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Nobody's Home - A Casa de Nínguem

  • há 5 dias
  • 14 min de leitura

Capítulo 6 - A Geometria do Arrependimento

Lívia e a Fuga dos "Gabrieis"
Lívia e a Fuga dos "Gabrieis"

O sono, quando finalmente reclamou Lívia, não trouxe o esquecimento, mas sim uma descida abrupta a uma divisão da sua mente que ela tinha mantido selada a sete chaves. No topo do Hotel do Fim do Mundo, com a cabeça encostada ao betão gélido e o cheiro a tabaco de Nico a servir de última âncora à realidade, ela mergulhou.

No sonho, a sala dourada era diferente. Não havia piano, apenas o peso de livros escolares empilhados e o tédio de um namoro de um ano que parecia uma linha reta demais. Ali estava o Gui. Lívia sentiu as borboletas, aquela agitação física e terna que só ele provocava, a despertarem no estômago enquanto o via inclinado sobre os cadernos. Ele era o amor, o porto seguro que a mãe dela, no entanto, descrevia como um desvio, uma distracção sem futuro. A pressão da mãe e o relógio social das amigas batiam nas paredes daquela casa imaginária como uma pulsação ensurdecedora. Ela sentia-se atrasada, uma estranha na sua própria biologia por ainda não ter atravessado a fronteira que todas as outras já tinham cruzado.


Então, a porta abriu-se e o ar da sala tornou-se denso, carregado com um magnetismo perigoso. Gabriel entrou. Mas este não era o Gabriel enigmático do bar; era o amigo do Gui, o mestre da rotação, o homem que fazia da conquista uma ciência e do palavreado um veneno doce. O seu rosto no sonho era nítido, mas as vozes das mães de ambos sussurravam nas sombras, uma bênção familiar que funcionava como uma armadilha de seda. Gabriel aproximou-se dela, sussurrando sobre a inexperiência do Gui, sobre como ele nunca a levaria ao lugar que ela desejava. Ele utilizava o conhecimento que tinha da família para se infiltrar, para parecer a "aposta segura" que a mãe de Lívia aprovaria, enquanto as suas mãos prometiam o incêndio que o Gui, com toda a sua doçura, não sabia como atear.


O sonho tornou-se uma colagem frenética de desejo e culpa. Lívia via-se a si própria, na sua tenra idade, a aceitar o veneno de Gabriel como se fosse um remédio para a sua doença psicológica escondida: aquele vazio que gritava por ser preenchido por toque corporal, por sexo, por qualquer coisa que a fizesse sentir-se "normal". No centro do pesadelo, ela viu-se nos braços de Gabriel, sentindo o efeito avassalador do desejo físico, a crueza do sexo que ela tanto ambicionava. Foi uma transação: ela entregou a sua virgindade em troca de uma sensação de pertença social e prazer carnal. Mas enquanto Gabriel a possuía com a confiança de quem já tinha feito aquilo mil vezes, Lívia olhava por cima do ombro dele e via o Gui.

Gui estava parado à porta, com os olhos magoados de quem tinha sido traído pela pessoa que mais amava e pelo amigo em quem confiava. Lívia queria gritar que o amava, que o carinho que sentia por Gabriel era apenas uma sombra comparada com a paixão que sentia por ele, mas o corpo dela estava preso no êxtase mecânico que Gabriel lhe proporcionava. O prazer era real, mas a alma estava a ser dilacerada. Ela percebeu, naquele transe onírico, que tinha trocado a sua alma e segurança por uma tempestade controlada que a mãe aprovava, reprimindo o romance para dar lugar ao desejo bruto.

