Nobody's Home - A Casa de Ninguém
- 25 de fev.
- 14 min de leitura
Capítulo 2: A Ressonância da Luz

— Sou o Nico, já agora — disse o rapaz, e o som da sua voz era surpreendentemente suave para o ambiente austero em que se encontravam. Ele tirou a guitarra da capa gasta, um tecido que parecia ter protegido o instrumento através de inúmeras viagens e histórias. O violão, à primeira vista, era uma explosão de personalidade e história. Estava cheio de autocolantes desbotados, restos de bilhetes de concertos e etiquetas de aeroporto. Cicatrizes de madeira, finas fissuras e raspões profundos marcavam o corpo do instrumento como se fossem as rugas de uma vida bem vivida. Frases riscadas a marcador, algumas em português, outras em línguas que Lívia não reconhecia, cobriam a madeira envernizada e gasta, testemunhando pensamentos e impulsos capturados no momento. Parecia tão vivido quanto ele próprio; havia uma simetria silenciosa entre o homem e a sua ferramenta.
Lívia não respondeu de imediato. Não por rudeza, mas porque o nome dele, Nico, pairou no ar estéril da estação, um pequeno farol na vastidão cinzenta dos azulejos e do cimento. Ela avaliou-o rapidamente, o seu olhar frio e defensivo a absorver os detalhes: o cabelo em desalinho, o casaco de ganga desgastado, os olhos que pareciam carregar o peso de noites mal dormidas. A hesitação foi breve, mas intensa. — Lívia — disse ela, finalmente, e o som era quase um sussurro, uma admissão. O nome parecia estranho na sua própria boca, como se pertencesse a outra pessoa, a uma versão de si mesma que ela tinha deixado para trás noutro lugar, noutra vida.
Nico assentiu, um movimento quase impercetível, sem desviar o olhar do instrumento. A sua atenção estava totalmente focada na tarefa de dedilhar as cordas. O som que se seguiu não foi uma melodia completa, nada que se pudesse assobiar ou reconhecer, apenas uma sequência de acordes menores, lentos e arrastados. Eram notas carregadas de uma melancolia profunda, que pareciam pesar no ar. O som ecoou nos azulejos brancos rachados, transformando a acústica fria e impessoal da estação numa espécie de catedral vazia, um espaço onde o silêncio era interrompido apenas por aquela tristeza ressonante.
— A música ajuda — murmurou ele, ajustando uma cravelha com uma precisão instintiva. Os seus olhos permaneceram fixos na madeira. — Ajuda a abafar o barulho que está cá dentro. — Ele tocou na própria testa, na região logo acima da sobrancelha, um gesto que era simultaneamente íntimo e universal. Era uma referência ao tumulto interno, ao incessante diálogo de ansiedade e dor que muitas vezes sufoca a quietude.
Lívia estremeceu, um movimento interior que quase a fez recuar. Ele tinha acertado em cheio, atingido o cerne da sua própria experiência. A forma como ele descrevia a função da música para ele era como um espelho invertido da sua realidade. Mas para ela, a música não abafava o barulho. Pelo contrário, a música era o gatilho, a chave que destrancava a porta para as memórias e emoções que ela lutava desesperadamente para manter seladas. A música não era um escudo; era uma arma.
Assim que a primeira nota prolongada vibrou no ar, sustentada pela densidade da reverberação do espaço abobadado, o mundo real de Lívia começou a colapsar, não com violência, mas com uma doçura inevitável. A realidade da estação de comboios, com o seu piso de cimento rachado e os bancos de metal frio, dissolveu-se sob a pressão combinada da memória e do som. O cheiro a mofo e a desinfetante, essa essência austera e melancólica de todos os lugares públicos frios e esquecidos, sumiu completamente, substituído por um aroma que só existia na sua mente.
As paredes brancas e descascadas, onde a luz fraca da estação parecia morrer em ângulos tristes, desfocaram-se e Lívia sentiu-se a cair, mas não era uma queda de pânico. Era a sensação familiar de mergulhar num abismo de sensações familiares, puxada para trás pelo fio invisível, mas inquebrável, da melodia. Era como se o som não viesse de um par de auscultadores, mas de dentro do seu peito.
Lívia estava, de novo, subitamente e completamente, de volta à sala de estar. Eles chamavam-lhe a "Sala Dourada", não por ostentação, mas por causa da forma mágica como o sol da tarde, filtrado pelas grandes janelas viradas a oeste, batia nas cortinas de veludo pesado de cor de mel e pintava toda a divisão com um calor âmbar.
