Nobody's Home - A Casa de Ninguém
- 6 de mar.
- 20 min de leitura
Capítulo 5 - O Peso das Sombras Vivas

Lívia sentiu o coração bater contra as costelas como um animal enjaulado no momento em que os seus olhos se abriram, subitamente arrancados daquela pista de dança onde o mundo tinha parado. O suor frio na sua testa contrastava com o calor residual da memória do toque de Gabriel, uma lembrança tão vívida que ela quase conseguia sentir a pressão dos dedos dele no seu braço e o som daquela voz baixa que lhe prometera o incêndio. O diário estava aberto ao seu lado na cama do hotel, as páginas ligeiramente amarrotadas pelo peso do seu corpo, servindo como uma âncora cruel entre o que ela fora e o que restava dela agora. A música de Nico, que na estação tinha parecido uma ponte de salvação, tinha-se transformado no gatilho para aquele mergulho profundo no passado, embalando o seu sono apenas para a trair com o regresso dos fantasmas que ela tentava desesperadamente enterrar sob a manta de lã áspera.
Ela sentou-se devagar, tentando acalmar a respiração enquanto observava Nico, que ainda dormia a poucos metros de distância. Na penumbra do quarto, ele parecia estranhamente vulnerável, despojado da guitarra e da atitude defensiva que o caracterizava na Estação Central. Lívia contemplou o seu novo amigo com uma mistura de gratidão e terror, perguntando a si mesma se seria realmente possível manter uma amizade nova depois de tudo o que tinha perdido. A sua mente viajou por todos aqueles que tinham passado pela sua vida e que a tinham abandonado de certa forma, deixando-a como a única habitante de uma casa que outrora transbordava de vida e de caos. Ela pensou em Joel, em Artur e na bondade que nunca soube retribuir, e sentiu o peso daquela reputação de "Maneater" que agora lhe parecia uma vestimenta demasiado pesada para o corpo exausto que possuía.
O debate interno consumia-a enquanto a luz pálida da manhã começava a infiltrar-se pelas cortinas do hotel. Lívia questionava-se se Nico seria apenas mais um "fantasma" em potência, alguém que acabaria por se tornar uma cicatriz no seu pulso ou uma entrada dolorosa no seu caderno de capa escura. A ideia de se ligar a alguém novamente trazia consigo o medo visceral do abandono, a certeza de que a sua presença era um presságio de desastre. No entanto, havia algo na forma como Nico a acolhera, sem perguntas e com a partilha silenciosa de um mapa de perdas, que a fazia hesitar em fugir. Ela fechou o diário com cuidado, tentando não fazer barulho para não o acordar, sentindo que estava num novo tipo de precipício. Desta vez, o perigo não era cair no poço de onde Gabriel a puxava com o olhar, mas sim a possibilidade de permitir que alguém caminhasse ao seu lado sem que ela tivesse de usar o seu veneno como proteção ou a sua beleza como arma.
Lívia não esperou que ele acordasse. A decisão de partir foi um reflexo condicionado, um instinto de preservação que se sobrepôs a qualquer vestígio de conforto que o calor do hotel ou a presença de Nico pudessem oferecer. Ela levantou-se com movimentos felinos e silenciosos, fechando o diário de capa escura como quem sela uma ferida aberta, e lançou um último olhar para o homem que dormia, sentindo o peso daquela amizade que nem sequer tinha chegado a florescer. Para Lívia, a proximidade era o prelúdio da perda, e ela preferia a dor limpa do abandono voluntário à agonia lenta de ver mais alguém transformar-se num fantasma. Saiu do quarto sem deixar um bilhete, carregando consigo apenas o caderno, a manta de lã que ele lhe emprestara e a certeza de que a sua existência era uma linha que não devia cruzar-se permanentemente com a de ninguém.
