Nobody's Home: A Casa de Ninguém
- 4 de mar.
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Capítulo 4 - A Dança do Ponto de Não Retorno

O som da guitarra de Nico, agora mais calmo e fluido, funciona como um gatilho que estilhaça a barreira entre o presente gélido do Hotel do Fim do Mundo e o calor abafado daquela casa que a avó lhe deixara. Lívia fecha os olhos e, por um instante, o cheiro a asfalto e a metal é substituído pelo odor a tabaco enrolado, incenso barato e ao álcool que parecia evaporar dos poros de todos os que ali viviam. Naquela época, a casa era um organismo vivo, uma bolha de caos onde cinco almas se amontoavam em busca de um sentido que nenhum deles queria realmente encontrar.
Lívia recorda-se de se ver ao espelho antes de sair para a noite, ajustando a máscara de "Maneater" com uma precisão cirúrgica, pintando os lábios como quem prepara uma arma. Ela era a predadora que escolhia a vítima da noite com um desdém divertido, alimentando-se da admiração alheia para ignorar o vazio que lhe crescia no peito, enquanto Gabriel a observava do canto da sala com aquela distância enigmática que a enlouquecia.
Nesse reflexo do passado, as figuras dos seus "fantasmas" ganham contornos nítidos através da névoa da memória. Ela consegue ouvir o ritmo insistente dos instrumentais que Joel criava no quarto ao lado, uma batida que servia de banda sonora para as suas inseguranças partilhadas, enquanto ela tentava encontrar a sua voz em covers que nunca pareciam captar a profundidade do que sentia. Pelo canto do olho, via Jorge, com aquele olhar de adoração doentia que ela usava e descartava conforme a sua necessidade de se sentir poderosa, uma crueldade que hoje lhe pesa na consciência como chumbo. E depois havia Anna, a presença que Lívia sentira necessidade de proteger mas que, simultaneamente, se tornara o centro do fascínio de Gabriel. Ver Gabriel, o homem que a puxava do poço com um simples olhar mas que nunca estendia a mão para a segurar como ela desejava, dedicar a sua atenção à vulnerabilidade de Anna era uma tortura silenciosa que nenhuma quantidade de "vítimas" noturnas conseguia apagar.
A tensão sexual que pairava entre ela e Gabriel era como um fio invisível e eletrificado, uma ligação que Lívia sentia ser intemporal, como se as suas almas estivessem presas num ciclo eterno de busca e rejeição. Ela via-se a si própria como um desafio que ele se recusava a aceitar, um enigma que ele preferia acompanhar como um espectador passivo, o "wingman" perfeito para as suas conquistas vazias. No meio desse turbilhão, Artur aparecia como um contraponto doloroso, a humildade e a preocupação genuína que ela não conseguia processar porque estava demasiado ocupada a tentar beber a última gota da fonte que Gabriel representava. Agora, sentada no chão de betão do Hotel, Lívia sente o peso dessa exaustão antiga a regressar, a memória do momento em que decidiu parar de lutar pelo afeto dele e se viu cercada por rostos que, apesar de viverem sob o mesmo teto, já estavam a começar a desaparecer na escuridão do que ela viria a perder. Ela abre o caderno e a caneta hesita sobre o papel, tentando traduzir como é que aquela miúda que todos queriam se tornou nesta mulher que ninguém vê, enquanto a música de Nico continua a desenhar pontes sobre o abismo.
Gabriel era a única nota dissonante na sua sinfonia de conquistas, o único que parecia imune ao magnetismo que ela exercia sobre todos os outros. Ele via através da máscara, acompanhando-a nas suas investidas nocturnas como um "wingman" que não se deixava seduzir, tratando os seus avanços como meros gestos de carinho entre amigos. Essa indiferença, por mais benevolente que fosse, era o que mais a enfurecia e, simultaneamente, o que a mantinha presa a ele. Havia entre os dois uma ligação que Lívia sentia ser intemporal, algo que transcendia aquela vida de excessos, como se as suas almas se reconhecessem de outras eras e vidas passadas. Enquanto o álcool e as saídas à noite ditavam o ritmo dos seus dias, Lívia procurava desesperadamente um sinal de que Gabriel a via de outra forma, mas ele parecia mais fascinado pela chegada de Anna. A figura que Lívia acolhera num impulso de proteção, tornara-se o centro das atenções de Gabriel, um golpe que Lívia sentia na pele como uma queimadura fria, alimentando um ciúme que ela tentava esconder sob a sua capa de invencibilidade.
