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Capítulo 3: Vozes que Silenciam o Vento (Preview)

  • 13 de fev.
  • 3 min de leitura

A noite caíra sobre Whipoz, e o céu, tingido de um azul quase índigo, salpicava-se das primeiras estrelas. Lyer emergiu da orla da floresta, as luzes douradas da aldeia piscando como olhos estranhamente distantes. Cada passo no trilho de terra batida era um passo para longe de um segredo que lhe pesava no peito: Nephz. Aquele rapaz feito de floresta, de olhos selvagens e silêncio compreensivo, era um fardo que ansiava ser partilhado.


O confronto imediato com a irmã, Rurukun, confirmou a sua intuição. Ruru, de olhos arregalados pela preocupação, não se deixou enganar pela mentira simples de Lyer. "Estás estranha. Aconteceu alguma coisa?" A imagem cortante de Nephz veio à mente de Lyer—o seu segredo era demasiado puro, demasiado grande para ser explicado em palavras. "Só... a floresta pareceu-me diferente hoje," foi a sua evasão mais honesta.


O Eremita e o Segredo Ancestral


Na Casa do Ancião, o fogo ardia baixo, e Eron, o pai e líder sábio, aguardava-a. A sua voz era calma, mas a gravidade da advertência ecoou: "Na floresta, isso pode custar vidas."

Mas a repreensão logo se transformou em algo mais profundo. Eron, os olhos fixos nas chamas como se visse além do presente, murmurou: “A floresta está inquieta. Algo mudou.”

Lyer sentiu o seu segredo a pulsar, descompassado. O Ancião, sem olhar para a filha, começou a tecer uma história que arrepiou Lyer até à alma. Falou das PoisonedOaths, uma linhagem amaldiçoada de guerreiros de sombra, cujas vidas eram fragmentadas pela magia corrompida.


"Almas divididas, destinos selados pela escuridão. Mas dizem que, um dia, essa maldição... hesitou. Como se algo dentro dela tentasse respirar diferente, ansiasse por uma liberdade que parecia impossível."

Lyer fixou o pai, uma esperança frágil e incerta a cintilar. “Queres dizer... que alguém escapou à maldição?”

Eron não confirmou, mas a sua resposta foi um eco da verdade: “Hoje senti uma quebra. Como se um eco perdido tivesse encontrado corpo. Talvez não inteiro... mas puro.”

A imagem de Nephz, o "eco sem passado" do qual falava o Ancião, lutava para sair dos lábios de Lyer. O seu pai, um teste de amor e sabedoria, lançou a armadilha: "A floresta fala, filha. E tu estiveste tempo demais dentro dela. Ouviste alguma coisa?"

Lyer olhou-o nos olhos, e mentiu pela última vez. “Não. Só o vento.”

Eron assentiu, mas as suas últimas palavras ressoaram: "Segredos escondem-se dos homens, não da floresta."

Naquela noite, Lyer perdeu o sono, assombrada pelo enigma de Nephz e a sombra da maldição PoisonedOath. A floresta, agora, era um coração a pulsar, e a sua presença selvagem era um convite que ela não podia ignorar. Em silêncio, sob o céu índigo, Lyer tomou a sua decisão.


Iria voltar.


Citação


1. "Os pinheiros altíssimos e as faias antigas, que antes lhe eram um refúgio familiar, agora pareciam observá-la com uma curiosidade silenciosa, guardiões de um segredo que ela carregava no peito."

A sensação de estranhamento de Lyer após o encontro e o peso do segredo.

2. "— 'Estás estranha. Aconteceu alguma coisa?'"

A desconfiança imediata de Rurukun, destacando o forte laço entre as irmãs e a dificuldade de Lyer em mentir.

3. "— 'A floresta está inquieta. Esta noite, os lobos uivaram antes da lua subir. Os pássaros voaram contra o vento. Algo mudou.' "

O presságio do Ancião Eron, confirmando que a presença de Nephz afetou o equilíbrio da natureza.

4. "— 'Há muitos anos, ouvi histórias de uma linhagem amaldiçoada. As PoisonedOaths. Guerreiras de sombra, nascidos com a dor entranhada na alma, cujas vidas eram fragmentadas pela magia corrompida.'"

A revelação do lore central e do nome da maldição que deu origem a Nephz.

5. "— 'Mas hoje senti uma quebra. Como se um eco perdido tivesse encontrado corpo. Talvez não inteiro... mas puro.' "

A confirmação velada de Eron sobre a existência de Nephz, reconhecendo-o como um fragmento "puro" da maldição.

6. "— 'Vai descansar. Mas lembra-te: segredos escondem-se dos homens, não da floresta.' "

A advertência final de Eron, estabelecendo que a verdade não pode ser escondida da natureza ou do destino.

7. "Em silêncio, como o vento que sussurrava entre os pinheiros lá fora, Lyer tomou a sua decisão. Era um segredo que guardaria para si, um destino que ela, e só ela, precisava desvendar. Iria voltar."

A decisão final de Lyer, um gancho forte para o próximo capítulo.

 

1 comentário


Membro desconhecido
19 de fev.

Um pedacinho com uma tensão silenciosa enorme mas muito bonita. Não é acção explosiva mas talvez peso emocional. Sente-se que algo grande está a mover-se por baixo da superfície.

Adoro o contraste entre Lyer e o pai. O Eron simplesmente sabe. A forma como fala da maldição, como se estivesse a confirmar algo sem o dizer diretamente... É daqueles momentos em que percebemos mais do que as personagens admitem.

A frase “Talvez não inteiro… mas puro” é fortíssima. Dá esperança mas também medo. Porque pureza, num mundo amaldiçoado, pode ser tanto a salvação como um alvo.

E o final funciona muito bem. Há decisão. Lyer vai voltar. E sei que essa escolha vai mudar tudo.

Está a construir-se algo maior.…

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