Lá fora, a cidade já tinha despertado para um novo dia, mas a luz da manhã não trazia esperança, apenas uma claridade crua que expunha a sujidade acumulada nas esquinas e o cansaço nos rostos dos transeuntes. Lívia envolveu-se na azafama matinal, tentando mimetizar o passo apressado de quem tem um destino, um emprego ou uma casa para onde regressar. Ela camuflou-se na multidão, tornando-se uma mancha cinzenta entre os fatos engomados e as pastas de couro, usando a indiferença dos outros como um escudo. A "Maneater" que outrora dominava os bares com um olhar estava agora reduzida a uma sombra anónima, uma mulher que evitava os reflexos das montras para não ter de encarar a verdade do seu próprio declínio. Sem um cêntimo no bolso e com o corpo a reclamar o desgaste das últimas horas, ela percebeu que a sua autonomia era uma ilusão alimentada pela adrenalina e pelo desespero.
A fome começou a manifestar-se não como um desejo, mas como uma dor surda e insistente que lhe roía as entranhas, obrigando-a a procurar o centro de apoio para sem-abrigo que conhecia de outras derivas. Na fila, rodeada por homens e mulheres que partilhavam o mesmo silêncio de quem já perdeu quase tudo, Lívia sentiu o estigma da sua nova realidade. Quando lhe entregaram o pequeno-almoço, um café morno e um pão que parecia ter sido esquecido pelo tempo, ela comeu com uma urgência animal, focada apenas na tarefa de calar o estômago. Era uma batalha de prioridades: precisava de silenciar o corpo para conseguir lidar com o barulho ensurdecedor da sua própria cabeça. Enquanto mastigava, os pensamentos sobre Gabriel, sobre a casa da avó e sobre a noite em que tudo ardeu continuavam a assombrá-la, sussurrando que não importava o quanto ela corresse ou o quanto tentasse esconder-se entre os despojados do mundo, a memória dele era uma inquilina que não pagava renda, mas que exigia cada centímetro da sua sanidade. Ela estava ali, alimentando-se da caridade alheia, enquanto o veneno do passado continuava a circular nas suas veias, lembrando-lhe que, para a consciência, não havia sopa nem pão que trouxessem a paz.
Lívia apertou o copo de plástico entre as mãos, sentindo o calor residual do café aguado a desvanecer-se contra o ar cortante da manhã. O barulho da avenida, com os seus carros apressados e o ritmo mecânico da cidade que desperta, servia de banda sonora para a sua tentativa de se tornar invisível. Ela estava sentada num degrau de cimento à porta do centro de acolhimento, com o olhar fixo no chão, quando uma sombra se projetou sobre os seus pés. O cheiro a tabaco e a presença silenciosa de Nico fizeram-na encolher-se instintivamente. Ele não disse nada de imediato; apenas se sentou ao lado dela, deixando a guitarra descansar contra a parede, como se fosse a coisa mais natural do mundo partilhar aquele degrau com alguém que tinha acabado de fugir dele.
— O pequeno-almoço no hotel teria sido mais confortável, sabes? — comentou Nico, com a voz rouca, sem olhar diretamente para ela. — Não entendi porque saíste sem dizer nada.
Lívia manteve os olhos fixos na berma do passeio, a sua mão apertando o pão seco que lhe restava.
— Eu não pedi para me seguires, Nico — respondeu ela, com uma rispidez que escondia o tremor na voz. — Não deixei nota porque não há nada para dizer. Aquilo... o hotel, a música... não muda o que eu sou. Eu não pertenço a sítio nenhum.
Nico suspirou e chutou uma pequena pedra, observando-a rolar pelo asfalto.
— Eu não te segui. Este é o meu bairro, as pessoas como nós acabam sempre por aterrar nas mesmas esquinas. Só não percebo porque corres como se tivesses visto um fantasma.
Lívia sentiu o peso do diário no seu bolso, o segredo de Gabriel e a memória daquela noite a queimarem-lhe a pele, mas não permitiu que nada transparecesse. Para Nico, ela era apenas uma mulher perdida na estação; ele não tinha ideia de quem ela fora ou do que a assombrara durante o sono. Ela guardava cada detalhe do pesadelo sob sete chaves, protegendo o seu passado como se fosse a única coisa que ainda lhe pertencia.