O frio da estação era uma impossibilidade aqui. Havia uma temperatura constante de aconchego, um cheiro inconfundível e acolhedor a café acabado de fazer, a baunilha subtil de bolos frescos e o aroma profundo e reconfortante a madeira envernizada do mobiliário antigo e, acima de tudo, o piano.
Gabriel estava sentado ao piano. As costas dele, direitas com a disciplina do músico, mas visivelmente relaxadas no momento da criação, eram para Lívia a visão mais familiar e mais segura de todo o mundo. A curva do pescoço, a forma como a luz se apanhava no cabelo escuro. Ele não estava a tocar uma peça conhecida. Era algo suave, uma daquelas peças improvisadas, puras e fugazes que ele inventava no momento, a expressar um pensamento ou um sentimento que as palavras não conseguiam alcançar. Ele nunca conseguia replicá-las da mesma forma, tornando cada audição um tesouro único.
— Estás a olhar para mim outra vez — disse ele, a sua voz baixa e um pouco rouca, sem sequer se virar. Ele sentia a presença dela com aquela ligação quase sobrenatural que eles partilhavam, uma ressonância que ultrapassava o campo visual.
Lívia sorriu. Era um sorriso verdadeiro, que começava na alma e chegava aos olhos, iluminando-os com uma ternura que a Lívia do presente, a que estava sentada no banco de plástico duro da estação, já não sabia convocar.
— Gosto de ver a luz em ti — respondeu ela, a voz ligeiramente embargada pela emoção da recordação. Ela aproximou-se do piano com a leveza de um fantasma feliz, apoiando os cotovelos no tampo de madeira polida, perto da partitura em branco. — Quando tocas, parece que o mundo lá fora não existe. E, se calhar, é mesmo melhor que não exista.
Gabriel parou de tocar. A melodia parou a meio de uma frase, como uma respiração suspensa, e ele virou-se totalmente para ela. Os olhos dele tinham aquela cor indescritível, um castanho-claro salpicado de ouro, que parecia absorver e irradiar luz ao mesmo tempo, cheios de uma bondade e de uma compreensão que, na memória, doíam. “A luz ressonante”, pensou ela, usando o nome mental que lhe tinha dado. Ele tinha essa capacidade inata de iluminar os cantos mais escuros e poeirentos da mente dela, sem sequer precisar de tentar, apenas com a sua presença calma.
— O mundo existe, Liv — disse ele suavemente, a voz grave e ressonante, sem a menor ponta de crítica, apenas uma aceitação tranquila que lhe acalmava a alma. A mão dele, uma presença quente e forte, deixou as teclas de ébano, que tinham sido o palco da sua harmonia partilhada, para cobrir a dela sobre a madeira preta e fria do tampo do piano. — Mas nós, Liv, nós somos o nosso próprio lugar. Somos a melodia que o caos exterior não consegue tocar. Um refúgio esculpido em som e silêncio. Enquanto estivermos aqui, neste som, neste momento que criámos, estás segura. Eu seguro as pontas soltas do teu medo. Eu seguro a tua sanidade, mesmo que o mundo lá fora, com a sua crueza e indiferença, tente desfazê-la em pedaços.
Ela acreditou nele. Como poderia não acreditar? Gabriel era o seu ponto fixo no universo em rotação. Ele era a âncora que a impedia de ser arrastada pela maré da ansiedade. Ele parecia imortal aos olhos dela; intocável pelo tempo que a consumia ou pela dor que era a sua constante sombra. Ele era a promessa silenciosa de permanência.
— Prometes? — perguntou ela, e o som da sua voz era apenas um sussurro frágil contra a vastidão da sala dourada. Uma sombra de dúvida infantil e lancinante cruzou o seu rosto, a única imperfeição naquela cena de serenidade. A promessa, para ela, era tudo.
— Prometo — disse ele, e o 'P' foi um alicerce. O seu olhar, profundo e sem hesitação, encontrou o dela. — Juro pelo som que nos une. Nunca vou deixar-te sozinha no escuro, Liv. E ele não a abraçou, pois sabia que o contacto físico a distraía. Em vez disso, a sua promessa permaneceu no ar entre eles, tão sólida quanto as colunas daquela câmara.
Ele voltou a tocar. Os dedos longos e elegantes encontraram as teclas com uma precisão instintiva, e a melodia subiu, não apenas do piano, mas da própria alma dele. Era intensa, uma tapeçaria rica e complexa que preenchia o ar, preenchendo cada espaço vazio, preenchendo os pulmões dela com ar puro. Fazia-a sentir-se completa, inteira, pela primeira vez em muito tempo. Era a sua dose de eternidade. A música era a sua armadura contra o mundo.
