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Nobody's Home - A Casa de Ninguém

  • 23 de fev.
  • 21 min de leitura

Capítulo 1: Sombras no Asfalto


Nobody's Home: A Casa de Ninguém  (Lívia e Nico)
Nobody's Home: A Casa de Ninguém (Lívia e Nico)

A chuva naquela cidade não lavava nada. Era uma espécie de lamento químico, uma névoa fria e pesada que se recusava a purificar; apenas empurrava a fuligem contra o passeio, transformando o mundo numa aguarela cinzenta, pastosa e borrada que cheirava a asfalto molhado e desespero. O cheiro era constante, uma camada invisível que se agarrava à roupa e à pele.

Lívia puxou o capuz do casaco encharcado para cima, o tecido pesado e inútil contra a água implacável. Tentava esconder o rosto, a expressão crispada de quem está à beira do colapso. Não que alguém estivesse à procura dela. A rua estava cheia de pessoas apressadas, figuras escuras sob guarda-chuvas pretos e coloridos, a correr para os seus carros, para os seus apartamentos aquecidos, para vidas que, presumia Lívia, faziam sentido. Vidas construídas sobre a solidez de um futuro previsível. Elas tinham chaves nos bolsos, cartões de crédito e a certeza de um tecto. Lívia tinha apenas as mãos frias e fechadas em punhos, os nós dos dedos brancos, com as unhas a cravarem-se na palma da mão até doer, um ponto de dor aguda para garantir que ainda sentia alguma coisa que não fosse a anestesia do frio.

Cada passo era um esforço. As solas dos sapatos gastos deslizavam no cimento escorregadio. Estava a vaguear há horas, desde que o sol se tinha posto numa explosão de laranja sujo por trás das chaminés das fábricas na periferia, e sentia o cansaço a infiltrar-se nos ossos.

Parou diante da vitrina escura de uma loja de eletrodomésticos fechada, "Electro-Lar", lia-se no néon partido, as letras a piscar num ritmo errático, quase sinistro, como um coração a falhar. Lá dentro, as televisões de ecrã plano e os frigoríficos side-by-side, brancos e imaculados, brilhavam sob a luz interior, parecendo promessas ridículas, quase cruéis, de uma vida confortável e estável que ela jamais teria. O vidro espelhado, manchado pela chuva fina e persistente de uma noite de Novembro, devolveu-lhe um reflexo chocante, mas dolorosamente familiar: a imagem de Lívia.

O rímel, de um preto intenso, escorrera pelas bochechas, vestígios abandonados de uma tentativa falhada de dignidade matinal, a marcar-lhe as maçãs do rosto como duas cicatrizes pretas e húmidas. O cabelo, um emaranhado castanho-escuro com madeixas mais claras que já tinham sido loiras, estava colado à testa e às têmporas pela chuva gelada. A camisola de malha fina, encharcada nos ombros, não oferecia proteção contra o frio que lhe trespassava a pele.

E os olhos... Ah, os olhos. Eram grandes, de um castanho-esverdeado outrora vibrante, mas agora estavam apagados, rodeados por olheiras fundas, cinzentas, que pareciam ter visto demasiado. Demasiados invernos, pensou amargamente, com uma ponta de autocomiseração; demasiadas noites ao relento em bancos de jardim ou átrios de prédios abandonados; demasiadas portas fechadas na cara, um eco constante de rejeição. E tudo isto para uma rapariga que tinha apenas vinte anos, ou talvez vinte e um – já não tinha bem a certeza. A idade parecia um conceito maleável, sem relevância, um número flutuante que importava tanto quanto o estado da sua conta bancária (zero).

Ela afastou o cabelo molhado da testa com um gesto lento, a mão a tremer levemente.

— O que é que se passa agora, Lívia? — murmurou ela para o reflexo, a voz quase inaudível, um sussurro rouco que raspava na garganta. A saliva era espessa. A garganta estava seca, não só pela falta de água, mas por um medo constante que a impedia de respirar fundo. — Demasiados problemas para resolver? As merdas todas a acontecer de novo? Não conseguiste aguentar o tempo suficiente?


Não obteve resposta do vidro, claro, mas sentiu-o. Sentiu o peso de uma ameaça que não conseguia nomear, mas que era tão palpável quanto o frio húmido que lhe entrava pelos sapatos gastos. Uma sombra a enroscar-se no estômago, um nó apertado de ansiedade. Era o pressentimento frio e inconfundível de que as coisas estavam prestes a piorar de uma forma que ela ainda não conseguia imaginar. Não era apenas mais um dia mau, era o limite, o ponto de não retorno, e ela estava a dançar na beira do precipício, os olhos vendados, o vento a assobiar-lhe nos ouvidos.