No sonho, o ar era espesso, carregado com o cheiro a alfazema que a mãe de Lívia usava em casa, um lembrete constante de que todas as escolhas ali eram monitorizadas por olhares familiares e expectativas sociais. Ela estava parada num corredor que parecia não ter fim, sentindo a palma da mão de Gabriel contra a sua, um toque firme, confiante, de quem sabia exatamente onde pisava e como manipular o terreno. Ele falava-lhe com aquela voz cativante e experiente, destilando veneno sobre as hesitações de Gui, transformando a doçura do namoro dela em algo infantil, sem futuro e, acima de tudo, incompleto. Foi nesse momento que ela o viu. Gui caminhava na direção oposta, com a pasta ao ombro e aquele olhar de carinho que ainda fazia as borboletas dela despertarem, mesmo sob a neblina do cansaço psicológico. Quando os olhos de Lívia se cruzaram com os de Gui, um fio de eletricidade pura ligou-os por um milésimo de segundo, uma promessa de romance e amor verdadeiro que ela estava prestes a sacrificar no altar do desejo e da aceitação familiar.


Gabriel percebeu a mudança no pulso dela, a hesitação que lhe percorreu a espinha ao ver o ex-namorado. Sem desviar o olhar de Gui, que agora passava a poucos centímetros deles, ele puxou Lívia com uma força possessiva, segurando-lhe a nuca com uma mão que exalava domínio e experiência. Antes que ela pudesse processar o protesto que lhe subia à garganta, Gabriel esmagou os seus lábios contra os dela num beijo público, deliberado, uma marcação de território que cheirava a fumo e vitória. Lívia sentiu o impacto no corpo, o desejo que ele sabia despertar com precisão cirúrgica, o efeito corporal de duas almas a tocarem-se daquela forma crua que ela tanto ambicionava, mas, por dentro, o seu espírito recuou, sentindo uma estranheza gélida, como se estivesse a ser despojada da sua própria vontade para satisfazer uma necessidade que nem ela entendia bem.

Quando ele finalmente a soltou, Lívia viu o vulto de Gui desaparecer na escuridão do corredor, os ombros dele descaídos como se tivesse acabado de ver a sua própria execução silenciosa. Ela afastou-se um milímetro de Gabriel, a respiração curta e o coração a bater contra as costelas como um animal encurralado. Os lábios ainda lhe ardiam com o toque possessivo, mas o sabor era amargo.

— Isso foi… ele estava a passar, Gabriel. Não precisavas de ter feito isso aqui, à frente dele — murmurou Lívia, os olhos fixos no chão, sentindo o peso daquela reação estranha e o arrependimento a começar a infiltrar-se nas fendas da sua determinação.

Gabriel sorriu, mas não era o sorriso de um amante; era o de um conquistador que já tinha todos os aliados do seu lado, incluindo a aprovação das mães. Ele segurou o queixo dela, obrigando-a a olhar para ele, os olhos brilhando com a satisfação de quem sabe que ganhou a aposta.

— Precisava, sim, Lívia. Precisas de perceber de uma vez por todas que aquele "porto" já fechou para ti. O que tu tinhas com o Gui era uma brincadeira de crianças, um namoro de um ano que não te levou a lado nenhum e que a tua mãe detestava ver-te perder tempo. Aqui, comigo, tu tens o que realmente queres, o que o teu corpo está a gritar para ter. 

Ele aproximou-se outra vez, a voz baixando para um sussurro que era simultaneamente uma promessa e uma ordem. 

— As nossas mães conhecem-se; elas apoiam isto. Eu sou a tua aposta segura, Lívia. Não te percas em nostalgias inúteis por alguém que não te soube dar o desejo que eu te dou. Tu és minha agora. Fui eu que te mostrei o que é a paixão física, e és tu que vais escolher se queres continuar a ser uma miúda ou se queres finalmente ser a mulher que eu vejo em ti. O Gui é o passado que nunca te tocou de verdade; eu sou o presente que te reclama.

Lívia sentiu a armadilha de seda apertar-se em torno do seu coração. Ela amava o Gui, mas o corpo dela agora respondia ao comando de Gabriel, uma traição biológica que a deixava sem defesa diante da pressão de não ser mais "nova" no assunto. Ela era a rapariga que todos queriam e que, naquele momento, se tornava a propriedade de um homem que usava a amizade das mães como escudo e o desejo como corrente. O sonho começou a fragmentar-se, as paredes da escola a dissolverem-se na chuva do Hotel do Fim do Mundo, enquanto a imagem de Gui se tornava um fantasma distante e a mão de Gabriel se fechava possessivamente na sua cintura, reclamando cada grama daquela virgindade que ela estava prestes a entregar como quem paga um resgate pela sua própria normalidade.


