Nobody's Home: Casa de Ninguém
- 28 de fev.
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Capítulo 3: O Mapa das Cicatrizes

A transição do ar estagnado e pesado da estação de metro para a violência da rua foi um choque térmico e sensorial que atacou Lívia em todas as frentes. Não era uma chuva gentil de final de tarde; ela açoitava o asfalto com uma fúria gélida, cada gota uma pequena bala de água dobrada pela força do vento. O vento, esse sim, era o verdadeiro agressor, uivando entre os arranha-céus de aço e vidro como um animal ferido, um lamento metálico que parecia roubar-lhe o calor da pele. O mundo cá fora era um borrão de luzes de néon distorcidas, uma aquarela grotesca sob a tempestade. Os vermelhos dos sinais de trânsito sangravam em poças escuras, transformando a água em vinho sujo. Os azuis frios das luzes de lojas de conveniência, pequenos faróis de vigilância num mar de escuridão, refletiam-se no rosto de Lívia, conferindo-lhe um tom cadavérico, a pele pálida e tensa como pergaminho. Sentia-se exposta, pequena, à mercê dos elementos e da cidade que a engolia.
Nico não perdeu tempo com o ajustamento. Ele não parou para respirar o ar frio ou para se encolher. Movia-se com uma agilidade surpreendente, quase predadora, para alguém que carregava o peso desigual de uma guitarra antiga e, presumivelmente, o peso ainda maior de uma vida incerta e vivida à margem. Ele não precisava de mapas ou de GPS; ele conhecia a coreografia clandestina da cidade. Sabia onde as caleiras e os ralos estavam entupidos e transbordavam, criando riachos lamacentos nas calçadas. Conhecia os becos e as vielas onde as rajadas de vento cortavam menos, pequenos abrigos improvisados da fúria da tempestade. Mais crucialmente, ele sabia que sombras evitar ou usar para escapar aos olhares frios das câmaras de segurança montadas em postes e fachadas, e para desviar-se das patrulhas policiais que rondavam as áreas mais movimentadas. Ele era um fantasma que conhecia o caminho entre os vivos.
Lívia seguia-o, a cabeça baixa, o capuz da camisola ensopada puxado até quase cobrir-lhe os olhos. A chuva escorria pela nuca, mas ela ignorava o frio penetrante. Cada passo era uma luta extenuante, não apenas contra a gravidade e o piso escorregadio, mas contra uma vontade avassaladora de simplesmente se deitar ali mesmo, na calçada gelada e molhada. O desejo era de inércia, de deixar que a água a levasse para o esgoto, para o esquecimento, para um lugar onde o esforço e o medo não existissem.
Contudo, havia o medo, não o frio, mas aquele instinto primitivo e agudo que Nico tinha despertado quando mencionou, de forma tão casual e grave, a necessidade de segurança. O medo era um motor mais forte do que a exaustão. Era ele que mantinha as suas pernas a mover-se, que impedia o colapso e a rendição. Ela agarrava-se à silhueta escura de Nico, o seu guia improvável, como a um farol na escuridão.
Caminharam por ruas que Lívia não reconhecia. Não eram desconhecidas no sentido literal, mas sim as veias que ela se recusava a notar, as artérias entupidas, menosprezadas, e enferrujadas da metrópole. Estavam longe do brilho enganador das avenidas principais, dos boulevards onde os turistas com os seus casacos de marca e as pessoas com "laressa" (o termo de Nico para "dinheiro", que Lívia captou de imediato, um neologismo cínico que resumia a sua visão do mundo) passeavam despreocupadamente, blindados pelo seu privilégio.