E então, não foi um toque físico, mas um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura ambiente, mas sim com a alma. Era ele. A presença dele. Persistente, como uma doença crónica. Imortal, porque o amor, mesmo o mais destrutivo, nunca morre, apenas se transforma em dor. A memória dele era uma assombração.

Lívia encostou a testa ao vidro frio da fachada da Electro-Lar. A dor latejante na sua testa parecia competir com a dor lancinante dentro do peito. O gelo do vidro era um alívio momentâneo, uma pausa bem-vinda no turbilhão febril de pensamentos que a assaltavam. Os seus olhos, vermelhos e inchados de noites mal dormidas, fixavam-se num stand de televisões de alta definição que exibiam, em repetição silenciosa, paisagens idílicas que pareciam zombar do seu desespero.


— Eu desejava que tu fosses embora — sussurrou ela, e a sua voz era um fio de som que o barulho da rua engolia sem esforço. Ela fechou os olhos com tanta força que viu estrelas cintilantes por detrás das pálpebras, um esforço físico e inútil para expulsá-lo de vez. — Se tens de partir, parte de vez. Não voltes. Fica em silêncio. Deixa-me em paz. Não me assombres mais.

Mas a memória dele, implacável e persistente, não obedecia às súplicas dela. Ele era o seu parasita emocional, uma criatura silenciosa a drenar a sua vitalidade, e Lívia era a hospedeira perfeita, disposta a morrer em prol da sua sobrevivência. A voz dele, límpida e suave como a primeira manhã da primavera, ressurgiu na mente dela, abafando o ruído monótono do trânsito na rua, o clangor dos elétricos e o burburinho dos peões apressados. Tu sabes que eu ainda tenho tudo de ti, parecia dizer o fantasma, com uma crueldade serena que era a sua marca registada. Tu nunca serás só tua outra vez.

E era a verdade mais aterradora de todas, um veneno lento a correr nas suas veias. Ele tinha levado tudo, peça por peça, até não sobrar nada de essencial. Tinha levado a sua sanidade, trocando a sua estabilidade por crises de pânico que a faziam rastejar para o canto mais escuro do quarto. Tinha levado a sua inocência, aquele brilho ingénuo nos olhos de quem ainda acredita no bem. Tinha levado a capacidade de estar num quarto silencioso sem sentir a vontade histérica e incontrolável de gritar até os pulmões rebentarem, até que o som do seu próprio desespero a libertasse. Tinha levado a sua casa, transformando o refúgio seguro numa cela fria. Tinha levado a sua família, semeando a discórdia e o medo. Tinha levado o seu futuro, substituindo os sonhos por uma névoa espessa de incerteza. E ela continuava ali, parada, diante de um reflexo no vidro que já não reconhecia, um rosto pálido e com olheiras fundas, mas que ele conhecia intimamente. Ele tinha-a reduzido a isto: uma sombra a tremer no escuro, à espera do inevitável colapso.

Com um suspiro exausto que lhe doeu nos pulmões, ela afastou-se da vitrina e continuou a caminhar, sem rumo, os passos pesados e sem destino. Passou por uma cabine telefónica vandalizada, o auscultador pendurado num fio cortado, balançando melancolicamente ao vento frio da tarde. Por um segundo, sentiu o impulso primário e infantil de pegar no auscultador e ligar para casa, para um número que conhecia de cor, à espera que uma voz familiar lhe respondesse, lhe desse as boas-vindas. Mas ligar para quem? E o que diria?


A casa onde Lívia cresceu já não era um lar. Era uma casca, um esqueleto desprovido de alma. As paredes, pintadas num tom de amarelo suave que a mãe insistira em chamar de “sol da manhã”, podiam estar lá, cobertas com o papel de parede floral que a mãe escolhera há tantos anos. O teto, com aquela mancha disforme no canto do quarto que Lívia costumava observar, a sonhar com fugas e futuros brilhantes na adolescência, podia estar lá. Mas o recheio – o calor que emanava da cozinha ao domingo, o cheiro a biscoitos, o som da gargalhada incondicional do pai, a segurança de saber que havia sempre um lugar, ele, tinha desaparecido. Evaporara-se, como a névoa fria que se dissolve impiedosamente ao primeiro raio do sol da manhã.