Lívia acordou com um sobressalto, o peito a arfar e o suor frio a colar-lhe o cabelo à testa. O grito que não conseguiu soltar no sonho ficou preso na garganta, transformando-se num soluço seco. A luz da lanterna de Nico ainda estava acesa, embora mais fraca. Ele estava sentado à frente dela, observando-a com uma expressão que oscilava entre a irritação profunda e uma preocupação que ele tentava esconder.


— Outra vez o Gabriel? — perguntou Nico, a voz áspera, mas com uma nota de cansaço que Lívia nunca lhe tinha ouvido. 

— Tu estavas a murmurar nomes. Gui... as vossas mães... — Nico passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro de pura frustração. 

— É difícil ajudar alguém que tem saudades do próprio veneno.


Lívia olhou para Nico, a imagem do Gui ainda a queimar-lhe a retina e o peso da aposta segura com Gabriel a esmagar-lhe o peito. Ela queria explicar que o Gabriel do pesadelo foi o primeiro a ensinar-lhe que o desejo e o amor podiam ser caminhos opostos, e que a sua doença psicológica tinha começado ali, naquela troca desequilibrada. Mas a barreira do seu silêncio, reforçada pela vergonha daquela memória, era agora uma muralha intransponível.

— Não era veneno — mentiu ela, a voz a falhar, enquanto voltava a esconder o rosto na manta. — Foi apenas uma escolha... a única escolha que eu podia fazer na altura.

Nico não disse mais nada, mas a frustração dele era quase palpável, uma presença sólida no escuro que Lívia não conseguia ignorar. O pesadelo tinha terminado, mas o dia que se aproximava prometia ser ainda mais implacável.


A luz daquela manhã não trazia o dia; trazia apenas uma claridade cadavérica que expunha as entranhas apodrecidas do Hotel do Fim do Mundo. Lívia observou Nico por um segundo, o peito dele subindo e descendo num ritmo pesado, como se ele estivesse a lutar contra os seus próprios demónios enquanto dormia. Ela sentia-se uma intrusa naquela paz precária, um parasita que sugava a sanidade dele para alimentar as suas próprias assombrações.

Com a respiração suspensa, ela desceu as escadas. A madeira gemia sob os seus pés, um som que parecia o choro de algo enterrado sob o edifício. O frio no corredor lá baixo era diferente; era um frio húmido, que cheirava a terra de cemitério e a canos rebentados. Dentro da pequena casa de banho, o espelho manchado parecia uma ferida aberta na parede. Lívia abriu a torneira e a água jorrou num jacto violento, tão gelada que parecia feita de agulhas de gelo.

Enquanto lavava o rosto, o silêncio do hotel foi substituído por uma distorção. Não era um som, era uma pressão nos ouvidos. E então, o cheiro. Não era apenas perfume. Era o cheiro asfixiante de alfazema da casa da mãe misturado com o fumo denso de cigarros caros. Um aroma que evocava a aprovação materna e a traição carnal no mesmo fôlego. Lívia ergueu a cabeça e o seu reflexo no espelho começou a desfocar-se, a ondular como se o vidro estivesse a derreter.

Pelo canto do olho, na penumbra do corredor que se reflectia no vidro, ele apareceu.

Gabriel não era nítido. Era um erro na visão, uma mancha de estática humana que vibrava entre a sombra e a luz. Onde deveria estar um rosto, havia uma sucessão de traços que mudavam rapidamente: o sorriso do conquistador, o olhar de posse, a máscara de "aposta segura" que as suas mães tinham abençoado com uma satisfação cruel.

Lívia virou-se, o corpo trémulo, as costas coladas ao azulejo frio e rachado. O corredor parecia ter-se esticado, tornando-se infinito e opressor.

— Sai... daqui... — a voz dela saiu como um estalido de osso seco.