— Tu não sabes nada sobre mim — retorquiu ela, levantando finalmente o olhar, carregado de uma fúria defensiva. — Não penses que por me teres dado uma manta agora és o meu salvador. Toda a gente que tenta aproximar-se acaba por se arrepender. Eu prefiro a solidão deste degrau à tua pena.
Nico olhou-a fixamente, com uma paciência que a desarmava mais do que qualquer insulto.
— Eu não tenho pena de ti, Lívia. Teria pena se fosses como as pessoas que passam por aqui sem ver nada. O que eu vejo é alguém a tentar flutuar, tal como eu. Somos dois destroços, lembras-te? Mas até os destroços podem navegar juntos por um tempo para não afundarem tão depressa.
Ele levantou-se e estendeu-lhe a mão, num gesto calmo que não exigia nada em troca.
— Podes continuar a fugir e a esconder-te nesta multidão, fingindo que és invisível. Mas o teu caderno continua contigo e a tua história não se vai escrever sozinha enquanto estiveres aqui sentada. Queres continuar a alimentar-te de caridade ou queres tentar encontrar um motivo para caminhar mais um dia, mesmo que não saibamos para onde?
Lívia hesitou, olhando para a mão estendida e depois para o centro de acolhimento atrás de si. Ela ainda não estava pronta para confiar, nem para admitir que os seus segredos eram o que a impediam de respirar, mas percebeu que a fuga solitária não lhe trazia a paz que procurava. Com um suspiro de exaustão, ela colocou a mão sobre a dele e levantou-se, decidindo que, por hoje, o mistério do que ela escondia continuaria apenas seu, enquanto aceitava a companhia de alguém que, tal como ela, conhecia o mapa do abismo. Começaram a caminhar juntos, duas figuras anónimas mergulhando novamente na azáfama indiferente da cidade.
A caminhada prosseguiu sob um céu que parecia um teto de chumbo, baixo e opressivo. Nico mantinha o passo lento, respeitando o espaço de Lívia, mas a sua presença era constante, uma sombra que não se deixava dissipar pelo vento frio. Pararam junto a um miradouro esquecido, onde o ferro das vedações estava devorado pela ferrugem e a vista para a cidade era uma colagem de telhados cinzentos e fumo industrial. Lívia encostou-se ao parapeito, sentindo o metal gelado atravessar o tecido do casaco, enquanto as mãos se fechavam automaticamente em torno do diário no bolso. Nico deixou a guitarra repousar contra as pernas e acendeu um cigarro, observando a forma como ela evitava olhar para qualquer coisa que não fosse o horizonte turvo.
— Tu seguras esse caderno como se ele fosse a única coisa que te impede de flutuar para longe daqui — comentou Nico, a voz saindo calma entre as nuvens de fumo. — Mas às vezes parece que o que está lá dentro é o que te está a afogar. Tu não disseste uma palavra sobre o que te aconteceu, e não precisas de o fazer se não quiseres, mas o silêncio também mata, Lívia.
Lívia sentiu a rigidez habitual apoderar-se dos seus ombros e desviou o rosto, tentando ignorar a forma como ele parecia ler as entrelinhas da sua postura defensiva. Ela não lhe ia falar de Gabriel, nem do fogo, nem da forma como a sua vida se tinha desintegrado em estilhaços de vidro e mágoa.
— O silêncio é a única coisa que não me trai, Nico — respondeu ela, com a voz cortante como o vento que subia do rio. — As palavras são perigosas. Elas dão nome a coisas que deviam ficar sem rosto. Se eu começar a falar, talvez não consiga parar, e eu não estou pronta para o que viria depois.
Nico deu uma passa longa no cigarro e olhou para ela com uma paciência que a irritava, porque não continha a curiosidade mórbida que ela esperava encontrar. Ele não queria colecionar a sua tragédia; ele queria apenas entender o mapa do abismo onde ela se encontrava.
— Eu não estou a pedir que me entregues os teus fantasmas — disse ele, num tom mais suave. — Mas até os fugitivos precisam de um porto de abrigo. Tu estás sempre a correr, mas para onde é que vais quando as ruas se tornam pequenas demais? Onde é que fica a tua casa, Lívia? De onde é que vens realmente?