Aqui, a atmosfera era diferente, densa e pesada. O ar cheirava a lixo molhado, a restos de fumo de cigarros baratos e a mofo persistente, uma mistura amarga que forçava Lívia a tapar o nariz com o colarinho do seu casaco fino. As paredes de tijolo gasto e betão sujo eram telas para a desintegração urbana, tatuadas com graffiti ilegíveis, mensagens codificadas que pareciam dirigidas apenas aos próprios muros, gritos de tinta spray em cores desbotadas que ninguém na parte iluminada da cidade se dignava a ouvir. Eram murais de desespero e resistência silenciosa, testemunhos brutais de uma vida que a maioria preferia ignorar ou fingir que não existia. Cada esquina era um eco da marginalização, uma cicatriz na face da cidade que Lívia nunca tinha realmente visto antes, apesar de sempre ter estado lá.
— Estamos quase! — gritou Nico por cima do rugido ensurdecedor de um autocarro velho que passou a toda a velocidade, demasiado perto, levantando uma cortina de água suja da sarjeta que os obrigou a recuar contra a parede húmida. O seu hálito era uma nuvem de vapor no ar frio e húmido.
Lívia não respondeu, a sua garganta apertada, incapaz de proferir uma palavra. A sua atenção tinha sido subitamente capturada, desviada do fedor e do caos, por algo no outro lado da rua. Uma visão que a trespassou.
Uma figura.
Estava parada sob a luz intermitente e defeituosa de um candeeiro de rua, cuja névoa amarelada se acendia e apagava com um click perturbador, como um olho doente a pestanejar. Era um homem, de costas para eles, envolvido num casaco longo e escuro que se misturava com as sombras da noite. A postura, contudo, não era anónima. Havia algo na inclinação ligeira da cabeça, na maneira como a sua mão estava casualmente enfiada no bolso, na forma como a luz fraca delineava a largura dos seus ombros... que disparou todos os alarmes na mente de Lívia. O tempo pareceu abrandar, o ruído da cidade a recuar.
Era ele. Não podia ser. Mas a certeza era um choque elétrico a percorrer-lhe a espinha.
O coração de Lívia parou no seu peito, um músculo que de repente se recusava a obedecer, suspenso entre a esperança absurda e o terror gélido. Não era apenas uma figura à sua frente; era o culminar de anos de vigilância, de sombras que se estendiam em cada esquina, de cochichos que pareciam sussurrar o seu nome.
O som constante e monótono da chuva a bater no asfalto, aquela familiar e reconfortante cortina sonora que envolvia a cidade, desapareceu, engolido por um vácuo ensurdecedor. Foi substituído por um zumbido agudo e perfurante, um tinnitus opressor que não vinha do exterior, mas de uma falha abrupta na sua própria perceção.
Este som fantasma preencheu o silêncio deixado pelo seu batimento cardíaco em pânico. Um, dois, três segundos de ausência que pareciam eternidades, até o músculo recomeçar a bater, frenético e desordenado, como um pássaro preso numa gaiola de costelas.
O mundo à sua volta tornou-se irreal, uma pintura a óleo em que as cores se esbateram, reduzido àquela figura solitária, envolta num casaco escuro e desgastado, e à luz bruxuleante e amarelada do único candeeiro de rua que ainda funcionava naquela rua lateral esquecida. A neblina da chuva parecia amplificar a atmosfera de um palco onde o ato final estava prestes a começar.
— Gabriel? — A palavra formou-se nos seus lábios, um sopro de ar frio que se perdeu na humidade da noite. Não tinha som audível, era apenas a intenção, a cristalização do seu medo mais profundo e da sua obsessão mais dolorosa. Mas o som não era necessário. O reconhecimento tinha sido instantâneo e visceral. O mundo tinha-se invertido no instante em que o seu cérebro registou a silhueta, o porte, o peso da presença que parecia idêntica à que a atormentava nos pesadelos.
A busca tinha terminado. Não a busca por ele, que ela jurara ter abandonado há muito tempo, mas a busca pelo fim da sua ansiedade. O fim era este momento. O perigo tinha chegado, e com ele, uma estranha e terrível resignação.
