A Filha do Intervalo
- 4 de fev.
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Atualizado: 23 de fev.

I. O Acorde Perfeito
Dizem que a minha irmã, a Clara, nasceu de um aperto de mão frio num bar, uma história que parece distante, quase surreal. Eu, no entanto, não nasci assim. Minha origem está marcada por um lapso, um instante raro, quase insignificante para o mundo, mas profundamente transformador para mim. Foi um momento cósmico e aterrorizador, em que a Engenheira e o Baterista, minhas duas figuras fundamentais—meus pais—se esqueceram de quem eram, mergulhando em uma confusão de silêncio e frenesia.
Foi numa noite em que a luz do prédio falhou, deixando-nos no escuro absoluto, sem eletricidade para alimentar o Excel da minha mãe, que trabalhava incansavelmente em seus cálculos, ou os amplificadores do meu pai, cujo som vibrava na alma de quem o escutava. Restou apenas o silêncio, um silêncio profundo, quase ensurdecedor, envolvendo tudo.
Nesse momento de pausa, de pura vulnerabilidade, a Beatriz, minha mãe, baixou a guarda, deixando escapar suas emoções mais ocultas, enquanto o Duarte, meu pai, interrompeu sua música, como se também sentisse a mesma necessidade de parar e de escutar o que o silêncio tinha a dizer. Nessa troca silenciosa, eles se alinharam, conectados por algo que transcendia as palavras.
Eu sou Alice, uma prova vivente de que, pelo menos por um instante, a ordem e o caos não se enfrentaram, mas dançaram juntos numa harmonia efêmera. Ser a filha do amor, ao contrário do que a Clara foi criada, sob rígidos manuais de instruções e expectativas fixas, trouxe uma carga diferente, mais pesada, mais vulnerável. A minha irmã foi criada com regras, com um roteiro a seguir meticulosamente. Eu, por outro lado, cresci no improviso de uma mãe que, de repente, se percebeu à beira de uma perda irreversível e então passou a moldar a minha vida com o coração apertado, tentando salvar o que ainda podia ser salvo.
II. O Fantasma da Digressão
A minha infância foi marcada não pela presença desconfortável do pai, mas pela sua ausência devastadora. O meu pai, Duarte, deixara de desempenhar o seu papel de garanhão local. Tornara-se um músico respeitado, uma palavra que eu aprendi a odiar antes mesmo de aprender a escrever: Tour.
A vida dele era a estrada, uma rotina infinita de viagens e noites longe de casa. A minha vida — a da minha mãe e a minha — era uma espera angustiante. Quando ele fazia as malas, o lar mudava de atmosfera, como se absorvesse uma tristeza maior. O ar ficava pesado, sufocante. Eu assistia-o arrumar as baquetas com mãos trêmulas, beijando minha testa com uma culpa silenciosa, como se estivesse indo embora para sempre, carregando a esperança de ser feliz longe de quem ama, e depois saía.
A porta se fechava com um som cortante, e a minha mãe, Beatriz, desmoronava-se por dentro. Não de forma dramática, com lágrimas e desesperos explícitos; sua desintegração era silenciosa, uma construção de muros que ela erguia cuidadosamente ao redor do coração.
Assim que a carreta da banda virava a esquina, a “Operação Perfeição” começava. Se o Duarte trazia pó e a vida da estrada, sua ausência trazia uma esterilidade fria e cruel. A minha mãe limpava a casa como se quisesse apagar a saudade com lixívia, numa tentativa desesperada de apagar a dor.
— Alice, tira os sapatos. Alice, não deixes migalhas. Alice, o horário.
Eu não tinha forças para ser “melhor do que o pai”, como a Clara. Eu era disciplinada porque minha mãe precisava sentir que controlava algo. Ela não podia controlar a estrada, os shows, as fãs, a distância que os separava. Então, ela controlava a mim. Controlava a hora do jantar, a dobra do meu lençol, tudo com uma tirania alimentada pelo medo.
Era uma tirania silenciosa, nascida do temor de perder tudo. À noite, eu a via na cozinha, sentada na sua cadeira imaculada, os olhos fixos no telefone, à espera de uma mensagem que dissesse: “Cheguei ao hotel”. A mulher de ferro estava enferrujada pelo peso da ansiedade, consumida por um medo que ela escondia até de si mesma.
III. A Frustração da Estátua
Cresci observando minha mãe odiar-se a si mesma com uma intensidade que doía no peito. Beatriz odiava o fato de ter deixado o seu plano ideal fracassar. O plano original era ser mãe solteira, independente, fria — uma mulher inabalável. E agora? Agora ela era uma esposa apaixonada por um homem que nunca estava lá, uma mulher partindo-se por dentro.