— Como podes expulsar o que tu mesma convocaste, Lívia? — a voz de Gabriel era um sussurro plural, um coro de sombras que parecia vir de dentro das paredes. Ele deslizou pelo corredor sem que os pés tocassem o chão, a sua imagem distorcendo-se como uma interferência radioactiva. — Tu escolheste o desejo. Tu trocaste o "Bom Porto" do teu amado pelo meu veneno, porque o teu corpo estava doente de necessidade. Tu querias sentir o toque, e eu fui o carrasco que te deu o que a tua mãe queria: um namoro com futuro, enquanto eu te roubava a alma.

Ele parou a centímetros dela. O ar à volta dele estava gelado, mas Lívia sentiu a pele arder, uma memória fantasma daquela paixão física que a consumira. A nitidez dele aumentou subitamente; ela viu os olhos dele, negros e insondáveis, reflectindo a imagem da miúda de vinte anos que se entregara para não ser a única "nova" no assunto.

— O Gui ainda chora nos teus sonhos, não é? — Gabriel inclinou a cabeça, um movimento desumano, rápido demais. — Tu sentiste carinho por mim, mas era a ele que tu amavas. E, no entanto, aqui estás tu, no escuro, a ser reclamada por mim outra vez. Eu sou a tua segurança, Lívia. Sou o beijo que te marcou à frente dele para garantir que ele nunca mais te olhasse com pureza.

Lívia sentiu as pernas falharem. O arrependimento era uma mão invisível a apertar-lhe a garganta, impedindo o grito. Ela via o rosto de Gui a desvanecer-se na névoa atrás de Gabriel, uma luz que se apagava para sempre. A força que ela queria ter para o enfrentar era uma mentira; o que sentia era uma submissão dolorosa a um erro que as famílias tinham selado como "certo".

— Tu não és nada... — ela soluçou, mas a mão desfocada de Gabriel pareceu fechar-se em torno do seu queixo, um toque que era simultaneamente possessivo e gélido.

— Eu sou o que resta de ti, Lívia. Podes subir e tentar esconder-te naquele rapaz que toca guitarra, mas o cheiro da minha conquista está entranhado na tua pele. Tu não és a mulher que ninguém vê. Tu és a mulher que eu destruí para que ninguém mais pudesse ver.

A alucinação vibrou com uma intensidade tal que Lívia sentiu os dentes a baterem. Gabriel não era apenas uma memória; era uma sentença. Ele reclamava-a no corredor sujo do hotel com a mesma autoridade com que a reclamara no quarto, sob a bênção das mães e a morte do seu verdadeiro amor. O arrependimento não era apenas dor; era o som de uma porta de ferro a fechar-se, deixando-a sozinha com o monstro que ela própria tinha ajudado a alimentar.

Lívia lançou-se pelo corredor, os pés descalços a baterem no cimento húmido com um som abafado e frenético. O ar nos pulmões parecia feito de vidro moído. Ela não olhou para trás, mas sentia a pressão no ar, uma pulsação gélida que fazia as paredes do Hotel do Fim do Mundo parecerem respirar. Cada porta fechada que passava parecia um olho cego a observar a sua fuga. O corredor, que antes era apenas betão e sombra, começou a esticar-se, as perspetivas a distorcerem-se numa geometria impossível e claustrofóbica.

De repente, a luz de um candeeiro solitário e defeituoso no teto estalou, e ele apareceu. Gabriel projetou-se à frente dela, barrando o caminho com uma nitidez que a obrigou a cravar os calcanhares no chão para não chocar contra ele.

Mas não era apenas um. Eram dois. Duas versões do seu subconsciente, manifestadas com uma crueza que fez o sangue de Lívia gelar.


À esquerda, encostado a uma viga de ferro, estava o Gabriel, o Enigma. Ele tinha a postura relaxada de quem observa um espetáculo medíocre. O seu rosto era uma mancha de luz âmbar e fumo, a personificação daquela indiferença benevolente que a transformara numa predadora desesperada. Ele rodava uma garrafa de cerveja entre os dedos, o som do vidro contra o metal a ressoar como uma nota de piano desafinada.