A figura virou-se, lentamente, como se estivesse a atuar para um público invisível, ou talvez arrastada por uma inércia de anos. Lívia preparou-se para o impacto, fechando os olhos por um segundo, antecipando ver o rosto que preencheu os seus sonhos e os seus pesadelos, o rosto dourado e gentil de Gabriel, ligeiramente mais velho e mais duro, mas inconfundível.
Mas quando a luz amarela, trémula e fraca, tocou a face do estranho, revelou apenas um homem idoso. O rosto não era dourado, mas cinzento e curtido, a pele rasgada por rugas profundas, marcadas pelo álcool e pelos invernos passados na rua. Os olhos não eram gentis, mas vazios, opacos, fixos num ponto no chão a metros de distância. Ele segurava uma garrafa envolta num saco de papel castanho, o seu tesouro único e imediato.
Não era ele. Um grito silencioso de frustração e alívio rasgou Lívia por dentro. Nunca era ele. Cada vez que uma figura na penumbra parecia a certa, desfazia-se na realidade cruel de que Gabriel não estava ali.
E, no entanto, era sempre ele.
A cidade inteira parecia ser um salão de espelhos infinitos, e cada reflexo distorcido, cada estranho na neblina, mostrava-lhe o fantasma que ela carregava consigo, o fantasma da memória, do luto não resolvido, da culpa que ela transformara numa caçada sem alvo.
Assombrada por quem nunca partiu, pensou ela com uma lucidez dolorosa, quase cruel na sua precisão. Era essa a sua maldição, o fardo invisível que carregava para todo o lado, mais pesado que a chuva que lhe ensopava o casaco. Ele não estava desaparecido, como as notícias e a polícia queriam que ela acreditasse. Ele estava infiltrado no próprio tecido da sua realidade, uma sombra persistente na periferia da sua visão. Não era um fantasma no sentido clássico, mas uma ausência tão estrondosa que se tornara uma presença.
Ele está em todo o lado, exceto aqui, comigo, onde eu poderia finalmente confrontá-lo ou deixá-lo ir. A frase era um mantra de desespero e resignação. Onde quer que ela fosse, havia uma lembrança, um eco, um cheiro que a atirava de volta para o abismo da sua partida. A figura patética do velho bêbado, cambaleando na penumbra da rua, era apenas mais uma manifestação dessa ausência omnipresente. Era o tipo de homem que ele poderia ter-se tornado, ou o tipo de desespero que ele teria semeado. Era um lembrete físico, concreto, de que a sua libertação não viria de um encontro casual numa noite chuvosa e anónima. Não havia um botão de "reset" externo. A cura, a paz, a capacidade de o expulsar do seu sistema teriam de vir de dentro.
Lívia forçou-se a respirar fundo, puxando a humidade da chuva para os seus pulmões, uma lufada fria que prometia purificação. Concentrou-se na sensação, na dor ligeira do frio a expandir-lhe o peito, forçando o seu coração a abrandar a marcha frenética. O tinnitus, o zumbido agudo e constante que parecia ter-se instalado na sua cabeça desde o dia em que ele se fora, recuou. Deu lugar ao som resignado e rítmico da chuva a cair sobre o asfalto.
O mundo voltou a ganhar as suas cores desbotadas, o cinzento chumbo dos prédios, o reflexo oleoso das luzes de néon. O seu ruído voltou: o silvo dos pneus, o motor de um autocarro a arrancar, o burburinho distante de vozes. O perigo momentâneo daquele encontro, a tensão nervosa que a tinha paralisado, dissipara-se no cheiro a álcool barato e a asfalto molhado. Mas o fantasma, a verdadeira ameaça à sua sanidade, permanecia.
— Lívia!
O grito abrupto e a familiaridade urgente do seu nome fizeram-na sobressaltar. A mão de Nico, quente e firme, fechou-se no seu braço, um aperto que não era gentil, mas necessário. Puxou-a com uma força surpreendente para longe da borda do passeio, para a segurança relativa da parede de tijolo.
