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Nobody's Home - A Casa de Ninguém

  • há 3 dias
  • 14 min de leitura

Capítulo 7 - Onde os Fantasmas Não Entram

33 anos Lívia e a Dra. Beatriz, a sua psicóloga
33 anos Lívia e a Dra. Beatriz, a sua psicóloga

O consultório da Dra. Beatriz era um espaço de luz filtrada de tons de pastel, onde o único ruído constante era o tic-tac rítmico de um relógio de parede.

Lívia, agora com trinta e três anos, estava sentada numa poltrona de veludo cinzento. A maturidade trouxera-lhe uma expressão mais serena, mas os olhos ainda guardavam a profundidade de quem atravessou incêndios internos. As suas mãos repousavam calmas sobre os joelhos, já sem a necessidade febril de cravar as unhas na carne para provar a si mesma que existia.

A Dra. Beatriz observou-a por cima dos óculos, segurando o relatório que continha, finalmente, o nome para o caos: Perturbação de Personalidade Borderline.


— Os "flashes" que descreves naquela fase da tua vida, Lívia — começou a Dra. Beatriz, com uma voz que era como um bálsamo para as cicatrizes da mulher à sua frente — aquelas projeções que chamavas de Gabriel… hoje conseguimos dar-lhes um contexto clínico rigoroso. Não eram assombrações externas ou presenças espirituais. Eram episódios dissociativos e projeções agudas causados por uma desregulação emocional extrema.

Lívia respirou fundo, sentindo o peso da poltrona sob o corpo. — Na altura, eu sentia que estava a enlouquecer. Ele mudava de rosto. Às vezes era o Gabriel do bar, outras vezes era o amigo do Gui. Era como se todos os meus erros tivessem decidido ganhar corpo ao mesmo tempo. Eu via-os fisicamente.

— Isso acontece porque, numa jovem com borderline mal diagnosticado, a dor não tem nome nem fronteiras — explicou a psicóloga, inclinando-se para a frente. — O que descreves como "Gabriel" era, na verdade, uma clivagem defensiva. O teu cérebro não conseguia processar a ambivalência das tuas emoções, então separava o mundo entre portos seguros e incêndios destrutivos. Criaste essa entidade polimórfica como um recipiente para o teu vazio crónico. Era mais fácil lutar contra um fantasma externo do que aceitar a instabilidade da tua própria identidade.

Lívia olhou para a janela, onde o sol de Lisboa brilhava sem a distorção da chuva ácida do passado. — O que mais me custa aceitar, agora aos trinta e três, é perceber como a minha impulsividade foi confundida com maldade. O que fiz ao Gui… eu amava-o. Mas eu tinha esta necessidade física de ser preenchida. Eu achava que o sexo era a única forma de regulação emocional que funcionava.

— Exatamente. O uso do desejo como anestesia é um traço comum — pontuou a Dra. Beatriz. — A tua obsessão em perder a virgindade com o segundo Gabriel, a "aposta segura", foi uma tentativa desesperada de ancoragem social. O borderline cria um medo de abandono tão avassalador que tu sacrificaste o Gui, o amor real, para comprar a aprovação das mães e a sensação de "normalidade" que a sociedade exigia. Estavas a tentar preencher o buraco da identidade com uma transação carnal aprovada pelas figuras de autoridade.

Lívia sentiu um nó na garganta, mas desta vez não a sufocou. Era a clareza do diagnóstico a libertá-la. — Passei anos a ser uma predadora. Eu achava que tinha o controlo quando escolhia as minhas vítimas e as descartava.

— A máscara de predadora era a tua armadura contra a rejeição — disse a Dra. Beatriz. — É o paradoxo do borderline: queres intimidade absoluta, mas tens pânico da vulnerabilidade que ela traz. Se tu fosses a pessoa que descartava, ninguém te poderia deixar. O Gabriel enlouquecia-te precisamente porque ele representava o objeto de desejo inalcançável, a única nota dissonante que alimentava o teu vício em intensidade para evitar a apatia depressiva.