À direita, bloqueando a saída de emergência, estava o outro Gabriel, o Gabriel do Desejo. Ele estava envolto num casaco de gabardina que cheirava a alfazema e a traição premeditada. A sua imagem vibrava com uma estática agressiva, os olhos negros fixos em Lívia com a satisfação possessiva de quem ainda guarda o segredo da sua virgindade como um troféu de guerra.

Lívia recuou, encurralada entre os dois pilares da sua própria ruína.

— Para onde vais, Lívia? — A voz do primeiro Gabriel era suave, vinda de um lugar onde o sol nunca se punha. — Vais subir para o Nico? Vais fingir que a tua essência morreu? Lembras-te de como me caçavas com o olhar enquanto eu fingia que não te via? O teu erro foi achar que o meu silêncio era um convite, quando era apenas o espelho do teu vazio. Tu gastaste a tua alma a tentar seduzir uma estátua.


— E quando não conseguiste o que querias dele, o que é que fizeste? — A voz do segundo Gabriel era mais áspera, um sussurro carregado de veneno familiar que lhe subia pelas pernas como uma corrente elétrica. Ele deu um passo em frente e o cheiro a fumo tornou-se asfixiante. — Tu usaste-me. Usaste a bênção das nossas mães para destruir o único "Bom Porto" que tinhas. Lembras-te do rosto do Gui no corredor? Lembras-te do momento em que eu te beijei só para garantir que ele visse que tu eras minha? Tu trocaste o amor pelo efeito corporal. Tu querias sentir o toque, mas a única coisa que sentiste foi a morte do que era puro em ti.

Lívia levou as mãos à cabeça, os soluços a rasgarem-lhe a garganta.

— Parem... por favor, parem...

— O arrependimento é a única coisa real que te resta, Lívia — continuou o Gabriel do Desejo, a imagem dele agora tão nítida que ela conseguia ver o brilho cruel no seu sorriso. — Tu entregaste a tua virgindade porque tinhas medo de ser diferente das outras. Tu transformaste o sexo numa transação social e mataste o Gui no processo. Foste tu que escolheste este incêndio.

— Tu nunca foste a predadora, Liv — acrescentou o primeiro Gabriel, a voz agora vinda de trás dela, como se estivesse a sussurrar-lhe diretamente no ouvido. — Tu foste sempre a vítima. De ti mesma. Do teu desejo de ser vista por quem te desprezava. E agora, nem o Nico te consegue ver através de toda esta estática.

O corredor começou a vibrar violentamente. As duas figuras começaram a fundir-se numa única massa de memórias distorcidas, um amálgama de braços que a reclamavam e vozes que a acusavam. Lívia sentiu o chão desaparecer sob os seus pés. O arrependimento não era mais uma emoção; era uma substância física, negra e pegajosa, que a puxava para o fundo.

A nitidez do pesadelo acordado era insuportável. Ela via o rosto magro de Gui a sobrepor-se às faces dos Gabrieis, um fantasma dentro de outro fantasma. Ela estava a cair novamente na espiral, perdendo a noção de onde acabava o hotel e onde começava a sua própria mente doente. O Hotel do Fim do Mundo não era mais um refúgio; era a sala de interrogatório onde os seus erros tinham finalmente ganho corpo para a reclamar para sempre.

Lívia correu. O corredor esticava-se diante dela como um tendão arrancado, uma perspetiva impossível onde as portas pareciam bocas abertas, prontas a engolir o que restava da sua sanidade. O ar estava saturado com o cheiro a mofo e o perfume doce e asfixiante de alfazema, uma mistura que lhe revirava o estômago. Por mais que as suas pernas batessem contra o cimento frio, a distância entre ela e a saída não diminuía. O Hotel do Fim do Mundo tinha-se tornado um labirinto vivo, uma armadilha tecida pelas suas próprias memórias. Em cada esquina, a luz bruxuleante projetava sombras que ganhavam a forma do seu tormento.

