top of page

Quando me dão uma imagem...e pedem para eu escrever sobre ela...

  • 4 de fev.
  • 4 min de leitura

Como autora, é impossível olhar para esta imagem e não sentir o rascunho de um capítulo que a vida, na sua infinita e por vezes preguiçosa sabedoria, ainda não se dignou a escrever.

Não é apenas uma paisagem; é a mais pura tradução visual do meu processo criativo, uma sinestesia onde o olhar se transforma em tinta na ponta dos dedos.

Para mim, escrever é exatamente isto: é a ação de me sentar precariamente num tronco, suspenso e instável, sobre o fluxo impetuoso e vertiginoso da realidade. É um ato de equilíbrio radical, uma performance de funambulismo mental onde se exige a coragem de ignorar o ruído ensurdecedor e a violência da correnteza que ameaça tragar-nos.

É, acima de tudo, a audácia de ousar mergulhar as mãos não apenas na superfície, mas na profundidade de um rio que não é feito de água transparente e mundana, mas de uma substância etérea composta por cores impossíveis, por uma paleta que a lógica se recusa a nomear, e por emoções ainda não catalogadas pelo dicionário da experiência humana.

Cada frase que se forma na ponta dos meus dedos é um salpico desse mergulho, uma gota cristalizada da torrente que reside no subconsciente. Esta cena, que se desenrola na minha mente, é a materialização exata e a metáfora perfeita da minha essência mais profunda, da minha filosofia de vida e da minha metodologia criativa. No epicentro desta visão, fixo o olhar nas árvores.

Contudo, não as vejo na sua representação botânica e simples, como meros troncos inertes e massas compactas de folhas verdes. Elas são, para o meu olhar interior, a representação física e monumental de pensamentos complexos, aqueles que são demasiado fluidos para a rigidez da forma e que ganharam, misteriosamente, a textura volátil e difusa da nuvem e os tons oníricos, quase alucinatórios, do sonho.

São as Ideias com "I" maiúsculo: conceitos que, pela sua vastidão, pela sua natureza revolucionária e pela sua radicalidade intrínseca, recusam-se obstinadamente a caber na dimensão limitada e bidimensional do papel. Elas não se contêm; elas transbordam, irrompem para além dos limites convencionais, escalam o horizonte com a insolência audaz de uma aurora inesperada e pintam o céu não com o azul pacífico e previsível que a nossa memória e o hábito nos ensinaram a esperar, mas com uma paleta de fogo, uma promessa fervilhante e quase violenta.

Esta promessa não é vazia; é a certeza visceral de que o mundo, o nosso mundo quotidiano, meticulosamente construído sobre regras rígidas, rotinas anestesiantes e a segurança de um chão estável, e o mundo que ousamos rasgar, sonhar e criar pela força indomável do verbo e da tinta, pode ser, e deve ser, infinitamente mais vibrante, mais matizado nos seus contrastes, mais surpreendente nas suas revelações e, crucialmente, mais autêntico do que o cinzento conformista e a mediocridade funcional que nos ensinaram, desde os primeiros anos de consciência e domesticação social, a aceitar como a única realidade possível e irrefutável. A magnificência vertical destas árvores-pensamento, a forma como desafiam o céu não apenas com a sua altura, mas com a própria essência da sua existência, é a prova irrefutável, a evidência material, de que a imaginação é a nossa primeira e mais essencial ferramenta de revolução, o motor primário e incorruptível para a subversão da norma estabelecida e para a reescrita dos limites do possível.


E aqueles que ali estão, sentados comigo nesse tronco instável que é a metáfora do próprio processo criativo, não são meros espetadores passivos, observadores distanciados, com o seu bloco de notas e a sua caneta de crítica, deste espetáculo vertiginoso de equilíbrio precário. Eles são, de facto, coautores, cúmplices ativos e essenciais deste momento de transcendência partilhada. Eles não apenas testemunham, mas respiram e partilham comigo um estado de graça raro, um kairos onde a bússola da razão e do bom senso é conscientemente descartada e a imaginação, livre de amarras lógicas, se torna o único mapa necessário, a única cartografia de confiança para navegar. É nesta fronteira ténue e porosa, neste limen entre o real palpável, com o seu cheiro a terra e a sua inércia, e o imaginário ilimitado, com o seu potencial de metamorfose constante, que eu habito e me sinto irrevogavelmente em casa.


É o lugar místico e alquímico onde o barulho caótico e incessante da água em fúria, com a sua desordem primordial, se metamorfoseia em versos ritmados e coerentes, onde a cacofonia se torna melodia, onde o pôr do sol ao fundo, com a sua despedida dramática, rubra e melancólica, serve não apenas como o "ponto final" final e exaustivo de um dia longo e desafiador, mas, mais poderosamente, como a "letra maiúscula" grandiosa, promissora e inevitável, anunciando a primeira palavra de uma nova e irrefreável aventura criativa. A escrita é, portanto, muito mais do que um registo; é a ponte etérea e, paradoxalmente, a mais sólida, que liga o caos indomável da realidade à ordem mágica e redentora da possibilidade.


Este é o meu "Eclipse" particular: não um fenómeno astronómico de sombra temporária, mas o instante íntimo e necessário em que a lógica, a razão utilitária e o pragmatismo se retiram voluntariamente para que a magia pura e sem freios, a poiesis, tome o palco central. É assim que eu escrevo, é assim que eu me defino e sou: sempre à procura, nas texturas mais banais do quotidiano, daquela fresta de luz, daquele rasgo de epifania, que transforma o comum, o fugaz e o meramente pessoal em algo eterno, universal e partilhado.


É a celebração do instante em que o eu se dissolve no nós da experiência humana através do poder transformador da palavra.

2 comentários


TAmorim
13 de fev.

Este texto é uma viagem profunda pelo teu processo criativo. Dá para sentir a intensidade com que mergulhas nas ideias e nas emoções, como se cada palavra fosse um pedaço de ti.

Uma ponte entre o caos do mundo e a ordem que criamos com a imaginação é poético e poderoso. Fica claro que escrever não é só colocar palavras no papel, é mesmo um acto de entrega e descoberta. Obrigada por partilhares essa visão tão intensa e inspiradora.

Curtir
Membro desconhecido
há um dia
Respondendo a

Olá, TAmorim. Fico muito grata por teres sentido essa entrega, pois escrever é, para mim, precisamente esse ato de equilíbrio sobre o tronco instável da realidade.

Quando olho para uma imagem, não vejo apenas uma paisagem, mas sim um rascunho de sentimentos que procuro "sacar" e transformar em palavras. Essa ponte entre o caos que tantas vezes me rodeou e a ordem mágica da imaginação é o meu porto seguro, o lugar onde a confusão se torna melodia e onde me sinto verdadeiramente em casa. É um mergulho profundo nas emoções, por vezes vertiginoso, mas é a minha forma de dar dignidade ao que sinto e de transformar o invisível em algo que todos possamos partilhar. Obrigada por reconheceres a…

Curtir
bottom of page