Mas então, veio o choque. A nota final, que deveria ter sido o clímax harmonioso da sua salvação, soou errada. Distorcida. Uma dissonância brutal que cortou a teia da segurança. Não foi um erro; foi uma rutura. O sol da tarde, que até há pouco banhava a sala num ouro reconfortante, escureceu de repente, como se uma mão gigantesca tivesse puxado um manto cinzento sobre o céu. O piano, o seu santuário de ébano, começou a afastar-se, arrastado por uma corrente invisível e poderosa que rasgava o chão de mármore. A mão quente dele, aquela que era a sua garantia de estabilidade, soltou-se da dela. Não um abandono, mas uma separação forçada.
— Gabriel? — chamou ela, a voz subindo, o pânico a gelá-la por dentro. A música cessara. O silêncio que se seguiu era estrondoso, mais aterrorizante do que qualquer ruído.
Ele não respondeu. A figura dele, que sempre fora o pilar inabalável da sua existência, sinónimo de solidez e de um refúgio seguro contra o caos do mundo, começou a desvanecer-se diante dos olhos dela. Não se desintegrou em pedaços duros, mas transformou-se numa fina névoa, em fumo cinzento e diáfano que a corrente de ar frio, vinda do abismo que se abrira entre eles, arrastava sem piedade. Era como ver a própria fundação da sua realidade a dissolver-se no nada.
No entanto, por um instante agonizante, o olhar dele permaneceu fixo nela. Era a sua última e desesperada ligação, uma âncora visual enquanto o corpo se tornava etéreo. Era um olhar de uma tristeza abissal, carregado de uma dor palpável, uma angústia que ultrapassava a distância crescente que os separava. Não havia palavras, mas sim um pedido de desculpa silencioso e esmagador, um reconhecimento mudo e aterrador de que falhara a promessa que era o alicerce de tudo o que tinham construído.
— Tu disseste que ficavas! — gritou ela, a voz a falhar, não apenas de dor, mas de uma incredulidade desesperada. A sua força, aquela resiliência que a tinha sustentado através de incontáveis batalhas, esvaía-se rapidamente. Enquanto o grito ecoava, as paredes douradas da Sala Dourada, o cenário ilusório da sua felicidade, começaram a cair à sua volta. Não se desmoronaram em escombros pesados e ruidosos, mas desintegraram-se numa chuva de cinzas finas e frias, lembrando a poeira de um sonho antigo. O seu mundo estava a desmoronar-se de forma literal e figurada. — Tu disseste que eras o meu lar! — insistiu, as lágrimas a rasgarem a garganta. — Tu disseste que éramos um refúgio!
A névoa, fria e implacável, levou-o por completo. A última sombra da sua forma desapareceu. Ela ficou sozinha, num negrume que não era apenas a ausência de luz, mas a ausência de calor, de segurança, de esperança. O eco da sua promessa quebrada, a promessa de permanência, de refúgio, ressoava na desolação, numa solidão que era mais densa e aterradora do que o próprio abismo.
— Ei. Ei! Lívia?
A realidade voltou com a violência de uma bofetada física. O som melódico e reconfortante da guitarra, que a tinha embalado na borda do pesadelo, cessou abruptamente, cortando a tensão como uma faca. Lívia arfou, puxando o ar com uma urgência desesperada, os pulmões a exigirem oxigénio como se tivesse estado a afogar-se nas profundezas daquela névoa. O "Sala Dourada", o cenário da sua tragédia onírica, tinha desaparecido por completo. O aroma reconfortante de café fresco, que a tinha ancorado antes de adormecer, tinha sido substituído pelo cheiro acre e persistente a tabaco barato de Nico.
Ela estava a chorar. Não eram aquelas lágrimas discretas, contidas, que se limpam rapidamente com a ponta dos dedos antes que alguém repare. Eram soluços guturais, convulsões silenciosas que agitavam o corpo de forma violenta. O seu rosto, outrora pálido, estava agora banhado numa maré incontrolável, o salgado das lágrimas a queimar a pele já sensível, deixando rastos vermelhos. Cada gota era uma confissão, um grito mudo que o nó na garganta a impedia de libertar.
As suas mãos tremiam de forma espasmódica, cerradas com uma força que fê-las doer sobre a capa dura do caderno que tentara usar como escudo. O caderno fechado, repleto de rascunhos e versos inacabados, era o seu refúgio, mas naquele momento parecia apenas um peso, uma âncora que a prendia ao fundo. O corpo inteiro dela era um arrepio descontrolado, uma manifestação física, inegável, da dor aguda da traição e do abandono que o eco inesperado da canção acabara de ressuscitar. Não era apenas uma memória vaga; era como reviver o momento, sentir o frio do chão debaixo dos pés descalços, o cheiro a chuva fria na roupa.