Lívia queria ir para casa. Precisava desesperadamente de regressar àquele santuário, ao porto seguro que existia apenas nas suas memórias agora, mas não havia ninguém em casa para a receber. A porta, se ousasse abri-la, conduziria apenas ao eco doloroso do que acontecera, à ausência ruidosa que preenchia cada divisão. O peso dessa ausência era mais opressor do que qualquer presença.


Caminhava pelas ruas laterais da cidade, uma sombra entre outras sombras.


— Estás perdida, menina? — A voz áspera e arrastada de um homem que fumava, apoiado à porta de um bar com neón vermelho e desgastado, interrompeu os seus pensamentos. Ele observava-a por entre a fumaça do cigarro, com uma curiosidade mais predadora do que genuína. Os seus olhos eram como os de um lobo que fareja a vulnerabilidade.

Lívia não respondeu. A palavra "perdida" era demasiado suave para descrever o seu estado. Ela apertou o passo, o coração a acelerar com um receio primitivo, virando abruptamente na esquina para um beco mais escuro, uma fenda entre prédios altos onde a luz fraca dos candeeiros de rua mal alcançava. Ela conhecia a escuridão; era o seu ambiente natural nos últimos tempos. Tateava o caminho através dela, guiada apenas pelo bater descompassado e urgente do próprio coração, a única bússola que lhe restava.

Finalmente, encontrou um refúgio improvisado: um canto relativamente seco debaixo da pala apodrecida de um teatro abandonado. O cheiro a mofo e a desespero era familiar. Sentou-se no chão de cimento frio, puxando os joelhos ao peito e aninhando-se numa posição fetal. Estava tão cansada de estar ali, nas ruas, em fuga constante. O cansaço físico era insignificante comparado à exaustão da alma, suprimida por medos infantis que se tinham tornado monstros de carne e osso, reais e tangíveis.

Enquanto a cidade adormecia sob o lamento incessante e monótono da chuva a bater no asfalto, Lívia tentou convencer-se, pela milésima vez, de que estava sozinha. Que era livre, apesar de tudo. Mas quando fechou os olhos, buscando a paz fugaz do sono, o rosto dele assombrou imediatamente os seus sonhos. O seu sorriso possessivo, os seus olhos que prometiam e ameaçavam ao mesmo tempo. Era uma assombração tão real e vívida como a dor latejante nas suas articulações devido ao frio e à humidade.

Ela não tinha para onde ir. Não havia um único esconderijo que fosse verdadeiramente seguro na Terra. Lívia sabia disso com uma certeza fria que se instalara na sua alma há meses. E ele, a sua sombra implacável e persistente, nunca a deixaria ir. A sua obsessão era a única constante no mundo caótico dela, a força gravitacional que a mantinha em órbita de um terror silencioso.

O sono não veio. Já não vinha há muito tempo. O sono nunca vinha de graça; era uma luxúria que exigia um pagamento em exaustão física e mental que Lívia ainda não tinha atingido completamente. Faltava-lhe o colapso final, aquele momento de rendição total em que a mente cedia ao corpo. E enquanto estivesse acordada, estava em fuga, os músculos em tensão permanente, o cérebro a registar cada ruído, cada movimento periférico, numa vigília desesperada.

Debaixo da pala de betão e vidro do teatro municipal, o frio começou a infiltrar-se através das camadas de roupa barata e rasgada, instalando-se nos seus ossos como uma doença antiga e persistente. Era um frio que vinha de dentro para fora, agravado pela subnutrição e pelo medo constante. Ela encolheu-se ainda mais, puxando os joelhos para mais perto do queixo, transformando o seu corpo num casulo minúsculo e ineficaz, tentando conservar o pouco calor que lhe restava. Cada respiração tornava-se um pequeno fumo branco no ar parado e húmido da noite.


Estas feridas parecem não sarar, não é? Pensou ela, a voz interior rouca de desespero. O pensamento era dirigido não apenas ao frio ou à dor da sua posição forçada, mas a algo muito mais profundo. Tocou distraidamente numa cicatriz antiga e esbranquiçada no pulso esquerdo, escondida pela extremidade puída da manga da camisola cinzenta. Não era a mais visível, mas era a que mais doía, o lembrete de um dia em que pensou que o fim era melhor do que a perseguição. Esta dor é demasiado real para ser apenas cansaço.

Os seus olhos, pesados de privação de sono, estavam fixos no espelho de água suja que se formava no asfalto molhado. Podia ver o reflexo distorcido das luzes da cidade, tremeluzindo como estrelas moribundas. De repente, uma quebra no silêncio.


— Ei! Tu aí.