A pergunta atingiu Lívia com a força de um soco físico. A imagem da casa da avó, com as suas janelas outrora iluminadas e as noites cheias de música e rostos que agora eram sombras, surgiu na sua mente com uma nitidez dolorosa. Ela lembrou-se do calor da cozinha, da confusão na sala e da forma como aquele lugar fora o seu mundo antes de se tornar uma casca vazia.
— A minha casa ainda existe — murmurou Lívia, os olhos subitamente húmidos enquanto fixava o vazio. — Ela está lá, exatamente no mesmo sítio. As paredes continuam de pé, o jardim continua a crescer, a morada não mudou. Só que não está ninguém em casa que me possa receber. Sou uma estranha à porta de um lugar que já foi meu, mas que agora está trancado por dentro.
Nico ficou em silêncio, processando a resposta dela, e percebeu que a casa de que ela falava era muito mais do que tijolos e argamassa. Era o símbolo de uma pertença que se tinha partido. Ele aproximou-se um pouco, sem invadir o seu espaço, mas oferecendo a sua presença como um contraponto àquela solidão que ela descrevia.
— Às vezes as pessoas não estão lá para nos receber porque nós também deixámos de estar lá para as encontrar — disse ele, com uma lucidez que a desarmou. — Talvez a tua casa não esteja vazia, Lívia. Talvez estejas apenas a olhar para a porta errada. Tu dizes que ninguém te pode receber, mas aqui estás tu, e aqui estou eu. No meio deste nada, ainda há quem consiga ver que tu não és apenas um resto de memória.
Lívia não respondeu, mas sentiu que, pela primeira vez, o nó na sua garganta não era apenas feito de dor, mas de uma confusão nova e assustadora. Ela continuava a não lhe contar o que se passara naquela noite de dança e destruição, mas o facto de Nico ter aceitado o seu segredo sobre a "casa vazia" sem a julgar fez com que ela não sentisse a necessidade imediata de fugir. Ali, naquele miradouro enferrujado, ela percebeu que o problema não era a falta de um teto, mas a convicção de que ela já não merecia o calor de uma lareira. Nico não era o seu salvador, mas era o primeiro que não fugia quando ela mostrava as rachadelas na sua armadura. O vento continuava a soprar, mas por um instante, o peso do diário pareceu um pouco menos insuportável.
O vento gelado que subia do rio trazia consigo um cheiro metálico, mas, por um instante, o olfato de Lívia foi invadido por algo impossível: o odor a tabaco de enrolar e couro velho, o perfume exato que Gabriel exalava naquelas noites em que a observava de longe. Foi um estalo no seu subconsciente, uma falha na realidade que fez o cenário cinzento do miradouro oscilar. Ela desviou o olhar de Nico e fixou-o na berma da estrada, lá em baixo, onde a neblina se misturava com o fumo de um cano de escape. No meio da azafama indiferente da cidade, ela viu-o. Era apenas um vulto parado entre a multidão apressada, um homem de ombros largos e postura calma, com aquele olhar que parecia atravessar o tempo e a carne. O fantasma de Gabriel não acenou, nem sorriu; ele apenas estava lá, uma âncora de culpa plantada no meio do presente dela.
Lívia sentiu o chão fugir-lhe e o parapeito enferrujado pareceu inclinar-se perigosamente. A vertigem não era física, era uma sucção da memória que a puxava para fora do seu corpo. Ela deu um passo involuntário em direção ao vazio, os dedos escorregando no metal húmido, a mente gritando que se ela se aproximasse o suficiente, se ela cruzasse aquela linha, ele deixaria de ser uma sombra e voltaria a puxá-la do poço. O barulho dos carros tornou-se o som abafado de uma música de bar e a luz do dia transformou-se no néon intermitente que queimava as suas retinas. Ela estava prestes a perder o equilíbrio, o corpo pendido para a frente, quando uma mão firme e quente lhe agarrou o braço com uma força que a trouxe de volta ao betão de forma violenta.