Nico olhava-a com uma expressão que não era fácil de decifrar. Não havia piedade nos seus olhos, um sentimento que ela odiaria receber. Havia algo mais profundo, um reconhecimento silencioso, talvez a sombra de uma dor semelhante que ele próprio conhecia demasiado bem. Ele não desviou o olhar, apenas a observou enquanto a tempestade passava. Pousou a mão com cuidado sobre as cordas da guitarra, que repousava no seu colo, silenciando a vibração prolongada de uma nota que ainda pairava no ar. A melodia tinha morrido, mas o veneno já estava inoculado.
— Desculpa — disse ele, a voz um murmúrio, um som grave que mal quebrou o silêncio pesado. — Toquei na ferida errada.
Lívia sentiu a humilhação acender-lhe as bochechas por baixo da humidade das lágrimas. Limpou o rosto com a manga do casaco áspero, um pedaço de tecido velho e quase inutilizável que só serviu para espalhar mais o rímel e a dor. Estava furiosa consigo mesma, com a sua falta de controlo, por ter deixado a memória invadir o seu espaço, por ter baixado a guarda. Furiosa porque, mesmo sendo apenas uma recordação, o fantasma dele parecia naquele instante mais tangível e real do que o rapaz de carne e osso, com a sua guitarra e o seu olhar sério, sentado à sua frente. A presença dele era avassaladora, e o Nico ali, um mero observador da sua ruína.
— Não foi a música — mentiu ela, a voz fina e quase inaudível, traída por um soluço residual que teimava em prender-se-lhe na garganta. Os seus olhos, vermelhos e inchados, desviaram-se rapidamente, evitando o olhar perspicaz de Nico. — Foi só… o cansaço. Uma semana horrível. Um pesadelo.
Um silêncio pesado e expectante pairou no ar frio da estação. O cheiro a pó e a metal gelado misturava-se ao aroma fraco de café velho vindo de um quiosque fechado.
— Claro — disse Nico, a sua voz um murmúrio rouco, desprovido de qualquer julgamento. Os seus olhos castanhos, tão claros e transparentes, não se desviaram da figura encolhida de Lívia, e ela soube, com a certeza fria de uma lâmina, que ele não acreditou numa palavra. Nem sequer na migalha da verdade escondida por trás da mentira. No entanto, ele teve a decência, a consideração rara, de fingir que sim. A decência de um estranho que via demasiado. — O cansaço faz-nos ver coisas. Coisas que não estão lá. Faz-nos sentir falta de sítios que já não existem, que foram apagados do mapa, ou de pessoas que nunca deveriam ter partido. É um truque sujo da nossa mente, Lívia. Uma farsa cruel.
Ele tinha trocado a melodia triste e melancólica da guitarra por um silêncio respeitoso. A palheta de osso que ele usava para tocar jazz na rua estava agora imóvel entre os seus dedos longos e finos. Ele esperou, pacientemente, dando-lhe espaço para respirar na sua dor, sem tentar preencher o silêncio com palavras vazias de conforto. Ele sabia que o conforto fácil era inútil contra a profundidade da sua tristeza.
Lívia acenou fracamente com a cabeça, os seus ombros tensos e arqueados. Ela tentou, inutilmente, voltar a fechar-se, a puxar as paredes de volta, a reconstruir o muro que tinha desmoronado perante uma simples canção. Mas a ferida, aquela que ela se esforçava tanto por manter escondida, estava aberta. E os dois, o músico vagabundo e a mulher com o casaco demasiado caro, sabiam-no. Estava ali, palpável, entre eles
Nico guardou a palheta cuidadosamente no bolso das suas calças rasgadas, que já tinham visto dias melhores e muitas cidades diferentes. O tecido denim estava desbotado e remendado, testemunha de uma vida em movimento constante. Os seus olhos percorreram o painel eletrónico de informação, o grande monitor de matriz de pontos que anunciava as partidas e chegadas na plataforma principal. Quase todos os comboios diziam "Suprimido" ou "Terminado", um espelho sombrio do estado de espírito dela. A estação estava quase deserta, um labirinto frio de ferro e betão apenas pontuado por uns poucos passageiros atrasados e apressados, fantasmas de destinos perdidos.
— Sabes — continuou Nico, a sua voz voltando a ser prática, quase fria. O tom era uma máscara, um esforço consciente e apressado para mudar o rumo da conversa, para arrancar Lívia à força daquele abismo emocional e puxá-la para a realidade imediata da situação. Era um ato de bondade sob a forma mais crua e pragmática, um salva-vidas atirado de forma brusca.