A voz era áspera, um latido seco e súbito que quebrou o ritmo monótono da chuva que caía. Lívia sobressaltou-se violentamente, o corpo a reagir antes que a mente pudesse processar. O coração disparou num ritmo doloroso e ensurdecedor contra as costelas, uma taquicardia de puro pânico. Um segurança, corpulento, com um uniforme azul-escuro demasiado largo e uma lanterna potente na mão, estava de pé a poucos metros, os pés na poça onde há segundos Lívia via o seu reflexo. A luz da lanterna, um círculo branco e agressivo, feriu-lhe os olhos sensíveis, cegando-a momentaneamente e forçando-a a levantar uma mão para se proteger.

— Não podes ficar aqui — disse o homem. Não havia crueldade evidente na voz dele, nem ameaça imediata, apenas uma indiferença burocrática e cansada, o tom de quem repetia aquela frase pela centésima vez. — Propriedade privada. Tens de circular.

Lívia sentiu a adrenalina a escoar-se rapidamente, deixando-a ainda mais exausta. O breve pico de esperança de que talvez ele fosse um potencial salvador, uma fantasia ridícula, sabia ela, desvaneceu-se. Ele era apenas mais um obstáculo, um servo das regras que tornavam a sua sobrevivência um ato de transgressão contínua. Ele não via uma mulher a fugir por desespero; via uma intrusa a ser removida. Tinha de se levantar e de voltar a mover-se, antes que o esgotamento a prendesse ali definitivamente. O asfalto esperava por ela, e a sua sombra, algures na escuridão da cidade, também.

Lívia não se atreveu a discutir. A discussão era um luxo, um ato de resistência que ela já não podia pagar. A Lívia que costumava lutar, que gritava a plenos pulmões quando o mundo parecia desmoronar ou quando uma injustiça a feria, tinha morrido. Morreu naquela outra cidade, naquela outra vida que agora parecia tão distante quanto uma lenda. Restava apenas uma casca resignada. Ela fez o esforço de se levantar, um movimento que a fazia sentir-se velha demais e cansada demais. As pernas, dormentes devido ao frio e à má circulação, protestaram com um formigueiro doloroso.


— Já vou — conseguiu murmurar, a voz reduzida a um sussurro rouco, um som que mal arranhava a indiferença do quarto.

A sua vida estava contida numa mochila gasta, de lona escura. Dentro, havia o essencial e o insuportável: duas mudas de roupa que já cheiravam a humidade e a solidão, um caderno de capa escura que estava quase totalmente escrito, um registo secreto de pensamentos que ela esperava que nunca ninguém lesse, e, no fundo, embrulhada num lenço de papel, havia a fotografia. O objeto que ela não tinha coragem de deitar fora, pois era a última prova de que a felicidade alguma vez existira, mas que também não tinha coragem de olhar, pois a dor era demasiado fresca, demasiado dilacerante.

Agarrou a mochila ao ombro e saiu, mergulhando de novo na cortina pesada e implacável da chuva da noite.


Caminhou sem direção, a água a escorrer-lhe pela testa e a pingar no seu casaco fino. A cidade, sob a chuva torrencial, parecia ter esvaziado as suas entranhas. As ruas transformaram-se em canais sinuosos onde as luzes de néon dos edifícios e dos carros se dissolviam em reflexos líquidos, vibrantes e distorcidos.

Passou por um café com luzes quentes e o letreiro "Aberto 24 Horas" a piscar debilmente. Através do vidro embaciado pela diferença de temperatura e pelo vapor da vida que lá dentro fervilhava, ela viu fragmentos de humanidade: pessoas a bebericar café em chávenas brancas, a rir com a cabeça atirada para trás, a partilhar segredos e calor. Pareciam habitantes de um planeta diferente, uma dimensão onde a segurança e a companhia eram garantidas. Lívia sentiu, então, aquela sensação familiar e opressiva de ser uma anomalia, uma intrusa na sua própria espécie. O seu coração gritava um desejo desesperado e ingénuo: Ela quer ir para casa, mas não há ninguém em casa. E talvez nunca mais haja.


Foi nesse instante de vulnerabilidade cortante que a "Presença" regressou.

Desta vez, não foi a voz sibilante e acusatória que tantas vezes a assombrava no silêncio dos becos desertos da cidade ou na penumbra traiçoeira dos seus pensamentos. Não foi um sussurro malévolo que se insinuava, prometendo-lhe que ela jamais seria livre da culpa. Veio como uma visão nítida e cruel, uma imagem perfeitamente formada que se sobrepunha à realidade cinzenta e chuvosa com a violência de um choque elétrico.