A luz amarelada da cozinha, baça pelo fumo que flutuava vindo da sala, criava sombras longas que pareciam dançar nas paredes descascadas da casa da avó. Na sala de estar, a confusão era absoluta; ouvia-se a voz de Anna a tentar adivinhar uma charada impossível, seguida pela gargalhada de Joel e pelos protestos de Jorge, mas ali, no silêncio relativo da cozinha, o ar parecia carregado de uma eletricidade que só Lívia sentia. Gabriel estava encostado ao balcão, observando o rótulo de uma garrafa de cerveja com aquela atenção quase filosófica que o tornava tão diferente de todos os outros. Lívia entrou devagar, a máscara de predadora ligeiramente descaída, sentindo o pulso acelerar enquanto se aproximava dele. Ela serviu-se de um resto de vinho, tentando manter a voz casual, embora a curiosidade a estivesse a queimar por dentro.
— O que é que vês nela, Gabriel? — perguntou Lívia, sem olhar diretamente para ele, enquanto rodava o copo nas mãos. — Porque é que a Anna, com toda aquela bagagem e fragilidade, te fascina tanto?
Gabriel levantou os olhos e o seu olhar encontrou o dela com uma clareza que a desarmou. Ele não respondeu de imediato, preferindo deixar que o som abafado da música de Joel preenchesse o espaço.
— Ela tem uma luz de sobrevivente que me intriga — respondeu ele, com a voz calma. — É algo que não precisa de ser caçado nem conquistado, Lívia. Só precisa de ser observado.
Lívia sentiu a fúria crescer, uma mistura de inveja e desespero, e deu um passo em direção a ele, desafiando a distância que ele impunha.
— E o que está aqui mesmo à tua frente? — questionou ela, num sussurro carregado de tensão. — Tens medo de te queimar no fogo que eu ofereço? Ou a nossa amizade é apenas um disfarce para não admitires o que sentes?
Gabriel não recuou nem avançou; ele apenas sorriu, um sorriso triste e sábio que dizia mais do que mil palavras. Ele sabia perfeitamente o que ela sentia e percebia o magnetismo de Lívia a puxá-lo, mas havia uma barreira invisível que ele se recusava a atravessar. Para ele, ela era uma força da natureza, uma amiga intemporal cujas vidas se tinham cruzado vezes sem conta, mas não era alguém que ele pudesse amar sem se perder no caos que ela cultivava.
— Tu és a minha melhor amiga, Lívia — disse ele, tratando a investida dela com uma ternura quase fraternal. — Vou estar contigo em todas as saídas loucas e vou ser o teu braço direito em cada noite destas. Mas não serei mais uma das tuas vítimas. Tu mereces mais do que um jogo, mas ainda não estás pronta para o que eu tenho para dar.
Lívia sentiu-se pequena, uma sensação rara e insuportável para quem estava habituada a dominar todos os espaços que ocupava. O facto de Gabriel a acompanhar como um "wingman" nas suas noites de predação não era um sinal de interesse reprimido, mas sim uma forma de a proteger de si mesma, mantendo uma distância de segurança que preservava a amizade enquanto negava a redenção que ela secretamente esperava encontrar nele. Enquanto ele voltava para a sala para se juntar às charadas, deixando-a sozinha com o sabor amargo do vinho, Lívia percebeu que a água daquela fonte era a única que ela nunca conseguiria beber.
As luzes de néon do bar piscavam com uma intensidade frenética, transformando o suor e o fumo numa névoa elétrica que pulsava ao ritmo das batidas graves. O grupo estava reunido junto ao balcão, pedindo rodadas de tequila que queimavam a garganta e alimentavam a audácia daquela noite. Lívia sentia-se no auge do seu poder, a máscara de "Maneater" perfeitamente ajustada, enquanto Joel e Artur a observavam com uma preocupação que ela ignorava deliberadamente. Joel aproximou-se dela, tentando falar por cima do barulho ensurdecedor da música, com a mão pousada no seu ombro num gesto de aviso que ela sentiu como um entrave.
— Lívia, desiste disso. Tu estás a brincar com o fogo e o Gabriel não é como os outros. Ele vai acabar por te magoar, não por maldade, mas porque ele não entra no teu jogo — avisou Joel, com o olhar carregado de uma seriedade que raramente mostrava.
— O meu irmão tem um mundo lá dentro que tu não imaginas, Lívia — acrescentou Artur, aproximando-se também, com aquela voz carinhosa e protetora que o definia. — Não te forces. Tu queres saber o que todas dizem, mas o preço para entrar na cabeça dele pode ser alto demais para ti.
Lívia soltou uma gargalhada curta e desafiadora, terminando o seu copo de um trago e fixando os olhos em Gabriel, que observava a multidão com a sua habitual distância enigmática. Ela não queria conselhos; ela queria a confirmação do que todos sussurravam, queria provar que o seu veneno era capaz de derrubar até a fortaleza mais alta. Caminhou até ele, com o corpo a mover-se já na cadência da música, e estendeu-lhe a mão, desafiando-o perante todos.