— Lívia! Onde é que tu vais? — a voz de Nico cortou a névoa, carregada de um pânico contido que ela nunca lhe tinha ouvido.
Ela piscou os olhos repetidamente, o coração a martelar contra os dentes, e olhou novamente para a estrada. O vulto tinha desaparecido. Não havia Gabriel, não havia tabaco, não havia nada além de desconhecidos apressados e o cheiro a lodo. Lívia respirou fundo, tentando disfarçar o tremor que se apoderara de todo o seu corpo, e soltou-se do aperto de Nico com um gesto brusco, embora a sua pele ainda ardesse onde ele lhe tocara. Ela voltou a esconder as mãos nos bolsos, agarrando o diário como se a vida dependesse daquele papel.
— Eu só... tive uma tontura. O café do centro deve ter-me caído mal — mentiu ela, a voz saindo num fio quase impercetível, os olhos evitando o olhar inquisidor de Nico.
Nico não recuou, mas a sua expressão mudou para algo mais sombrio, uma compreensão silenciosa de que o perigo não vinha da altura do miradouro, mas do que Lívia carregava dentro da cabeça. Ele percebeu que, por um segundo, ela não esteve ali com ele; ela esteve num lugar onde ele não podia entrar.
— Não foi o café, Lívia. Tu olhaste para aquela rua como se tivesses visto o fim do mundo ou o início dele — disse Nico, guardando o cigarro e aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o seu calor, mas sem a tocar. — Tu dizes que a tua casa está vazia e que ninguém te pode receber, mas parece-me que estás a tentar convidar alguém que já lá não mora para voltar. Tu estás a lutar contra uma sombra que te quer levar com ela, e eu não vou ficar aqui parado a ver-te saltar para trás desse fantasma. Se queres realmente que o teu caderno tenha um fim, tens de parar de olhar para o que está morto e começar a ver quem está aqui, vivo, a tentar segurar-te o braço.
Lívia sentiu uma vontade súbita de chorar, não de tristeza, mas da exaustão de ter de esconder a verdade de alguém que parecia vê-la com tanta clareza. Ela queria gritar que o fantasma dele era mais real do que qualquer pessoa naquela rua, mas as palavras ficaram presas na garganta, sufocadas pelo segredo que a definia. Ela olhou para Nico, vendo pela primeira vez o cansaço nos olhos dele, e percebeu que ele estava a oferecer-se para ser a sua âncora no presente, mesmo sem saber contra que tempestade estava a lutar. Ela não respondeu, mas não se afastou quando ele deu mais um passo, permitindo que o silêncio entre eles fosse, por uma vez, uma forma de proteção e não de fuga. O fantasma de Gabriel podia estar à espreita em cada esquina, mas ali, naquele miradouro, a mão de Nico ainda era o único toque que a impedia de desaparecer.
A descida do miradouro foi feita sob um silêncio denso, apenas interrompido pelo som das botas de Nico e pelo sibilar do vento que parecia empurrá-los de volta para as entranhas da cidade. Nico caminhava ao seu lado, mantendo uma distância que respeitava o seu espaço, mas a sua presença era tão sólida que quase podia sentir o calor que emanava do seu casaco de ganga. Ele tentava, à sua maneira rústica, suavizar o impacto da noite, falando sobre como a cidade tinha uma forma estranha de devorar quem ficava parado por muito tempo. Ele dizia que o regresso ao chão era sempre a parte mais difícil, porque os fantasmas não sabiam lidar com a gravidade.
Cruzaram as ruas laterais onde as luzes de néon começavam a falhar. Lívia sentia-se a atravessar um oceano de vidro moído, enquanto Nico continuava a ser o seu farol invisível. Quando finalmente chegaram ao beco lateral do Hotel do Fim do Mundo, a porta de metal enferrujado pareceu-te menos uma entrada para uma ruína e mais a boca de um refúgio. Nico abriu a fechadura com o estalido familiar e guiou-a para o interior, onde o cheiro a mofo e pó de pedra a envolveu.