Lívia parou abruptamente junto a um semáforo, os dedos dormentes a apertarem a alça da mala. Olhava para a luz vermelha que parecia perfurar a névoa espessa e o aguaceiro incessante, a tentar focar-se apenas na contagem regressiva, no ritmo mecânico que a podia salvar do abismo. Foi nesse instante de vulnerável concentração que viu o vulto dele.

Ele estava do outro lado da rua, parado no passeio oposto, como se a esperasse. Não demonstrava pressa, nem a impaciência típica dos peões que fugiam do mau tempo. Não usava guarda-chuva. A chuva batia-lhe no cabelo escuro, escorria-lhe pelo casaco de gabardina que Lívia reconhecia tão bem, mas ele não parecia notar o frio ou a humidade penetrante. Os seus olhos, porém, estavam fixos nela, atravessavam a torrente de chuva e a distância.

Não era um olhar de raiva, nem de condenação aberta, o que seria quase mais fácil de suportar. Em vez disso, a sua expressão era de uma tristeza infinita, de um luto eterno, um fardo que parecia dobrar-lhe os ombros. Era a mesma expressão que Lívia reconhecia e que a perseguia incansavelmente há meses, desde o dia fatídico em que tudo mudara. Aquele semblante desolado era a sua sombra mais profunda, o seu maior medo, materializado ali, em carne e osso, separado dela apenas por um rio de asfalto molhado e escorregadio. Era o reflexo da sua própria alma em tormento.


— Tu não és real — sussurrou Lívia, a voz rouca, quase inaudível contra o ruído do trânsito e da chuva. Fechou os olhos com tanta força que viu estrelas cintilarem no negrume. — Tu estás morto. Eu vi-te.

Eu estou aqui, a voz ecoou na mente dela, tão clara e íntima que parecia vir de dentro do seu próprio crânio. Era suave como veludo, mas Lívia sabia que era perigosa como veneno. Eu estou onde tu estiveres. Tu tentaste tanto dizer a ti mesma que eu fui embora, que te libertaste... mas eu ainda estou contigo. Em cada esquina, em cada pensamento, Lívia.


Quando ela abriu os olhos de novo, numa corrida desesperada contra a própria sanidade, o outro lado da rua estava deserto. A calçada, molhada e vazia, refletia apenas a luz vermelha do semáforo, que agora piscava de forma intermitente, zombando da sua paragem forçada e da sua alucinação.

O pânico começou a subir-lhe pela garganta, apertando-a como uma corda invisível, um garrote frio que lhe cortava o ar. Não era apenas o medo do sobrenatural, da presença espectral que parecia segui-la como uma sombra teimosa. Era, acima de tudo, a sensação física e lancinante de asfixia que a memória dele lhe trazia, a incapacidade de respirar, o peito a contrair-se dolorosamente porque o ar à sua volta estava denso, pesado, carregado com a memória, o cheiro a terra e tabaco velho, a presença que já não existia, mas que a envolvia como uma mortalha húmida.

Ela precisava de barulho. Precisava desesperadamente de algo que fosse mais alto, mais real, mais caótico e inegável do que o sussurro que ouvia na sua cabeça. Precisava de quebrar o silêncio mortal da casa vazia, o silêncio que a ligava àquele passado de dor. O ruído, a cacofonia da cidade, era a sua única esperança de abafar o eco daquela voz e a imagem daquela tristeza que a paralisava.


Lívia correu. Correu sem destino, apenas para longe, para onde houvesse vida e movimento. As botas de cabedal, já gastas, chapinhavam violentamente nas poças de água da chuva recente, salpicando as suas calças. A água gelada, que a encharcava até aos tornozelos, ensopava-lhe as meias, mas ela não sentia o frio, apenas o ímpeto da fuga. Não parou, os pulmões a arder, até que os seus olhos embaciados vislumbraram a entrada de néon e metal da Estação Central, um farol de atividade na noite cinzenta.

O local era um purgatório de azulejos brancos e bancos de metal frio, impessoais e duros. O teto, uma abóbada alta e sombria, ecoava a voz metálica e distorcida dos anúncios de comboios que partiam para lugares longínquos, para cidades onde ela nunca iria, nem poderia. O som dos rodados a ranger sobre os carris, o arrastar das malas, o burburinho apressado dos passageiros – era a sinfonia dissonante que ela procurava.