Houve um longo silêncio no consultório. Lívia pegou no seu caderno de capa escura, o mesmo que Nico tinha observado tantas vezes naquelas noites frias.

— A Dra. acha que eu alguma vez vou deixar de ver estes flashes, agora que entendo a biologia da minha dor? — perguntou Lívia, a voz firme.

— O diagnóstico aos trinta e três anos é uma libertação, Lívia. Significa que agora és a arquiteta da tua mente, não apenas a ruína onde os outros moram. Podes olhar para o passado e perceber que o Nico, aquele Nico do hotel, foi o primeiro a ver-te fora da psicose do trauma. Ele não te via como uma manipuladora nem como uma doente. Ele via a miúda a tentar sobreviver a uma tempestade química que não tinha fim.

Lívia sorriu pela primeira vez. Abriu o caderno numa página limpa, onde a luz do sol batia diretamente. — Ele dizia que eu era feita de fumo. Talvez agora eu esteja finalmente a ganhar a consistência que a idade e a verdade me trouxeram.

— Estás pronta para escrever o resto da tua vida? — perguntou a Dra. Beatriz, fechando o relatório. — Desta vez, sem que a desregulação dite as palavras?

Lívia assentiu, sentindo a solidez do seu próprio corpo na poltrona. — Sim. Pela primeira vez em trinta e três anos, sinto que a casa não está vazia. Eu estou cá. E isso é tudo o que importa.


Ao cruzar a soleira da porta de vidro do consultório, o sol de Lisboa atingiu Lívia com uma nitidez quase agressiva, desenhando sombras longas e precisas na calçada portuguesa. O contraste entre o silêncio analítico da Dra. Beatriz e o ruído vibrante da cidade eram um lembrete de que o tempo não parava, mesmo quando a sua mente insistia em revisitar os corredores estáticos de há treze anos. Encostado ao carro, a poucos metros da entrada, o seu marido esperava-a. Ele não era uma projeção da sua mente, nem uma figura desfocada pela desregulação emocional; era uma presença sólida, um homem cuja paciência se tornara o solo onde Lívia tentava, agora aos trinta e três anos, reconstruir a sua identidade.

Ao vê-la, ele desencostou-se do veículo e caminhou na sua direção. O vinco de preocupação entre as suas sobrancelhas era o mapa de todas as crises, episódios dissociativos e noites em claro que tinham atravessado juntos. Ele parou à frente dela, estudando-lhe o rosto com a cautela de quem sabe que o diagnóstico de Borderline é uma jornada de avanços e recuos.

— Sentes-te melhor? — perguntou ele, a voz carregada de uma suavidade que Lívia sentia não merecer em certos dias. — A conversa de hoje ajudou?

Lívia forçou um sorriso, sentindo o peso do caderno na mala, o repositório de todos os seus segredos. No armário da sua mente, os esqueletos dos "Gabriéis" ainda chocalhavam, guardando fragmentos de memórias que ela ainda não tinha tido a coragem de lhe confessar: a traição ao Gui, o desejo destrutivo, a sensação de ser feita de fumo no Hotel do Fim do Mundo. Mas ela olhou para o marido e viu a solidez do presente.

— Sim — respondeu ela, estendendo a mão para encontrar a dele. — Sinto que as coisas estão finalmente no caminho de ficar melhores. A Dra. Beatriz ajudou-me a dar nomes aos monstros. É mais fácil lutar contra algo que tem um nome clínico.

Enquanto caminhavam devagar em direção ao carro, Lívia parou e olhou-o nos olhos, sentindo uma onda de gratidão que lhe apertou a garganta.

