.
  • 11 min de leitura


A morte de Sofia instalou em mim um silêncio que nem os gritos da minha mãe, Beatriz, nem o peso da mão do meu pai, Duarte, conseguiam quebrar. Eu entrei num estado de apatia emocional tão profundo que o mundo exterior parecia acontecer atrás de um vidro baço. Eu não estava triste; eu estava vazia. E, nesse vazio, agarrei-me às únicas bóias que encontrei: um grupo de amigos que, na altura, pareciam o meu mundo, mas que a vida mais tarde me ensinaria terem sido apenas uma conveniência de percurso.


O Círculo de Vidro: Olívia, Filipa e David


No centro deste meu novo ecossistema estava Olívia. Eu nutria por ela uma estima que transcendia o normal; ela era o meu ponto de ancoragem, a pessoa que eu tentava proteger da minha própria escuridão.

Ao lado dela, como uma sombra julgadora, estava a Filipa. Mais velha e prima por afinidade da Olívia, a Filipa era a personificação do olhar crítico que eu já sofria em casa. Ela julgava-me com frequência — pela minha aparência, pelo meu jeito, ou talvez apenas por não conseguir decifrar o que ia na minha cabeça. Ela tinha uma aura de superioridade, reforçada pela sua relação com David.

David era uma figura mítica no bairro. O seu nome carregava um misto de medo e respeito. Onde ele passava, as conversas baixavam de tom. Eu olhava para ele e para a Filipa e via uma relação estranha, quase magnética, que eu admirava à distância. Eu nunca tinha tido um namorado, nunca tinha vivido essa intensidade, e observá-los era como ver um filme de uma realidade que a minha mãe nunca permitiria que eu tocasse.


Guilherme: A Luz de Papel e Tinta


Mas o meu coração, esse pedaço de mim que a Beatriz tentava "domar" com uma disciplina de rédea curta e silêncios invasivos, batia num ritmo que ela nunca conseguiria alcançar. O meu norte, a minha bússola emocional no meio daquela névoa de apatia, era o Guilherme.


Num grupo onde a dinâmica era ditada pela dureza quase cortante do David e pelo julgamento implacável da Filipa, o Gui era uma anomalia absoluta. Ele era a luz ao fundo de um túnel que eu já não tinha forças para percorrer sozinha. Guilherme era um romântico de outros tempos, um "incurável" que desafiava a crueza da nossa juventude com uma habilidade poética que roçava o épico. Ele não se limitava a falar; ele narrava a vida como se ela fosse uma saga, transformando pequenos momentos em versos que pareciam vir de um século distante.

Ele adorava contar piadas parvas, daquelas que me arrancavam um riso genuíno no exato momento em que os meus pulmões pareciam esquecer-se de como processar o ar. Mas, por trás do humor, havia uma fragilidade densa. Cada separação amorosa que ele vivia não era apenas um fim; era quase um prego num crucifixo próprio que ele carregava aos ombros. Ele vivia o luto do amor com uma intensidade devota, e ver esse "poeta herói" tão destroçado foi o que nos colou emocionalmente.


Eu, ainda mergulhada no abismo da perda da Sofia, e ele, com a alma em carne viva pela última ex-namorada, criámos um mundo só nosso. Os nossos diálogos eram quase filosóficos, uma dança de ideias sobre a existência e a dor que eu não conseguia encontrar em mais ninguém. Ele tinha a capacidade rara de ver o mundo de uma perspetiva que tornava a minha realidade asfixiante em algo suportável, quase artístico.

A amizade dele era o meu remendo, a tentativa de reconstruir a âncora que se tinha desfeito quando a minha tia partiu. Mas havia um limite invisível, uma barreira que ele próprio erguera. Guilherme tinha-me colocado na sua "Sister’s List". Para ele, eu era a irmã mais nova, o ser frágil que ele tinha o dever sagrado de proteger de tudo, inclusive dos seus próprios demónios. Ele era a base sólida onde eu descansava a cabeça sem perguntas ou julgamentos, o único lugar onde o controlo possessivo da minha mãe não conseguia entrar.


Eu sentia o meu coração a bater por ele, de uma forma que me assustava e me devolvia à vida, mas permanecia em silêncio. Contentava-me em ser a sua protegida, enquanto observava o meu mestre de poesia a pregar o seu próprio coração em tábuas de dor que eu desejava, em segredo, conseguir arrancar.


Dois Corações no Crucifixo


O Guilherme não atravessava separações; ele sofria metamorfoses trágicas. Quando uma relação terminava, ele não se limitava a guardar as fotografias numa caixa; ele submetia-se a um ritual de flagelação emocional que me deixava sem fôlego. Para ele, o fim de um namoro não era uma estatística ou uma etapa da juventude; era um martírio autoinfligido.