À medida que avançavam pelos corredores escuros do segundo andar, o ar mudou. Tornou-se abafado, carregado de uma fragrância impossível, uma mistura de perfumes que Lívia conhecia bem demais, o rastro de vidas passadas que se recusavam a ficar enterradas.
Num dos corredores mais longos, onde a luz da lua mal filtrava através das tábuas, sentiu a espiral a puxar-te novamente. O som da chuva transformou-se no eco de várias vozes que se sobrepunham. As paredes do hotel começaram a dissolver-se e, ali, no final do corredor, a figura de Gabriel apareceu. Mas desta vez, ele estava instável, como uma interferência numa televisão antiga.
Por um segundo, ele tinha o maxilar rígido daquele que a deixou sem explicação. No segundo seguinte, o olhar era o daquele que te prometeu o mundo antes de o ver arder. Os traços dele mudavam como água; a luz amarelada da "Sala Dourada" piscava, revelando ora a cozinha da avó, ora o bar onde tinhas tentado dançar a dor para longe. Gabriel não era um homem; era uma colagem de todas as vezes que o teu coração parou.
— Ainda estás à procura de uma saída, Lívia? — a voz dele era um coro de tons diferentes, uma harmonia dissonante que a fazia estremecer. — Tu sabes que ninguém te vê como eu. Volta para o que conheces. Volta para a segurança deste fogo.
Lívia parou no meio do corredor. As mãos tremiam tanto que o caderno quase escorregou. Estava a segundos de estender a mão para aquele rosto desfocado, para aquela amálgama de passados que, apesar de destrutivos, eram o único "lar" que conhecia.
Nico percebeu a sua paralisia. Ele não a sacudiu; simplesmente colocou-se à sua frente, bloqueando a visão daquela entidade instável com a sua própria realidade crua. Ele obrigou-a a olhar para ele, para o suor que lhe escorria pela têmpora, para a imperfeição da sua existência.
— Lívia, para! — a voz dele era baixa, mas cortante. — O que estás a ver não é uma pessoa. É um amontoado de sombras que estás a tentar costurar num corpo que já não existe. Tu estás a tentar dar um nome a um monstro que criaste com os pedaços de toda a gente que te marcou.
— Eles estão aqui, Nico... eu sinto-os... — sussurrou, a visão a lutar para recuperar o Gabriel "desfocado" por cima do ombro dele.
Nico agarrou-lhe as mãos, forçando-a a sentir a pele áspera dele. — Não, eles não estão. O que está aqui é o pó, o frio e eu. Tu estás a usar o Gabriel para não teres de enfrentar o facto de que agora estás sozinha. Mas tu és mais do que as marcas que eles deixaram. Tu não és o reflexo de quem te partiu.
Lívia Inspirou com força, sentindo o cheiro a metal expulsar o perfume misto dos seus pulmões. A figura instável de Gabriel estilhaçou-se em mil partículas de poeira. O corredor voltou a ser apenas betão e sombra. O fantasma recuou para os cantos mais profundos da sua mente, derrotado pela presença de alguém que não lhe oferecia uma luz eterna, mas sim a coragem de caminhar no escuro.
Nico soltou as suas mãos devagar, vendo que o brilho febril nos seus olhos tinha passado. — Vamos subir — disse ele, a voz agora mais calma. — O passado é um mestre terrível, Lívia. Ele só te ensina como ficar presa.
Lívia aceitou a manta que ele lhe estendeu e continuaram a subir. Dois destroços a aprenderem que, no Hotel do Fim do Mundo, o presente é a única coisa que realmente os mantém vivos, mesmo quando as vozes do passado ainda tentam sussurrar o nome na escuridão.
A noite no topo do Hotel do Fim do Mundo parecia ter a sua própria gravidade. O som da chuva contra as lajes de betão era um ruído constante, uma barreira acústica que os isolava do resto da civilização. Nico tinha voltado a acender a lanterna a gás, e a luz bruxuleante criava um teatro de sombras nas paredes descascadas, onde as silhuetas de Lívia e da sua guitarra pareciam ter vida própria.
