O Contrato da Desordem
- 4 de fev.
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Atualizado: 23 de fev.

I. A Negociação (Antes de Mim)
Antes de ter um corpo, eu era apenas uma cláusula. Não fui concebida num lençol de seda sob o calor de uma paixão avassaladora, nem num erro de cálculo numa noite de copos. Fui concebida numa folha de Excel mental, desenhada meticulosamente por uma mulher que já não acreditava em contos de fadas, mas que se recusava a viver sem um herdeiro. Eu pairava sobre a mesa daquele bar de jazz barulhento no Cais do Sodré, observando-os.
Ela chamava-se Beatriz. Tinha a postura de uma estátua de mármore e a mente de uma engenheira civil — tudo na vida dela tinha de ter fundações, vigas e um propósito estrutural. O amor, para ela, era uma estrutura instável, propensa a colapsos, como o que vira acontecer aos seus pais. Por isso, decidiu eliminá-lo da equação.
Ele chamava-se Duarte. Era o baterista da banda que tocava naquela noite. Duarte era o oposto da engenharia; era improviso, suor, charme barato e um sorriso que prometia tudo e não cumpria nada. Chamavam-no Duarte Ventoso porque nunca ficava no mesmo sítio.
Eu vi a minha mãe, Beatriz, atravessar o bar. Não foi seduzir o baterista; foi entrevistar o dador. — Duarte — disse ela, cortando o ar com a sua voz clínica. — Tenho uma proposta.
Duarte, habituado a fãs que pedem autógrafos ou encontros de uma noite, sorriu aquele sorriso de quem já ganhou. — Um copo? Ou vamos sair daqui? — Vamos negociar — respondeu ela, ignorando o charme. — Quero um filho. Tu tens a genética certa: saudável, resistente, sem histórico de doenças mentais graves, apesar da tua vida desregrada. Eu trato de tudo. Tu das o material genético e desapareces. Sem pensão, sem visitas, sem chatices.
O sorriso de Duarte vacilou. A proposta era demasiado fria, até para um homem que fugia de compromissos como quem foge da polícia. Mas a liberdade absoluta que ela oferecia era o canto da sereia perfeito para o seu egoísmo imaturo.
— Só… material? — perguntou ele, a girar uma baqueta entre os dedos. — E o aperto de mão — disse Beatriz.
Eles apertaram as mãos. Não houve beijo. Houve um contrato. E nesse momento, eu deixei de ser uma ideia e comecei a descer.
[..]
II. O Erro de Cálculo
Nasci numa segunda-feira, de Sol e Cheiro a um Verão promissor. Fiel ao contrato, Duarte não estava lá. Estava em digressão no Sul, a tocar em caves húmidas, a viver a sua lenda de “homem livre”.
Mas a biologia tem um sentido de humor perverso. Beatriz, a mulher de ferro, olhou para mim e sentiu o peso esmagador de saber que uma estrutura de betão não aquece uma criança à noite. E Duarte, ao receber a notícia por um amigo comum — “Eh, pá, a engenheira já teve a miúda, tem os teus olhos” —, sentiu uma curiosidade que o contrato não proibia, mas desaconselhava.
Apareceu três semanas depois, cheirando a tabaco e chuva, com um peluche gigante que não cabia no berço. — Vim só ver se a obra ficou bem feita — disse ele, encostado à ombreira da porta, com medo de entrar.
Beatriz não o expulsou. A sua lógica impecável falhara num ponto: eu precisava de caos para equilibrar a ordem dela. — Entra, Duarte. Mas tira as botas.
Foi assim que o contrato começou a ser rasurado. Duarte não sabia mudar fraldas, mas sabia fazer ritmos no meu peito que me faziam parar de chorar. Beatriz odiava o barulho dele, mas tolerava-o porque eu sorria.
Durante quatro anos, vivemos nesse limbo. Eles não eram amantes, eram sócios numa empresa chamada “Clara” (eu). Mas a pressão externa era exercida por uma prensa hidráulica. A avó Glória, mãe de Beatriz, dizia que a filha era uma vergonha por ter criado uma bastarda. A avó Matilde, mãe de Duarte, dizia que o filho era um canalha se não desse o nome à neta.