— Dança comigo, Gabriel. Deixa de ser apenas um espectador e vem sentir o que é estar vivo aqui no meio — disse Lívia, com um sorriso que prometia tudo e não garantia nada.
— Não, Lívia. Hoje não. Diverte-te tu, eu estou bem aqui a ver — respondeu Gabriel, sem hesitar, com uma voz tão plana que pareceu a Lívia um estalo na cara.
O "não" dele foi o gatilho. Lívia sentiu que tinha tocado em algo, um nervo exposto sob aquela calma aparente, e decidiu que não ia recuar. Se ele não queria dançar por vontade própria, ela faria com que ele sentisse que precisava daquela dança, que precisava de desbloquear o "fenómeno Lívia" para conseguir respirar. Ela afastou-se, dispersando-se pelo bar como uma predadora que conhece bem o seu território. Começou a conviver com estranhos, a puxar rapazes para o centro da pista e a dançar com uma entrega provocadora. Cada movimento de ancas, cada toque deliberado num desconhecido, era executado de maneira a que, em certos momentos, os seus olhos se cruzassem com os de Gabriel através da multidão. Ela via-o lá, parado, com a garrafa na mão, mas notava a tensão a crescer na linha do seu maxilar.
Joel e Artur, encostados ao balcão, observavam a cena como quem vê um acidente em câmara lenta. Eles conheciam Gabriel melhor do que ninguém e conseguiam ler os sinais que ele tentava esconder sob a máscara de indiferença. O brilho nos olhos dele já não era apenas curiosidade; era algo mais sombrio, uma luta interna que Lívia estava a ganhar terreno a cada segundo. Artur, não conseguindo conter-se mais perante o silêncio pesado do irmão, aproximou-se dele e falou-lhe diretamente ao ouvido, com a franqueza que só os irmãos possuem.
— O que é que te prende, Gabriel? É o medo de que ela seja realmente o que parece, ou o medo de descobrires que ela é exatamente o que tu precisas para acordares dessa apatia? — perguntou Artur, observando a reação do irmão.
Gabriel não respondeu de imediato, mas os seus dedos apertaram o vidro da garrafa com tal força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele não tirava os olhos de Lívia, que agora dançava com um rapaz qualquer, rindo como se não houvesse amanhã, embora o seu olhar continuasse a procurar o dele como um íman. O bar parecia ter encolhido, deixando apenas os dois naquela arena invisível de desejo e rejeição. Gabriel sentia o veneno dela a infiltrar-se, e Artur sabia que a barreira que o irmão tinha construído estava prestes a estilhaçar-se sob o peso daquela tensão insuportável. Lívia, ao longe, percebeu que o jogo tinha mudado; ela já não estava apenas a caçar, estava a incendiar a única fonte que prometera nunca secar.
Artur inclinou-se sobre o balcão, a sua voz mal conseguindo competir com a batida ensurdecedora que fazia o chão vibrar. Ele observava o irmão, notando como os olhos de Gabriel seguiam cada curva e cada riso de Lívia na pista, como se ele estivesse a tentar prever o próximo passo de uma tempestade. Gabriel mantinha a mão fechada em torno do copo, os nós dos dedos brancos, uma manifestação física da barreira que tentava desesperadamente manter erguida. Ele sabia que Lívia não era apenas um corpo ou uma conquista; ela era um abismo de desejo e destruição que, uma vez tocado, o consumiria por inteiro. O medo de se perder naquela intensidade era o que o mantinha imóvel, uma inércia que Artur não conseguia compreender.
— O que te assusta mais, Gabriel? — perguntou Artur, sem desviar os olhos do irmão. — É o facto de saberes que, se lhe tocares uma única vez, nunca mais vais conseguir ser o mesmo?
Gabriel respirou fundo, o ar denso de fumo e suor parecendo queimar-lhe os pulmões. Ele não olhou para o irmão, mantendo o foco em Lívia, que agora se fundia com a música de uma forma que parecia quase sobrenatural.
— O preço é demasiado alto, Artur — respondeu Gabriel, a voz rouca e carregada de uma certeza sombria. — Até para mim. Se eu entrar naquele jogo, não há volta a dar. Ela é um incêndio e eu não estou pronto para arder.
Enquanto a conversa entre os irmãos se perdia no barulho, Joel observava a cena de outro ângulo. Ele via o perigo a aproximar-se na forma de um rapaz que Lívia conhecia bem de outras noites, um dançarino de movimentos fluidos e um magnetismo que rivalizava com o dela. Lívia deixou-se envolver pelos braços dele, sentindo a pressão do corpo do estranho contra o seu, uma dança que era um prelúdio óbvio para algo mais. Ela sentia o calor da respiração dele no pescoço e sabia que o beijo era a conclusão inevitável daquela encenação. Joel, percebendo que Gabriel estava prestes a atingir o seu limite, decidiu lançar o último rastilho, aproximando-se do amigo com um sorriso cínico.