Ela passou os torniquetes abertos, um borrão de movimento, e cambaleou até se sentar num banco de espera afastado, junto a uma pilastra, onde pudesse observar sem ser observada. Estava encharcada e tremia incontrolavelmente, um tremor que não era apenas de frio, mas o rescaldo da adrenalina do pânico.

Com as mãos ainda a tremer, Lívia tirou o caderno da mochila. Era um objeto antigo, com a capa de tecido já marcada e desgastada pelos anos e pelo uso constante, uma textura áspera e familiar sob os seus dedos ansiosos. As páginas, ela notou com um aperto no peito, estavam estranhamente húmidas nas bordas, a absorver a humidade pesada do ar daquela tarde e, talvez, as suas próprias lágrimas não derramadas. Abriu numa página em branco, o papel ligeiramente amarelado oferecendo-lhe um refúgio visual no meio do caos, e pegou numa caneta esferográfica cuja tinta azul estava quase a findar. O som da pequena esfera metálica rolando na extremidade era um ruído minúsculo, mas real, que a ancorava.

Precisava de tirar ele da cabeça. A imagem opressiva, a memória cortante, a presença ausente que a consumia, tudo tinha de ser expulso. Tinha de o colocar no papel, materializá-lo e assim, talvez, exorcizá-lo da sua psique. Se não o fizesse, se não lhe desse forma, se não o transformasse de um fantasma interior numa mancha de tinta externa, iria enlouquecer ali mesmo. Engolida pela sua própria escuridão, sufocada pela dor que lhe apertava a garganta, no meio daquela multidão indiferente que passava apressada, alheia ao seu tormento silencioso.

A ponta da caneta esferográfica arranhou o papel poroso com um som áspero e ligeiramente doloroso, quase como um gemido contido. Lívia inclinou-se sobre a página, concentrando toda a sua vontade e a sua dor naquele pequeno ato de escrita, agarrando-se àquele bloco de notas como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira no meio de um mar revolto. O esforço para transpor o abismo emocional para palavras era físico. Tentou forçar as frases para fora, uma torrente, mas apenas conseguiu escrever uma única frase. A letra, inicialmente tremida e irregular, quase ilegível, era um reflexo visual do seu estado interior, mas estava carregada de uma urgência desesperada. Era a única verdade crua e destilada que lhe restava naquele momento:


“A tua face assombra os meus sonhos outrora agradáveis.”


Lívia recuou ligeiramente, os olhos fixos na frase no papel. Sentiu um misto de frustração e amargura. Era pateticamente insuficiente. Uma tentativa fútil de dar forma ao abismo, de medir a profundidade do oceano de dor que sentia com uma colher. A frase parecia pequena, insignificante, perante a magnitude da sua perda. Ela sabia, com uma certeza fria e cortante, que nada, absolutamente nada que ela pudesse escrever, capturaria a dimensão exata do vazio cortante que agora a definia, que se tornara o seu novo e cruel horizonte. O silêncio do papel, interrompido apenas pelo ruído distante da cidade, era um espelho da sua alma desolada.

Lívia estava sentada num banco frio de madeira, numa das muitas plataformas da estação central. A seu redor, o mundo fervilhava num movimento incessante, uma cacofonia de rodas a ranger, apitos estridentes e vozes apressadas. Centenas de pessoas apressavam-se, arrastando malas, conferindo horários, indo e vindo, cada uma com o seu destino e a sua urgência. Mas Lívia sentia-se a única pessoa estática naquele turbilhão de vida, uma ilha petrificada no meio da corrente. A multidão, em vez de a confortar, apenas amplificava a sua solidão.


O som do seu nome, ou algo parecido, ecoou na sua cabeça.


— Posso sentar-me aqui?


Lívia ergueu a cabeça bruscamente, o coração a dar um salto selvagem no peito. Tinha estado tão absorta na sua dor que não notara a aproximação. Um rapaz estava parado à frente dela, a luz fraca do terminal a realçar os contornos cansados do seu rosto. Tinha o cabelo castanho-escuro desalinhado, como se tivesse passado a noite ao relento ou a lutar contra um sono agitado. Uma guitarra, abrigada numa capa gasta, estava pendurada nas suas costas, e o seu olhar era um espelho daquele que Lívia via todas as manhãs: profundo, desiludido, marcado por uma exaustão que não era apenas física.

Ele não esperou pela resposta. Com um ligeiro encolher de ombros, deslizou para o banco na ponta oposta, mantendo uma distância respeitosa, mas notória.