— Eu sei o quanto te sacrifiquei, especialmente nesta última fase — confessou ela, a voz baixando para um sussurro sincero. — Sei que não tem sido fácil ser a âncora de alguém que insiste em soltar-se do fundo. Se ainda estás aqui, depois de tudo o que a minha doença nos atirou à cara, é sinal de que me amas de verdade, com borderline ou sem ele.

Ele apertou-lhe a mão, um gesto silencioso de confirmação, mas Lívia continuou, precisando de depositar nele a promessa que a mantinha a lutar.

— Eu prometo-te que um dia vou conseguir libertar-me totalmente destes demónios. Vou fechar as portas de todos aqueles corredores escuros e deixar os fantasmas lá dentro. Um dia, vou conseguir ser tua a cem por cento, sem sombras, sem interferências de passados que já não existem. Vou ser apenas eu, a Lívia, inteira e presente para ti.

O marido não pediu explicações sobre quem eram os demónios, nem perguntou pelos nomes que ela ainda guardava em silêncio. Ele apenas a puxou para um abraço, um abrigo de carne e osso que cheirava a vida real e a café fresco, e não a mofo e alfazema. Lívia encostou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos, percebendo que, embora a caminhada fosse longa, ela já não estava a correr sozinha por um labirinto infinito. 




A transição da névoa absoluta para a realidade foi um processo doloroso e fragmentado. Primeiro, houve o som: a voz de Nico, um grito rouco que parecia vir do fundo de um túnel, repetindo o nome dela como se fosse um mantra de sobrevivência: "Lívia, por favor! Lívia, acorda!". Depois, o caos sensorial: o estrondo metálico de uma porta de ferro a bater, o choque do ar frio da rua e o uivo lacerante das sirenes que cortavam a madrugada. E então, o nada. Um vácuo negro e silencioso que pareceu durar uma eternidade.

Quando a consciência finalmente regressou, trouxe consigo uma pontada lancinante na têmpora, um latejar rítmico que transformava a claridade do quarto numa tortura. Lívia abriu os olhos devagar, a visão turva focando-se num teto de gesso branco, imaculado e frio. O cheiro a antisséptico e a lençóis lavados com cloro substituiu o odor a mofo e alfazema das suas alucinações.

Ela tentou mover a cabeça, mas a dor obrigou-a a soltar um pequeno gemido seco. Foi então que percebeu que não estava sozinha.

Sentado numa poltrona de napa azul, a poucos metros da cama, estava Nico. Ele não parecia o rapaz desafiador do Hotel do Fim do Mundo. Estava curvado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça baixa. O casaco de ganga estava sujo de pó e tinha manchas escuras de sangue seco nos punhos, o sangue dela. Ao ouvir o som que Lívia soltou, ele levantou a cabeça bruscamente.

Lívia estacou. Os olhos de Nico estavam terrivelmente injetados, de um vermelho vivo e denso, a prova irrefutável de quem tinha estado a chorar compulsivamente durante horas. No entanto, assim que os seus olhares se cruzaram, ele tentou recompor-se, endurecendo o maxilar e desviando o rosto por um breve segundo, numa tentativa vã de esconder o rasto do seu desespero.

— Finalmente — disse ele, a voz tão rouca que mal passava de um sussurro. Ele limpou o canto do olho com as costas da mão, um gesto rápido e defensivo. — Pensei que tinhas decidido ficar por lá, naquele corredor.

Lívia tentou humedecer os lábios secos, sentindo o peso da ligadura que envolvia a sua cabeça.

— O que aconteceu? — perguntou ela, a voz saindo fraca, quase inaudível. — As sirenes... as portas...

Nico soltou um riso seco, desprovido de qualquer humor, enquanto se endireitava na poltrona. Ele ainda tremia ligeiramente, embora as suas mãos estivessem fechadas em punhos para o disfarçar.