— Olha bem para ela, Gabriel — sussurrou Joel, apontando para a pista com o queixo. — Ela está a dar-lhe tudo o que tu tens medo de aceitar. Se não fores agora, amanhã ela será apenas mais uma memória que te vai assombrar. Vais mesmo deixar que aquele gajo beba da tua fonte?
Aquelas palavras foram o golpe final na resistência de Gabriel. Ele viu o momento em que Lívia se inclinou para trás, os lábios a milímetros do dançarino, antes de se afastar num movimento brusco e provocado. Sem pensar, ele largou o copo no balcão e atravessou a pista com uma determinação que abria caminho entre a multidão. Quando Lívia se viu livre do rapaz, sentiu uma mão forte e quente agarrar-lhe o braço, um toque que enviou uma descarga elétrica por toda a sua espinha. Ela virou-se, o fôlego curto e os olhos dilatados pela adrenalina, deparando-se com o olhar de Gabriel, que agora brilhava com uma intensidade perigosa.
— Queres dançar? — desafiou Gabriel, a voz baixa mas carregada de uma autoridade que ela nunca lhe ouvira.
Lívia não respondeu com palavras, apenas sentiu o mundo à volta desaparecer, deixando apenas a pressão dos dedos dele na sua pele e a promessa de que, finalmente, a barreira tinha caído. Ela tinha conseguido o que queria, mas o brilho nos olhos de Gabriel dizia-lhe que o preço que ele tanto temia estava agora prestes a ser cobrado a ambos. O jogo da "Maneater" tinha acabado de se tornar algo muito mais real e assustador do que ela alguma vez imaginara.
Naquela pista de dança, o caos do bar transformou-se num silêncio ensurdecedor, como se o som das colunas tivesse sido subitamente abafado por uma força maior. No momento em que Gabriel envolveu a cintura de Lívia, o tempo deixou de ser uma linha reta para se tornar um círculo fechado onde apenas os dois existiam. A resistência que ele mantivera durante meses desintegrou-se num único toque, e Lívia sentiu a respiração dele, quente e pesada, contra a sua têmpora. Não era apenas uma dança; era uma rendição mútua, um reconhecimento de que as suas almas, tão habituadas a desencontrarem-se, tinham finalmente encontrado o compasso certo. Ele movia-se com uma fluidez que desafiava a lógica, guiando-a por caminhos que iam muito para lá de qualquer técnica que ela já tivesse experimentado com as suas outras "vítimas". Era um fenómeno sobrenatural, uma coreografia de instinto e desejo que fazia as pessoas em redor pararem, hipnotizadas pela eletricidade que emanava daquele par.
— Eu disse-te que o preço era alto, Lívia — murmurou Gabriel, com a voz tão baixa que era sentida mais no peito dela do que nos seus ouvidos. — Agora já não há volta atrás. Tu incendiaste tudo.
Lívia olhou-o nos olhos, vendo neles o reflexo da sua própria exaustão e do seu sonho mais profundo, e respondeu com um fio de voz, apertando-se ainda mais contra o corpo dele enquanto o mundo em volta se tornava um borrão de luzes e sombras.
— Então deixa arder, Gabriel. Eu prefiro as cinzas contigo do que este frio sem ti.
Ele apertou-a contra si, como se tivesse um medo visceral de a deixar cair ou de que ela se pudesse desvanecer entre os seus dedos. Naquele abraço possessivo e ao mesmo tempo protetor, Lívia sentiu o coração dele a bater em uníssono com o dela, uma batida frenética que denunciava que, debaixo daquela calma aparente, ele estava tão perdido como ela. Artur e Joel observavam do balcão, imóveis, percebendo que tinham acabado de testemunhar o momento em que a amizade se transformou em destino, um destino que nenhum deles podia prever ou controlar. Para a multidão, eles eram um espetáculo inexplicável, mas para Lívia, era o momento em que a sua vida finalmente parou de ser uma fuga para se tornar uma entrega.




Finalmente percebemos melhor a dinâmica entre a Lívia e o Gabriel. Dá para sentir que a relação deles sempre foi uma mistura complicada de amizade, tensão e algo muito mais profundo que nenhum dos dois quer admitir.
A forma como mostras a Lívia naquela fase da vida... confiante, predadora, a usar a atenção dos outros para esconder o vazio que sentia... E ao mesmo tempo o Gabriel aparece como o único que não entra nesse jogo, o que acaba por a prender ainda mais.
A conversa na cozinha é qualquer coisa. Acho que ele a conhece bem demais para cair na máscara dela e isso torna a rejeição mais dolorosa. Não é uma rejeição cruel. Acho que é uma tentativa de…