Um cheiro forte e estranhamente reconfortante invadiu o espaço à volta dela: tabaco envelhecido, café frio e a humidade fria da chuva da madrugada. Ele parecia... real. Sólido. Era o oposto tangível do fantasma etéreo que a atormentava. A sua presença era um contrapeso bruto e pesado à leveza insuportável da sua dor.


— Parece que tiveste uma noite difícil — comentou ele, a voz baixa e rouca, um sussurro que mal quebrou a quietude opressiva do lugar. Não olhou para ela, a sua atenção estava totalmente absorvida pela tarefa de libertar a guitarra da capa, um ato que exigia mais concentração do que o casual do seu comentário indicava. Apenas a ponta do instrumento, o braço e o headstock, estavam expostos o suficiente para que os seus dedos longos e finos pudessem alcançar as cravelhas. Um som metálico, agudo e desafinado, cortou o ar enquanto ele apertava ou soltava uma corda, ajustando a tensão com uma precisão quase mecânica. O seu desinteresse parecia ser o mais genuíno possível, uma indiferença tranquila que, por uma ironia cruel, desarmava Lívia mais do que qualquer olhar intrusivo. Ele não a queria; estava apenas a constatar um facto. E essa ausência de intenção maliciosa tornava a sua intrusão, a simples presença e o reconhecimento do seu estado estranhamente aceitáveis.

Lívia sentiu o sangue subir-lhe ao rosto, uma onda de calor que nada tinha a ver com vergonha, mas sim com uma irritação pura e não adulterada. O seu refúgio, o seu isolamento cuidadosamente construído, tinha sido violado por um estranho com olheiras e um violão desafinado. O seu diário, o seu confidente mudo e o repositório de todos os seus fantasmas, estava aberto no seu colo. Ela fechou-o com uma força que não sabia que possuía. O estalo seco do couro contra o papel soou alto e repentino, uma explosão sónica no silêncio que os envolvia, um alarme não intencional que revelava a sua fúria contida.

O instinto de fugir gritou-lhe alto, uma sirene ensurdecedora na sua mente, o pânico a subir-lhe pela garganta como bile. O seu corpo tenso ansiava por saltar, por desaparecer, por encontrar um canto mais escuro e inatingível. A sua mente disparava as ordens de emergência: Não fales com ninguém. Não dês sinais. Não deixes ninguém entrar. Este era o seu mantra, a regra de ouro, o muro de cimento e vidro que ela havia construído meticulosamente à sua volta, uma fortaleza que ela não podia permitir que fosse derrubada por uma mera pergunta.


— Não tens nada a ver com isso — respondeu ela, a voz fria e cortante, afiada como um caco de vidro. Levantou a barreira invisível de hostilidade, o seu escudo de desprezo que usava contra o mundo, contra as perguntas, contra a pena e, acima de tudo, contra a intimidade. Os seus olhos, antes perdidos na dor, fixaram-se nele com uma intensidade gélida, um olhar desafiador que exigia, sem palavras, que ele se afastasse. Exigia que ele respeitasse a sua distância, que reconhecesse o limite, que a deixasse afundar-se em paz na sua própria miséria, na escuridão que ela havia escolhido.

O rapaz parou de afinar. O som agudo da corda em tensão cessou abruptamente. Ele finalmente levantou os olhos, mas não para o rosto dela, e sim para o caderno fechado nas suas mãos, antes de encontrar os olhos dela. A sua boca curvou-se num sorriso breve, desinteressado. Ele riu, um som curto e seco, que não continha qualquer alegria ou diversão, mais um pequeno ruído de resignação do que uma gargalhada.


— Calma. Eu também não tenho para onde ir.

Ele apertou um pouco mais a cravelha da guitarra, talvez a mesma que estava a ajustar antes. O som que se seguiu não era agradável.

— Só achei que, já que estamos os dois presos neste aquário gigante — continuou ele, com a voz a arrastar-se como se cada palavra fosse um peso desnecessário, deixando a frase pendurada no ar rarefeito, o seu olhar varrendo o espaço vazio e a poeira que se acumulava nos cantos, uma alusão não só ao vazio desolador do lugar onde estavam, mas talvez, mais profundamente, à própria condição humana de isolamento —, podíamos pelo menos fingir que existimos.

Lívia levantou a cabeça. Olhou para ele, realmente olhou, pela primeira vez, ultrapassando a barreira densa e fria do nevoeiro da sua própria dor autoimposta. O que viu não foi uma ameaça, nem um predador, mas um reflexo distorcido de si mesma. Ela viu as olheiras profundas, mais escuras do que as suas, sulcos de esgotamento sob olhos que pareciam ter absorvido demasiada noite, demasiada ausência de descanso. Ele estava tão deslocado quanto ela, talvez ainda mais, um espectro num mundo de presenças.