— O que aconteceu foi que tu desmaiaste e bateste com a cabeça naquela viga de betão. Eu tive de te carregar por três lances de escadas no escuro, a rezar para que não parasses de respirar. Tive de chamar uma ambulância para um prédio condenado e inventar uma história qualquer para os paramédicos não chamarem a polícia. — Ele fez uma pausa, os olhos vermelhos fixos nela, carregados de uma mistura de fúria e alívio. — Tu quase morreste, Lívia. Outra vez. E tudo por causa de sombras que nem sequer estavam lá.

Lívia desviou o olhar para a janela do quarto, onde a luz da manhã era real e impiedosa. A culpa por ter arrastado Nico para aquele abismo pesava mais do que a dor de cabeça.

— Desculpa — murmurou ela, fechando os olhos para não ver o sofrimento dele. — Eu não queria… eu não consigo controlar.

— Eu não quero as tuas desculpas — retorquiu Nico, levantando-se da poltrona com movimentos rígidos. Ele aproximou-se da cama, mas parou a uma distância de segurança, como se tivesse medo de que a fragilidade dela o quebrasse também. — Eu quero que tu percebas que eu não sou o Gabriel. Eu não sou um fantasma. Eu sou o gajo que está aqui, com os olhos a arder e o coração nas mãos, porque não aguentava ver mais ninguém desaparecer.

Lívia olhou para ele e viu, pela primeira vez, que Nico não era apenas a sua âncora; ele era a vítima colateral do seu passado. Naquela poltrona hospitalar, a máscara de ambos tinha caído, deixando apenas dois destroços a tentarem perceber como se sobrevive ao dia seguinte.

O quarto de hospital parecia subitamente pequeno demais para o peso do que pairava entre os dois. Nico mantinha-se de pé, a curta distância da cama, com as mãos enterradas nos bolsos do casaco de ganga sujo, enquanto Lívia evitava o seu olhar, focando-se no tubo do soro que lhe entrava na veia.

— Nico… desculpa. Por tudo o que te fiz passar ontem à noite. — A voz de Lívia era um fio de som, carregada de uma vergonha que a fazia querer desaparecer sob os lençóis brancos.

— Eu não quero as tuas desculpas, Lívia. Quero respostas. — Nico deu um passo em frente, a frustração fazendo a sua voz vibrar. — Quem são eles? Tu gritavas por nomes... Gabriel, Gui. Estavas a fugir de sombras como se elas tivessem facas. O que é que se passa nessa tua cabeça?

Lívia fechou os olhos com força, sentindo a pontada na têmpora intensificar-se. O medo de falar era quase físico, uma barreira de cimento na sua garganta.

— Eu não posso falar sobre isso. Se eu os deixar sair... se eu te contar quem eles foram e o que aconteceu... eles tornam-se realidade outra vez.

Nico franziu o cenho, o rosto crispado de incompreensão e cansaço.

— Do que é que estás a falar? Eles estão mortos, Lívia? Estão noutro sítio?

— Eles estão presos aqui dentro. — Ela tocou timidamente na ligadura da cabeça. — Enquanto eu os mantiver no escuro, eles são apenas fantasmas. Mas se eu lhes der voz, se eu os trouxer para o mundo real, eles voltarão a ocupar todo o espaço. Eles voltam a tirar-me o ar. Eu não posso permitir que eles saiam, Nico. Percebes? É a única forma de eles não voltarem a ser reais.

Nico soltou um riso amargo, passando a mão pelo rosto com um gesto de pura impotência. A vermelhidão dos seus olhos parecia arder mais intensamente sob a luz fluorescente.

— Não, não percebo nada! Tu estás a preferir desfalecer num corredor e quase abrir a cabeça do que partilhar o que te atormenta? Isso é uma loucura!

— É a minha segurança. — Lívia finalmente olhou para ele, os olhos transbordando de uma tristeza profunda. — Se eu te contar, tu passas a vê-los também. E eu não quero que eles te toquem.

Nico deu um murro leve na poltrona ao lado, a frustração a transbordar. Ele sentia-se inútil, um espectador forçado a ver um desastre sem poder intervir.