Lembro-me claramente de uma tarde de domingo. O pai estivera fora há três semanas, talvez em Espanha, e eu, tão jovem, desenhava na mesa da sala, tentando seguir as regras que minha mãe sempre fazia questão de impor, para não sujar. De repente, deixei escorrer um copo de água — um descuido que se transformou numa tragédia silenciosa. O vidro se partiu; a água escorreu pelo tapete persa que minha mãe adorava, molhando tudo numa mistura de fracasso e dor.
Esperei pelo grito, pelo som da sua frustração, pela palmada que sempre ouvia nas histórias da Clara. Mas minha mãe não gritou. Ela simplesmente olhou para a mancha de água, com a expressão vazia, e sentou-se no chão, no meio dos cacos de vidro, como se o mundo tivesse se dissipado ali mesmo.
— Está tudo estragado, Alice — sussurrou ela, a voz tremendo de tristeza. — Está tudo uma confusão.
Ela não se referia apenas ao tapete. Eu percebi: era a sua vida que ela via destruída naquele instante. Ela olhava para as mãos — mãos de engenheira que um dia desenhavam pontes seguras — e via que a sua própria vida era uma ponte suspensa, balançando ao vento, às vezes prestes a cair. Ela frustrava-se com sua obsessão pela perfeição, como se isso pudesse proteger seu coração.
Ela queria deixar o copo partir-se sem medo, queria não se importar se o tapete ficasse molhado, mas não conseguia. A perfeição era a única forma de não sentir, de não sofrer a dor da ausência.
Depois, ela começou a apanhar os cacos, cortando o dedo no processo, e o sangue se misturou à água. Seus olhos fixaram-se no ferimento com uma fascinação quase de outro mundo, como se fosse a única coisa real naquele lar que parecia um museu de memórias derrotadas.
IV. A Liberdade do Abandono
Devido à profunda frustração que a consumia, minha educação tornou-se um paradoxo doloroso.
A Clara cresceu ao lado de uma mãe que era uma general; eu, ao lado de uma mãe exausta, quase desfeita.
Quando o pai estava ausente, as regras eram rígidas ao extremo, sufocando-nos, deixando-nos sem ar. Mas, quando ele retornava... Ah, quando voltava, o mundo inteiro se invertia.
Duarte entrava em casa como um furacão desgovernado, com histórias exageradas, presentes inúteis e um forte cheiro de gasóleo que impregnava o ar. E Beatriz, exausta de tentar segurar tudo sozinha, acabava cedendo.
Nessas noites, a perfeição desaparecia, deixando roupas espalhadas pelo corredor, jantares de pizza nas caixas e eu, Alice, com permissão para simplesmente ser criança. A mãe nos olhava — eu e o pai, tocando bateria nos tachos e panelas — e seus olhos brilhavam com um sorriso triste.
Era um sorriso de quem via sua vida se transformar em algo que sempre lhe disseram ser um erro: uma existência dependente do humor de um homem. Ela o amava intensamente. Mas odiava tanto amar, odiava que a felicidade da casa estivesse na ponta da chave na porta dele. Cresci nesse embate de mundos que nunca se encaixavam, diferentemente da Clara, que lutou para escapar.
Eu, por minha vez, fiquei observando minha mãe alisar os lençóis de uma cama vazia, tentando ser perfeita num mundo imperfeito. Aprendi que sua obsessão não era maldade, mas pavor. Era sua única forma de se manter firme num universo que girava demais, impulsionado pelo ritmo frenético da bateria do meu pai.
Sou a filha da trégua, embora saiba que ela é frágil, sempre à beira de quebrar.
E minha mãe conhece bem isso: sabe que, a qualquer momento, a música pode parar, deixando tudo em silêncio.




Texto muito sensível e emotivo. Gostei da ideia da narradora ser “a filha do intervalo”. Não nasceu de um plano, mas de um momento raro em que os pais se entenderam de verdade.
A relação entre ordem e caos continua forte aqui, mas de forma mais triste. O pai é ausência, estrada, música. A mãe é controlo, medo e ansiedade. Dá para sentir o peso da espera, o silêncio da casa quando ele vai embora e o esforço da mãe para manter tudo perfeito, como se isso pudesse impedir que a vida desmoronasse.
O que mais toca é perceber que a rigidez da mãe não vem de maldade, mas de medo de perder tudo. E que a felicidade da casa…