Cada palavra não dita pela ex-namorada, cada silêncio no telefone, transformava-se num prego cravado num crucifixo próprio, uma estrutura de dor que ele carregava com uma dignidade quase assustadora. Ele não chorava como os outros rapazes do bairro; ele vertia o seu luto em estrofes épicas, transformando a rejeição em poesia sangrenta, vivendo a agonia do amor com a mesma intensidade devota com que a escrevia nos seus cadernos de capa preta.

Eu não suportava vê-lo naquele estado de suspensão, talvez porque o meu próprio corpo já estivesse marcado por pregos que ninguém via. Eu conhecia o peso do martelo melhor do que qualquer adolescente devia conhecer. Enquanto o Guilherme chorava um amor que partira, eu ainda tentava manter a cabeça acima da água, submersa no luto absoluto pela Sofia.

Sofia tinha sido a minha única âncora verdadeira. Ela era a tia que traduzia o mundo para mim, a única que conseguia ler nas entrelinhas da rigidez da minha mãe, e que me oferecia um porto seguro antes da tempestade. Quando ela se desfez, quando a sua vida se apagou, o meu porto foi engolido pelo mar. Fiquei à deriva, sem bússola, entregue às mãos possessivas da minha mãe, que tentava moldar o meu naufrágio conforme a sua vontade.

Foi essa geografia de desastres que nos uniu de forma irremediável. Éramos dois sobreviventes de naufrágios diferentes:

Eu, destroçada por uma morte real que me roubara o norte e o direito à ternura e Ele, com o coração em carne viva por uma morte simbólica — a de um amor que lhe roubara o chão e a confiança no destino.

Os nossos diálogos na pastelaria tornaram-se o nosso santuário. Enquanto a Filipa e os outros se perdiam em fofocas triviais, em julgamentos sobre quem usava o quê ou quem beijara quem, nós mergulhávamos em abismos filosóficos. Discutíamos a natureza da impermanência, a estética da dor e a possibilidade de existir beleza no meio do caos.

O Guilherme tinha o dom raro de ver o mundo através de um caleidoscópio de sombras e luzes; ele transformava a nossa angústia adolescente em algo transcendente, algo que pertencia aos astros e não apenas àquele bairro cinzento.

Ao lado dele, o rótulo de "filha de Beatriz" desvanecia-se. A marca de "reprovação ambulante" que a escola me tentava tatuar perdia o sentido. Com o Gui, eu não era um problema a ser resolvido ou uma filha a ser domada; eu era uma entidade completa, alguém capaz de discernir as infinitas cores que habitavam o espaço entre o preto e o branco. Ele era o único que não tentava consertar-me; ele limitava-se a sentar-se comigo no escuro até que os meus olhos se habituassem à falta de luz.


O Remendo na Âncora


Durante meses, eu fui uma estátua de gesso esquecida num canto da minha própria vida. A apatia emocional não era apenas uma escolha; era um mecanismo de defesa, uma carapaça rígida que eu tinha construído para que as mãos invasoras da minha mãe, não encontrassem nada de vivo para moldar, e para que a ausência da minha tia Sofia não me corroesse os órgãos por dentro. Eu movia-me, falava e respirava, mas era um movimento mecânico, desprovido de cor ou temperatura.

Foi no meio de uma dessas manhãs baças, entre o cheiro a café da pastelaria e o barulho de fundo do bairro, que a carapaça rachou.

O Guilherme estava sentado à minha frente, a oscilar entre as suas duas naturezas: num segundo, contava uma piada parva, daquelas tão sem sentido que desafiavam a gravidade do meu luto, e no segundo seguinte, baixava o tom de voz para ler um poema que parecia ter sido escrito apenas para os meus ouvidos.

E, subitamente, aconteceu. No espaço entre uma risada contida e uma estrofe sussurrada, eu senti.

Foi um baque surdo, uma vibração que começou no centro do peito e se estendeu até às pontas dos dedos. Eu senti o meu coração a bater novamente. Não foi um batimento romântico de filme; foi uma sensação estranha e quase assustadora, como o sangue a voltar a circular num membro que esteve dormente demasiado tempo, aquela picada desconfortável que nos lembra que ainda somos feitos de carne e nervos. Foi o som do gesso a estalar. Eu tinha passado tanto tempo embrulhada naquela anestesia que o simples ato de sentir "algo" parecia uma invasão de privacidade que nem a minha mãe tinha conseguido realizar.

A Sofia tinha sido a minha âncora, e quando ela partiu, a corrente partiu-se com ela, deixando-me à deriva num mar de ordens, castigos e diários violados. O Guilherme, sem saber, estava a tornar-se o "remendo" naquela âncora. Ele não substituía a Sofia, ninguém poderia, mas o peso da sua amizade, a densidade das suas palavras e a luz da sua poesia estavam a prender-me novamente à terra.