Nico estava sentado com as costas encostadas ao pilar, os olhos fixos em Lívia. Ela estava envolta na manta, o caderno aberto no colo, mas a caneta permanecia imóvel. O silêncio entre eles já não era apenas o repouso após a tempestade emocional do corredor; era uma fronteira que ele tentava, agora com uma insistência renovada, atravessar.
— Tu escreves como se estivesses a tentar desarmar uma bomba, Lívia — disse Nico, a voz rouca, quebrando a quietude. Ele não estava a tocar; a guitarra repousava ao seu lado, como se ele tivesse desistido da música para tentar as palavras. — Mas nunca deixas ninguém ver o pavio.
Lívia não levantou os olhos do papel. A ponta da caneta fez um pequeno ponto de tinta negra, uma mancha que se expandia lentamente na fibra celulósica, tal como a memória de Gabriel se expandia na sua mente.
— São só palavras, Nico. Não têm de ser uma arma — respondeu ela, o tom de voz desprovido de qualquer convite.
— Para ti, tudo é uma arma. O silêncio, o sarcasmo, esse caderno que apertas contra o peito sempre que eu me chego a mais de um metro — Nico levantou-se, a frustração a dar-lhe uma energia inquieta. Ele começou a caminhar pelo espaço limitado, os passos pesados contra o cimento. — No corredor, eu vi-te desaparecer. Vi-te a olhar para um fantasma que muda de rosto a cada segundo. Eu contei-te sobre o Alex. Contei-te porque é que estou aqui, neste esqueleto de prédio. Eu dei-te uma peça do meu mapa.
Ele parou à frente dela, a sombra dele projetando-se sobre o caderno, apagando a luz da lanterna.
— E tu? Quem é ele, Lívia? Ou melhor, quem são eles? Porque eu vi a forma como o teu olhar oscilava. Não estavas a ver um homem; estavas a ver uma galeria de arte de tudo o que te partiu. Dá-me um nome. Um único detalhe que seja real.
Lívia apertou a manta em torno dos ombros, sentindo o frio do betão subir-lhe pelas pernas. A imagem de Gabriel — aquele amálgama desfocado de maxilares rígidos, promessas vazias e luzes de cozinha — pairava na periferia da sua visão. Se ela lhe desse um nome, se explicasse que Gabriel era a soma de todos os que a tinham amado mal, ela estaria a entregar a Nico a chave da sua cela. E Lívia ainda não sabia se Nico era um salvador ou apenas outro espectador.
— Não há nomes que importem agora — disse ela, finalmente levantando o olhar, frio e impenetrável. — O que aconteceu antes de eu chegar àquela estação não muda o facto de que a chuva continua a cair e que amanhã o sol vai revelar que este sítio continua a ser uma ruína.
Nico soltou um riso seco, carregado de uma irritação que ele já não tentava esconder. Ele passou a mão pelo cabelo desgrenhado, os nós dos dedos brancos de tensão.
— É essa a tua resposta? Um niilismo de algibeira para manter a porta trancada? — ele deu um passo atrás, a frustração a transbordar. — Eu não sou um turista da tua desgraça, Lívia. Estou a tentar impedir que te desintegres. Mas é difícil segurar alguém que insiste em ser feita de fumo.
— Ninguém te pediu para me segurares — retorquiu ela, a voz subindo de tom pela primeira vez na noite.
— Talvez não. Mas no corredor, quando as tuas pernas falharam, tu não procuraste o teu "Gabriel". Tu agarraste-te a mim.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Nico fixou-a por mais alguns segundos, esperando uma fenda, um sinal de que a muralha ia ceder. Mas Lívia apenas voltou a focar-se no caderno, a sua expressão tornando-se novamente aquela máscara de indiferença que ela aperfeiçoara ao longo de tantos "Gabriéis".
— Tudo bem — murmurou Nico, afastando-se para o seu colchão com um gesto de desistência que lhe pesava nos ombros. — Fica no teu aquário. Só não te esqueças que, por vezes, a água acaba por estagnar se não deixares o ar entrar.