A sua roupa, um casaco de ganga desbotado e calças escuras, estava amarrotada, marcada pelo sono em superfícies pouco hospitaleiras, e o cabelo, castanho-claro, estava desgrenhado, rebelde. A guitarra, encostada à parede, um modelo Gibson vintage que denunciava um valor considerável, parecia mais um fardo pesado, uma âncora que o impedia de flutuar livremente do que um instrumento de arte. Ela imaginou a história dele: talvez fosse apenas mais um "ninguém" sem casa, um artista sem palco forçado à invisibilidade, ou um "ninguém" que tinha fugido da sua, carregando a única coisa que lhe restava de substancial. Ela sentiu uma pontada súbita de reconhecimento, um arrepio gélido de familiaridade, um vislumbre fugaz de um companheiro involuntário de exílio. O aquário gigante não era apenas a sala de espera; era o mundo deles, agora.


— Eu existo — disse Lívia, a voz subitamente mais baixa, mais rouca, mais vulnerável do que pretendia, o som escapando dos seus lábios rachados pela secura e pelo cansaço. Era uma confissão murmurada mais para si mesma do que para o homem que a observava, uma afirmação desesperada e frágil, quase um protesto silencioso, contra a sensação avassaladora e persistente de irrealidade que a consumia. — Só queria não existir. O peso de ser era quase insuportável. Sinto-me como um erro, uma nota desafinada num concerto que nunca pedi para tocar. Cada dia é uma luta para justificar esta presença, e a exaustão está a vencer a vontade.


O fantasma na sua mente, a voz da crítica que nunca se calava, a sombra da culpa que se agarrava a cada falha do passado, a névoa espessa do cansaço crónico que obscurecia toda a esperança, recuou um pouco, empurrado para o canto mais escuro e húmido da sua consciência. Foi forçado a ceder terreno pela intrusão desta nova pessoa, pela quebra da rotina do isolamento, por esta conversa inesperada no meio da noite, por esta troca de palavras, por mais vazias de significado profundo que pudessem parecer.

Pela primeira vez na noite, talvez pela primeira vez em muitos dias, o silêncio opressor e pesado na cabeça dela não era absoluto. Aquele silêncio, antes, era a ausência de vida, o vazio onde a desesperança florescia. Agora, havia um ruído, um pequeno som, uma fissura na muralha de escuridão, a corda do violão que o estranho acabara de tocar, o som suave e rítmico da respiração dele no ar frio, as palavras que ela tinha proferido e que ainda ecoavam no espaço entre eles. E esse ruído, estranhamente, milagrosamente, era tolerável. Não era música nem consolo, mas era uma distração, uma âncora minúscula no vasto oceano da sua angústia. Era a prova de que o mundo exterior ainda existia, e que ela, mesmo que por um breve instante, estava ligada a ele.


2 comentários


Membro desconhecido
24 de fev.

Este capítulo já me deixou com vontade de continuar... é uma abertura intensa e urbana, com aquela chuva "suja" que parece colar no corpo. Tal como a dor da Lívia.

Ela está sem rumo e sem casa, a sobreviver no limite com um passado (personagem) que a persegue como um fantasma emocional. Não é romance... é peso, obsessão. É trauma. A cidade não a acolhe e a estação reforça isso. Toda a gente tem destino menos ela.

E depois aparece o Nico. Não vem salvá-la, mas surge como um espelho. Alguém igualmente perdido. Isso abre uma fenda no isolamento dela.

Curiosa para saber quem é "ele" de verdade e se o Nico vai ser âncora ou mais uma dor.

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Membro desconhecido
há 14 horas
Respondendo a

Fico muito contente por saber que a atmosfera do primeiro capítulo conseguiu transmitir esse peso e a sensação de isolamento que a Lívia carrega. É gratificante perceber que a descrição daquela chuva "suja" e urbana passou a ideia de algo que não limpa, mas que se agarra ao corpo, tal como o trauma que ela tenta desesperadamente deixar para trás.

A Lívia é, de facto, alguém a viver no limite, tentando encontrar consistência num mundo onde se sente uma anomalia, uma intrusa na sua própria espécie. O "ele" que mencionaste é o grande fantasma emocional da história: uma presença persistente que ela descreve como um parasita, alguém que levou a sua sanidade, a sua casa e o seu futuro, deixando-a…

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