Ele estava a salvar-me da paralisia. Estava a devolver-me a capacidade de sentir algo que não fosse o medo constante da disciplina do meu pai ou o vazio absoluto da perda.

Mas com a batida veio o medo. Sentir o coração bater pelo Guilherme era aceitar que eu voltava a ter algo a perder. Se o gesso me protegia, o batimento expunha-me. Eu olhava para ele, para o seu rosto de poeta em martírio, e percebia que a minha "âncora de papel" era frágil.

O batimento era estranho porque era novo e antigo ao mesmo tempo; era o sinal de que eu já não estava apenas a ocupar espaço na cadeira da pastelaria. Eu estava viva. E estar viva, naquele seio familiar e naquele grupo de amigos de conveniência, era o ato de rebeldia mais perigoso que eu poderia cometer. Guardei aquele ritmo para mim, como um segredo precioso e terrível, sabendo que, para ele, eu continuaria na "Sister's List", mas para mim, eu tinha acabado de nascer pela segunda vez.


A "Sister's List": O Preço da Proteção


Eu guardei esse sentimento num cofre, com sete chaves. Sabia que não podia partilhá-lo. Porquê? Porque o Guilherme, na sua necessidade de cuidar e curar, tinha-me colocado na sua "Sister's List".

Para ele, eu era a irmã mais nova que ele tinha o dever sagrado de proteger. Ele via a minha fragilidade, o controlo asfixiante da minha mãe e a disciplina bruta do meu pai, e colocava-se como um escudo à minha volta. Mas esse escudo, embora me aquecesse, também me impedia de chegar mais perto.

Eu era protegida pela luz dele, mas a luz dele ainda estava voltada para o passado, para as feridas da separação que ele insistia em manter abertas. Eu aceitava as migalhas dessa amizade como se fossem um banquete, porque, naquela altura, o Guilherme era o único lugar onde a minha mente se sentia livre, mesmo que o meu coração estivesse, secretamente, a aprender a sofrer por um novo motivo.


O Naufrágio Académico


Enquanto o grupo ria e o David impunha a sua presença, o meu ano letivo desmoronava-se. Eu sabia que ia reprovar. As notas eram baixas, os trabalhos não eram entregues, as aulas eram apenas cenários onde eu me sentava a ver o tempo passar.

Mas o mais assustador não era a reprovação iminente; era o facto de eu não estar minimamente preocupada. A Beatriz podia ler o meu diário, o Duarte podia impor a sua disciplina física, os professores podiam ameaçar-me com o chumbo... nada disso chegava ao núcleo do meu ser.

Eu estava a falhar na escola porque já tinha desistido de passar de ano na vida. Naquele momento, entre o açúcar do palmier e o olhar do Guilherme, a única coisa que importava era que o relógio continuasse a andar, mesmo que eu não soubesse para onde estava a ir.

Enquanto o mundo ao nosso redor se movia com a bruteza do David ou o julgamento ácido da Filipa, eu e o Guilherme habitávamos uma dimensão paralela. Ele era uma anomalia para aquele tempo e para aquele bairro. No meio de uma juventude que comunicava por monossílabos e bravata, o Gui era um romântico incurável.

Ele não se limitava a falar; ele exercia uma habilidade poética quase épica, transformando a realidade em estrofes. Mas essa mesma sensibilidade era o seu calvário.


O Ritual do Palmier de Chocolate


Todas as manhãs, antes do toque para as aulas, cumpríamos o nosso ritual sagrado na pastelaria do bairro. O desafio era quase sempre o mesmo: quem comia o maior palmier coberto de chocolate.

Havia dias em que o cheiro a açúcar e manteiga me enjoava. A minha apatia tirava-me o apetite de viver e, consequentemente, o de comer. Eu ficava ali, a olhar para o prato, sentindo o peso do olhar da minha mãe ainda cravado nas minhas costas desde que saíra de casa.

Mas o Gui não me deixava desistir. Através de brincadeiras, de piadas suaves e de uma insistência doce, ele tentava alimentar-me. Cada pedaço de massa folhada que eu engolia era um esforço para provar a mim própria que ainda estava aqui.



O Furacão Mara e Raquel


A minha vida nesse ano letivo era um filme a preto e branco, onde eu era uma figurante muda. O ritual matinal na pastelaria, com o palmier gigante e as tentativas doces do Guilherme para me animar, era a única rotina que me mantinha à tona. O resto do grupo, a Olívia que eu tentava proteger, a Filipa que me julgava e o David com a sua aura pesada, era apenas ruído de fundo.