O primeiro Gabriel apareceu à sua esquerda, atravessando uma parede como se o betão fosse feito de fumo. Ele não corria; caminhava com aquela calma aristocrática que sempre a fizera sentir-se pequena. O som do vidro da sua garrafa de cerveja a bater nas paredes ecoava como um metrónomo fúnebre. À sua direita, bloqueando a próxima curva, surgiu o outro Gabriel. A imagem dele vibrava com uma estática agressiva, o casaco de gabardina a esvoaçar num vento que só ele sentia. O rosto dele era uma máscara de satisfação possessiva, os olhos cravados nela como se ainda estivesse a saborear a vitória de a ter reclamado diante do tudo o que ela traíra.

Eles estavam em todo o lado. Lívia via os seus rostos sobrepostos em cada mancha de humidade, ouvia as suas vozes fundirem-se num sussurro único que lhe subia pela espinha. 

Tu escolheste o fogo, Lívia. 
Tu trocaste o amor pelo toque. 
Tu nunca serás livre. 

O pânico subiu-lhe à garganta, um garrote de ansiedade que lhe roubava o oxigénio. Ela tentou gritar, mas a voz morreu no ar denso de poeira e arrependimento. Os Gabrieis aproximavam-se, as suas mãos estendidas como garras etéreas prontas a puxá-la de volta para o ciclo eterno de busca e rejeição.

No auge do desespero, Lívia não viu a viga de madeira podre que atravessava o caminho. O impacto foi súbito e brutal. O pé prendeu-se na madeira lascada e o corpo foi projetado para a frente com a violência de uma queda em câmara lenta. O mundo inclinou-se violentamente. A testa de Lívia encontrou o canto de um pilar de betão com um som seco, um estalido que ecoou por todo o corredor como um tiro.

A dor foi uma explosão de luz branca que rapidamente se transformou numa escuridão densa e pegajosa. O chão frio contra o seu rosto foi a última sensação física que registou. Enquanto o véu do desfalecimento a envolvia, as vozes dos Gabrieis começaram a ser abafadas por um ruído diferente, algo que vinha de cima, da realidade que ela tentara desesperadamente alcançar. Era um som áspero, carregado de uma urgência humana que não pertencia ao reino das sombras.


— Lívia! Lívia, porra, acorda!


A voz de Nico atravessou a estática da sua mente como um relâmpago. Não era a voz de um fantasma; era a voz de alguém que estava vivo, que estava presente e que gritava o seu nome com uma frustração que escondia um medo genuíno. Foi a última âncora antes do negrume total a reclamar, deixando o seu corpo imóvel no corredor sujo, enquanto os seus demónios observavam da penumbra, esperando para ver se a ânfíbia da realidade conseguiria puxá-la de volta do abismo.


2 comentários


Membro desconhecido
há 3 dias

A forma como mostras o sonho com o Gui e a entrada do Gabriel é mesmo forte, porque dá para sentir claramente o momento em que ela começou a perder o equilíbrio entre amor, desejo e pressão externa. Foi fácil perceber que ela não escolheu o Gabriel apenas por ele, mas também por tudo o que estava à volta... a pressão da mãe, das expectativas, da necessidade de se sentir “normal”. Isso torna a história muito mais humana e real, porque mostra como às vezes tomamos decisões que parecem pequenas naquele momento, mas que acabam por marcar uma vida inteira. Também gostei muito da forma como o Gabriel aparece como várias versões no corredor. Não é apenas uma pessoa, é quase a…

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Membro desconhecido
há 14 horas
Respondendo a

É muito gratificante perceber como a "geometria do arrependimento" deste capítulo ressoou contigo de uma forma tão profunda. A ideia de que a Lívia não escolheu o Gabriel apenas pelo que sentia, mas também como uma resposta desesperada às expectativas da mãe e à procura de uma normalidade ilusória, é um dos pontos mais sensíveis da sua queda. Aquele corredor com as várias versões do Gabriel tenta materializar precisamente como o passado deixa de ser uma linha reta para se tornar um labirinto de culpas que a consomem por dentro. É nesse caos mental que o Nico se torna tão vital; ele é o som real, a presença que tenta quebrar o ciclo de sombras que ela própria alimentou. Estamos…

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