— Eu estou aqui a tentar ser a tua âncora, a tentar puxar-te para a superfície, e tu continuas a nadar para o fundo para proteger monstros! — Ele exalou o ar ruidosamente, os ombros descaídos sob o peso da própria inutilidade. — Eu quero ajudar-te, Lívia. Quero mesmo. Mas como é que eu luto contra algo que tu te recusas a deixar-me ver? Sinto que estou a tentar segurar fumo com as mãos.

Lívia viu o tremor nas mãos de Nico e a dor que ele tentava mascarar com raiva. Ela queria abrir-se, queria entregar-lhe todas as chaves da sua memória, mas o pânico da reatualização do trauma era mais forte.

— Tu já me ajudas, Nico… só por estares aqui. — A voz dela tremeu.

— Estar aqui não chega se eu te estou a ver desaparecer à minha frente! — Retorquiu ele, a voz embargada. Ele afastou-se, caminhando até à janela e ficando de costas para ela, olhando para o nada. — É frustrante saber que tu preferes o teu inferno sozinha a uma saída comigo. Sinto-me um idiota à espera de um comboio que tu já decidiste que não vai passar.

O silêncio voltou a instalar-se, mas desta vez era um silêncio oco, despido de proteção, onde a impotência de Nico e o segredo de Lívia se observavam sem saberem como se tocar. O som da porta a correr interrompeu o silêncio. Uma médica de meia-idade, com um estetoscópio pendurado no pescoço e um olhar que já vira demasiadas madrugadas, entrou com um passo decidido. Os seus olhos fixaram-se imediatamente nas mãos de Nico, manchadas de sangue seco, e depois na postura defensiva de Lívia.

— Sr. Nico, peço-lhe que nos dê um momento a sós — disse a médica, a voz suave, mas com uma autoridade inquestionável.

Nico hesitou, olhando de Lívia para a médica.

— Eu… eu posso ficar. Eu não a deixo.

— Sr. Nico — insistiu ela, aproximando-se da cama e colocando-se entre os dois, um escudo de bata branca. — É o protocolo das urgências. Só um momento. Há cadeiras lá fora.

Nico apertou o maxilar, a frustração de ser visto como um agressor a brilhar nos seus olhos vermelhos, mas a derrota venceu-o. Ele assentiu vagamente, lançou um último olhar desamparado a Lívia e saiu, fechando a porta com um estalido que pareceu ecoar pelo hospital inteiro.

A médica esperou até ouvir os passos dele afastarem-se. Depois, puxou o mocho para perto da cama e começou a verificar as pupilas de Lívia com uma lanterna.

— Lívia, olha para mim — pediu ela, a voz agora mais baixa, quase um sussurro. — Podes falar comigo. O teu amigo… ele parece muito perturbado. Estás segura com ele? Foi ele quem te causou isto?

Lívia sentiu um aperto no peito, uma urgência em defender a única pessoa que não a tinha abandonado no escuro.

— Não. Não foi ele. O Nico salvou-me. Eu… eu tropecei. Estava a fugir de algo que não estava lá e bati com a cabeça. Ele carregou-me às costas. Ele nunca me tocaria.

A médica baixou a lanterna e observou o rosto pálido de Lívia, detendo-se nas olheiras profundas e no tremor quase impercetível das suas mãos sobre o lençol.

— Acredito em ti. Mas, Lívia, este ferimento na cabeça vai sarar numas semanas. O que me preocupa é o que te fez correr num prédio condenado às quatro da manhã.

Lívia desviou o olhar, sentindo a barreira do silêncio a erguer-se novamente.

— São só… pensamentos. Coisas do passado que não calam.

— Não são apenas pensamentos — retorquiu a médica, segurando-lhe a mão com uma firmeza profissional, mas empática. — Tu tens o olhar de quem está exausta de lutar sozinha contra sombras. O que tu sentes, esse medo que se projeta nos corredores, esse vazio que te faz desfalecer… tem nome. E tem tratamento.