Ele pegou na guitarra e deu um toque violento numa corda, uma nota única, dissonante e solitária, que vibrou no ar como um aviso. Lívia sentiu a frustração dele a pulsar no espaço entre eles, mas não disse nada. Ela abriu o caderno numa página limpa e escreveu apenas três palavras, tão desfocadas quanto a sua memória: Ainda não chega.
Lívia sentiu o olhar de Nico ainda cravado nas suas costas, mesmo depois de ele se ter retirado para o seu canto. O peso do silêncio dele era diferente agora; não era o silêncio de quem espera, mas o de quem começa a desistir de perguntar. Ela baixou os olhos para o papel, onde a mancha de tinta que a caneta deixara parecia um buraco negro, uma entrada para o lugar onde ela guardava todos os seus "Gabriéis".
Com a mão ainda a tremer ligeiramente, Lívia começou a escrever, as letras saindo apressadas, como se tivessem medo de ser interrompidas pela luz da lanterna ou pela perspicácia de Nico.
Ele quer nomes. Quer detalhes, datas, pedaços de carne que possa analisar para entender porque é que eu prefiro o frio deste betão ao calor de uma casa.
Como é que eu lhe explico que Gabriel não é um homem, mas um sintoma? Gabriel é o maxilar rígido de quem me olhou com desprezo na cozinha da avó, mas é também o sorriso carinhoso de quem me segurou o braço no bar enquanto eu tentava ser a predadora que nunca fui. São fragmentos de todos os que me marcaram, costurados numa sombra que não me deixa respirar. Se eu der um nome ao Nico, estarei a escolher apenas uma das minhas feridas para lhe mostrar, quando o que dói é a pele toda.
Nico irrita-se com o meu silêncio. Ele acha que a honestidade é a moeda de troca para a sobrevivência, mas ele não entende que o meu silêncio é a única coisa que me resta de inteira. Ele deu-me o Alex, deu-me a sua música, e eu... eu dei-lhe apenas o meu peso quando as minhas pernas falharam no corredor. Sinto a frustração dele a vibrar na corda da guitarra que ele acabou de tocar. Uma nota só, seca, como um ponto final.
Ele disse que eu sou feita de fumo. Talvez tenha razão. O fumo não se desintegra porque já não tem forma. É mais seguro assim. Se eu deixar o ar entrar, como ele quer, o fumo dissipa-se e o que sobra? Uma miúda de vinte anos que esqueceu como se sente o sol porque ficou demasiado tempo a olhar para o brilho baço de memórias que já arderam.
Gabriel está ali no canto, desfocado, à espera que eu volte a olhar para ele. Nico está aqui à frente, a exigir que eu olhe para a vida. E eu estou no meio, presa nesta página, a tentar traduzir a exaustão de ser um campo de batalha para pessoas que já nem sequer sabem o meu nome.
Ainda não chega. O papel ainda está demasiado branco. E eu ainda estou demasiado longe de casa.
Lívia fechou o caderno com um movimento seco, o som ecoando na vastidão do Hotel do Fim do Mundo. Ela olhou para Nico pelo canto do olho. Ele parecia estar a dormir, ou talvez estivesse apenas a fingir, tão exausto daquela dança de sombras quanto ela. Ela puxou a manta de lã mais para cima, sentindo o cheiro a guardado e a fumo de Nico. Pela primeira vez, aquele cheiro não a transportou para o passado; manteve-a ali, no frio, no presente, no único lugar onde Gabriel não conseguia ser nítido.




Este capítulo mostra bem a luta interna da Lívia entre o passado e o presente. Dá para sentir claramente que o Gabriel continua a ser uma presença enorme dentro dela, quase como um fantasma que se mistura com todas as memórias e feridas que ela carrega.
Gostei muito da forma como mostras que o Gabriel já não é apenas uma pessoa concreta para ela, mas quase um símbolo de tudo o que a marcou e partiu ao longo da vida. Isso torna o conflito dela ainda mais pesado porque não é algo simples de resolver ou esquecer.
Ao mesmo tempo o Nico começa a assumir um papel interessante. Ele não tenta ser herói nem salvador mas insiste em trazê-la de…