E então, numa terça-feira chuvosa que tinha tudo para ser igual às outras, a porta da pastelaria abriu-se e o "Furacão" entrou.

Não pediram licença. Não se juntaram timidamente à mesa. Elas invadiram o espaço.


A Explosão Cor-de-Rosa: Mara


A primeira coisa que notei foi o riso. Antes de a ver, ouvi uma gargalhada que parecia vir do fundo da barriga, tão genuína e barulhenta que fez estremecer as chávenas de café.

Era a Mara. Ela era um contraste ambulante com tudo o que eu conhecia. Se a minha mãe era a rigidez cinzenta, a Mara era um cartucho de dinamite cor-de-rosa. Vestia calças largas de fato de treino, um casaco puffer rosa-choque gigante e tinha mais argolas numa orelha do que eu tinha amigos verdadeiros. O estilo "hip-hop girl" não era uma fantasia; era a pele dela.


Ela chegou à nossa mesa, olhou para o meu palmier quase intacto, e sem me conhecer de lado nenhum, disse: -- Vais comer isso tudo, ou estás só a namorar o chocolate? É que se for só para olhar, eu faço o sacrifício.


E riu-se outra vez. Aquele riso... era impossível não ser arrastado por ele. Era um riso que dizia "a vida é uma piada, e nós somos os comediantes". Pela primeira vez em meses, senti os cantos da minha boca a quererem subir, não por educação, mas por contágio.


A Âncora Sóbria: Raquel


Atrás do furacão Mara, vinha a força estabilizadora: a Raquel. Se a Mara era o balão a querer voar, a Raquel era quem segurava o fio para ela não desaparecer no céu.

O estilo dela era o oposto: sóbrio, cores escuras, um casaco de ganga clássico, mas com uma presença que não se deixava ignorar. Ela não ria alto; ela observava. Tinha uns olhos que pareciam fazer um raio X imediato à alma das pessoas.

Enquanto a Mara roubava um pedaço do meu palmier (com a minha permissão silenciosa), a Raquel sentou-se, olhou para o grupo e, sem rodeios, focou-se na dinâmica que ninguém mencionava. Os olhos dela passaram pela Filipa (que torceu o nariz à chegada delas) e fixaram-se em mim e no Guilherme.

- — Vocês os dois — disse Raquel, com uma voz calma, mas cheia de opinião — têm a cara de quem está a carregar o mundo às costas e se esqueceu de onde o pousar. Relaxem os ombros. O mundo não cai se vocês descansarem cinco minutos.

Foi um conselho direto, sem a pena habitual que eu via nos outros. Ela não me viu como a "Clara coitadinha que perdeu a tia"; viu-me como alguém que precisava de acordar.


O Rasto do Caos


A presença delas mudou a química da mesa instantaneamente. A Filipa ficou visivelmente incomodada com o barulho e a falta de "modos" da Mara. O Guilherme adorou-as imediatamente; viu nelas uma nova fonte de energia para me animar. E eu... eu fiquei fascinada.

Elas eram a "equipa furacão". Onde passavam, deixavam um rasto de caos inofensivo, piadas internas e uma energia que fazia o ar parecer elétrico. Elas não pediam aprovação à minha mãe, não tinham medo do David e não estavam nem aí para as notas da escola.

Para mim, que vivia sob um regime de controlo absoluto em casa e de luto abafado na escola, a Mara e a Raquel foram um choque de realidade. Elas foram a primeira prova viva de que era possível ser desarrumada, barulhenta, opinativa e, ainda assim, incrivelmente feliz.

Naquele dia, eu não comi o palmier todo, mas saí da pastelaria com uma sensação nova: a de que o meu filme a preto e branco tinha acabado de ganhar duas novas cores vibrantes, e que a minha apatia estava prestes a ser desafiada pelo caos mais divertido do mundo.

2 comentários


Membro desconhecido
19 de fev.

Só por este excerto já sinto que vai doer e ao mesmo tempo aquecer.

Há aqui uma dor muito silenciosa. Não é dramática no sentido exagerado. É aquela dor que paralisa, que transforma uma pessoa numa “estátua de gesso”. A perda da Sofia parece ser o centro de tudo. A âncora que se parte e deixa alguém à deriva.

O Guilherme parece daqueles personagens que nos desarmam. Um poeta frágil, intenso, que sofre o amor como se fosse uma tragédia grega. A “Sister’s List” é quase cruel na sua inocência. Ele protege mas sem saber cria distância. Isso promete partir corações.

E depois a Mara e a Raquel uma explosão de cor num mundo cinzento. Adorei essa ideia do “furacão”…

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noddy
17 de fev.

simplesmente perfeito, intrigante, cada palavra que lês, da ancia do que vira asseguir... cada frase, pede mais... estas a ir lindamente miuda... 😋👌

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