— A segurança faz a ronda daqui a dez minutos — continuou ele, sem rodeios, os olhos a perscrutar as sombras do terminal de autocarros abandonado onde se tinham refugiado. — Não é uma ameaça, Lívia, é um facto. Um ciclo. Como a maré. Se te encontrarem aqui, a chorar assim, perdida e desorientada, a primeira coisa que fazem é chamar a assistência social ou, pior, a polícia. E sabes o que isso significa. Perguntam o que se passa. Onde está o teu bilhete? Onde estão os teus pais? E, se me encontrarem a mim — ele encolheu os ombros ligeiramente, um movimento de resignação que parecia ter aprendido com a própria pedra, um gesto que resumia anos de vida nas margens da sociedade — expulsam-me por vadiagem. Perco o meu lugar na esquina, o único sítio onde consigo ser invisível o suficiente para ganhar alguma coisa. E perco o pouco que ganhei hoje. É a lei da rua. Não faz perguntas, só aplica consequências. E as consequências são rápidas e dolorosas.
A chuva lá fora redobrava, um tamborilar incessante que abafava qualquer pensamento mais suave. Nico levantou-se com um movimento ágil, atirando a mochila gasta para o ombro com uma facilidade instintiva. Estendeu a mão para Lívia, não num apelo suave, mas num convite direto, casual na superfície, mas carregado de urgência e significado. A palma estava suja, riscada por calos antigos, mas o gesto era firme.
— Eu conheço um sítio onde a chuva não entra — disse ele, a voz um sussurro contra o ruído da tempestade —, e onde os fantasmas… bem, os fantasmas têm mais dificuldade em nos encontrar se estivermos em movimento. O movimento é o nosso disfarce, Lívia. Parados, somos alvos. Vens?
Lívia olhou para a mão dele. Era a única coisa real naquele momento, uma âncora de carne e osso num mundo que tinha acabado de desmoronar. Mas a voz de Gabriel, o seu irmão, ainda ecoava na sua cabeça, uma promessa quebrada repetida pelo eco frio das paredes do terminal: Eu nunca vou deixar-te sozinha.
"Mas deixaste", pensou ela com uma amargura que lhe queimava a garganta. "Deixaste-me, e agora, não há ninguém em casa. Não há porto. Não há Gabriel."
Ela levantou os olhos e olhou para Nico. Ele era um estranho. Um vagabundo, como a sociedade o rotularia. Estava sujo, as roupas amarrotadas, o olhar demasiado velho para a sua idade. Parecia perigoso para qualquer pessoa "normal" que passasse por ali. Mas Lívia já não era normal. Tinha acabado de perder a única pessoa que a definia, e o chão tinha-lhe fugido debaixo dos pés. A normalidade era um luxo que ela não podia pagar. O medo dele era menos intenso do que a dor da solidão.
Ela fechou o caderno onde escrevia, a capa de couro húmida, e guardou-o na mochila, um dos seus poucos tesouros restantes. Ignorando a mão estendida de Nico, talvez um pequeno ato de teimosia, uma recusa em aceitar ajuda que não fosse a sua, levantou-se sozinha. Os seus músculos protestaram, mas ela manteve-se firme.
— Para onde? — perguntou ela, a voz rouca, mas com uma nova nota de determinação. Não era um pedido de direção, mas uma exigência de propósito.
Nico sorriu de canto, um sorriso torto e quebrado que mal lhe vincou a boca, mas que iluminou os seus olhos por um breve segundo. Ele virou-se e apontou para a saída escura, para a rua inundada.
— Para lado nenhum em especial. — respondeu. — É o melhor sítio para se estar. É onde ninguém espera que estejamos. E é onde começamos a criar o nosso próprio caminho.
Saíram para a noite como quem mergulha num oceano revolto.




Este capítulo é mais emocional do que o primeiro. Fiquei com a sensação de que “ele” pode ser o irmão, Gabriel. Já não é só obsessão ou trauma romântico... é luto. Uma promessa quebrada e a sensação de ter perdido o único lugar seguro no mundo.
A parte da “Sala Dourada” é linda e ao mesmo tempo dolorosa. Dá para sentir o contraste do calor, com o piano e a promessa. Quando ela acorda a chorar na estação, percebe-se que a música não é um refúgio para ela mas sim um gatilho.
O Nico aqui ganha mais força. Ele não tenta salvá-la nem fazer um discurso bonito. Ele percebe, finge que acredita na mentira dela, e depois faz algo simples e…