Lívia sentiu o lábio tremer.

— Eu não posso deixá-los sair. Se eu falar, eles tornar-se-ão reais.

— Eles já são reais para ti, Lívia. Tão reais que quase te mataram esta noite. Tu precisas de alguém que trate do que não aparece no raio X. Um especialista. Alguém que te ajude a organizar esse caos antes que ele te consuma por inteiro. O teu amigo quer ajudar-te, mas ele não tem as ferramentas. Nem tu.

Houve um silêncio pesado. Lívia ouvia o bipe distante das máquinas no corredor.

— Existe alguém assim? Que consiga calar os fantasmas sem os tornar reais?

— Existe. Mas tu tens de estar disposta a abrir a porta daquela cela. Não deixes que o medo de enfrentar o que passou te roube o que ainda pode ser. Vou deixar aqui o contacto de uma colega da psiquiatria. Promete-me que vais pensar nisso.

Lívia não respondeu, mas os seus dedos fecharam-se ligeiramente sobre o cartão que a médica pousou na mesa de cabeceira. Pela primeira vez, a ideia de que a sua mente era um labirinto clínico e não um castigo divino começou a infiltrar-se, uma semente de esperança plantada entre as ruínas do que ela fora.

A alta hospitalar veio com o nascer de um sol pálido que parecia expor todas as fissuras do mundo real. Lívia caminhava com passos curtos, a cabeça pesada não apenas pela ligadura, mas pela conversa com a médica que ainda ecoava nos seus ouvidos. No bolso do casaco, o cartão da psiquiatra parecia queimar contra a sua coxa, um objeto sólido que prometia dar nome aos seus demónios.

Nico seguia ao lado dela, em silêncio. A fúria da noite anterior tinha dado lugar a uma exaustão oca. Ele já não tentava ser a âncora; parecia apenas um homem a tentar manter-se à tona.

— Vais para onde? — perguntou Nico, sem olhar para ela, enquanto paravam num cruzamento deserto. O hálito dele ainda era uma nuvem de fumo no ar frio.

— Não posso voltar para o hotel, Nico. Não agora — respondeu Lívia, em voz baixa. — Sinto que as paredes daquele sítio estão cheias de vozes que eu ainda não estou pronta para calar sozinha.

Nico parou e finalmente olhou-a nos olhos. O vermelho ainda lá estava, mas agora acompanhado por uma resignação amarga.

— Então a médica convenceu-te. O cartão. Vais mesmo deixar que alguém te abra a cabeça para procurar os teus Gabriéis?

Lívia apertou o cartão no bolso. — Eu quase morri, Nico. Tu quase perdeste o juízo a tentar salvar-me de nada. Não posso continuar a ser feita de fumo. Tenho de ter alguma consistência, nem que seja através de comprimidos e sessões de terapia.

Nico soltou um riso triste e deu um passo atrás, aumentando a distância entre eles.

— Consistência. Engraçado. Eu achei que a nossa música era suficiente para te manter aqui. Mas percebo. Eu sou apenas o gajo que te carrega às costas; ela é a que te explica por que é que caíste.

— Não é assim, Nico… — Lívia estendeu a mão, mas ele recuou.

— É, sim. Mas está tudo bem, Lívia. Se esse cartão é o que te impede de ver vultos em cada esquina, então vai. Eu vou voltar para a minha ruína. O Alex não precisa de médicos para ser lembrado.

Lívia viu-o afastar-se, a silhueta do rapaz da guitarra a tornar-se pequena contra o cinzento da cidade. Ela quis correr atrás dele, dizer-lhe que ele fora a única coisa real num mar de alucinações, mas a exaustão venceu-a.

Ela olhou para o cartão na sua mão: Dra. Beatriz – Psiquiatria.

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