Cercados pela moralidade alheia e unidos por uma criança que adorava o pai ausente e a mãe presente, eles cederam. Não por paixão. Mas por uma teimosia partilhada de provar que conseguiam ser “sérios”.
[...]
III. O Casamento (In)Completo
Casaram-se numa conservatória fria. Beatriz vestiu um tailleur cinzento; Duarte vestiu uma camisa que não estava totalmente passada a ferro. — Prometes ser sério? — sussurrou ela, antes de assinar. — Prometo tentar não desafinar — respondeu ele.
Não houve lua-de-mel em Paris. Houve uma mudança para um apartamento T2, em que a engenharia colidiu violentamente com o jazz.
A minha infância tornou-se um campo de batalha territorial. Beatriz era o Ministério da Ordem. Os meus lápis tinham de estar alinhados por graduações de cor. O horário de sono era sagrado. A comida era nutrição, não prazer. Ela amava-me com a ferocidade de quem protege um investimento de alto risco.
Duarte era o Ministério do Ruído. A casa encheu-se de instrumentos, pratos de bateria na mesa de jantar e horários que não existiam. Ele era o pai divertido, o que me deixava comer gelado ao pequeno-almoço se a mãe não estivesse a ver.
Mas o “acordo de seriedade” transformou o meu herói. Beatriz, na sua obsessão de que eu não me tornasse uma “nómada irresponsável”, como o pai, usava-o como braço armado da lei.
Lembro-me do dia em que decidi pintar as paredes do corredor com os batons caros da mãe. Queria fazer um mural, como os cartazes dos concertos do pai. Beatriz chegou a casa e o mundo parou. Ela não gritou. Apenas olhou para Duarte com aquele olhar que dizia: Tu és o culpado disto. Corrige.
Duarte, o homem que vivia para quebrar regras, viu-se obrigado a ser o carrasco para manter a paz no casamento de conveniência. — Clara… — a voz dele tremeu. — Para o quarto. Agora.
Ele tirou-me os batons. Tirou-me a música por uma semana. Ouvi-o chorar na casa de banho mais tarde, enquanto a mãe limpava a parede com lixívia, satisfeita pela ordem ter sido reposta.
[...]
IV. A Herança
Cresci nessa fenda tectónica. Fui moldada pela necessidade de controlo da minha mãe, aprendendo a ler as microexpressões faciais dela para evitar conflitos. Tornei-me perita em esconder quem eu era — uma miúda que adorava o caos — para caber na folha de cálculo dela.
Mas também fui moldada pela inconstância do meu pai. Aprendi com ele que a paixão magoa, mas é a única coisa que nos faz sentir vivos. Vi-o tentar domesticar-se, cortar o cabelo, vender a bateria para comprar um carro familiar “seguro”, tudo para agradar a uma mulher que ele nunca soube amar, apenas obedecer.
Hoje, olho para eles. Estão mais velhos, separados; cada um deles alterou a sua decisão neste contrato, quase como se houvesse uma troca involuntária de papéis. O contrato transformou-se numa estranha forma de lealdade. Não é o amor dos filmes. É um amor feito de cicatrizes, de silêncios partilhados e de uma filha que sobreviveu à guerra entre a engenharia e a música, entre a perfeição e o caos.
Eu sou o resultado desse projeto. Tenho a disciplina fria da minha mãe e o coração caótico do meu pai. E todos os dias, luto para não ser nem a prisão dela nem a fuga dele.
Sou a cláusula que ganhou vida.
E reescreveu o contrato.




É fácil de imaginar. A ideia de alguém dizer que começou como “uma cláusula” é criativa e diferente, prende logo a atenção.
Gostei muito do contraste entre a mãe, organizada e controladora, e o pai, livre e caótico. São opostos, mas ambos reais e humanos. No meio está a filha, a tentar equilibrar os dois mundos e a descobrir quem é.
A história mostra bem como as escolhas dos adultos têm impacto nos filhos, mesmo quando são feitas com boas intenções. E o final é forte: ela não é só o resultado do contrato, é quem decide mudar a história.
É um texto simples na leitura, mas profundo no que diz.