— Não pares — avisou ele, a voz tensa e baixa, carregada de uma autoridade que ela poucas vezes lhe vira. — Se parares a olhar para os fantasmas, eles apanham-te. E esta rua não é sítio para sessões espíritas.
Ele tinha visto o que ela estava a ver. Ou, pelo menos, tinha adivinhado a intensidade da sua paralisia, a forma como ela se tinha fixado no nada, ou no tudo que o velho representava. A perspicácia dele era desconcertante, um alarme silencioso que parecia tocar sempre que ela se afastava demasiado da realidade. Lívia soltou-se bruscamente do aperto dele, um movimento impensado de defesa da sua dor e da sua solidão. Não queria a sua intervenção, não queria a sua compreensão. Mas continuou a andar, acelerando o passo, transformando a fuga num impulso. Apressava-se para esconder o tremor frio e incontrolável que lhe percorria a espinha, um arrepio que não tinha nada a ver com o frio da noite. Era o terror de ser vista, de ser conhecida, de ser apanhada pelo fantasma.
Viraram a esquina e a paisagem urbana desfez-se numa revelação sombria. Diante deles erguia-se um espectro, um edifício outrora majestoso que parecia ter-se afundado na própria história. Era uma estrutura de betão e tijolo, despojada da sua antiga glória, agora apenas um esqueleto colossal e gasto. As janelas do rés-do-chão, vazias como órbitas cegas, estavam seladas com tábuas de madeira escura e podre e chapas de metal retorcido, como curativos mal aplicados numa ferida. Um aviso desalinhado, "PERIGO: DEMOLIÇÃO IMINENTE", pendia, precariamente preso, num portão de ferro, enferrujado e acorrentado, cujo metal parecia gemer sob a pressão da negligência.
— Bem-vinda ao "Hotel do Fim do Mundo" — anunciou Nico, com uma vénia teatral e exagerada, a ironia a escorrer em cada sílaba. Os seus olhos brilharam com um humor negro enquanto ele gesticulava em direção à ruína. A imponência decadente do lugar parecia diverti-lo.
Ele não se dirigiu à entrada principal condenada. Em vez disso, contornou o flanco do edifício, entrando num beco lateral, apertado e sufocante, onde o ar era denso com o cheiro acre de lixo molhado, humidade e a promessa silenciosa de coisas em decomposição. Ali, aninhada na escuridão, escondida atrás de um contentor de entulho com grafítis desbotados, havia uma porta de metal pesado. A sua cor original tinha sido devorada pela ferrugem e pela sujidade do tempo, deixando-a com o aspeto de um remendo escuro e sujo.
Nico tateou no topo do batente da porta, os dedos ágeis à procura. Retirou uma chave minúscula, quase insignificante, do seu esconderijo.
— O segredo — sussurrou ele, o seu tom baixo e conspiratório, enquanto enfiava a chave na fechadura. O mecanismo reagiu com um lamento agonizante, um som de metal a raspar contra metal que ecoava o protesto da própria estrutura. Por um momento, pareceu que iria resistir, mas cedeu, por fim, com um estalido seco e definitivo.
Empurrou a porta com o ombro. O portal abriu-se, revelando uma negrura absoluta, uma ausência total de luz que parecia engolir o som e a cor. O ar que saiu do interior era frio e carregado de poeira antiga.
— As senhoras primeiro? — ofereceu ele, com um sorriso de canto que Lívia sentiu mais do que viu. No entanto, perante a hesitação dela, o corpo dela tenso, os olhos a tentar penetrar a escuridão, ele corrigiu-se imediatamente. — Ou talvez eu vá à frente para garantir que os ratos estão a dormir e que não há fantasmas de porteiros a reclamar as suas gorjetas.
Nico não esperou por uma resposta. Foi engolido pela sombra com uma facilidade perturbadora, a sua silhueta a desaparecer no negrume como se nunca tivesse existido.
Lívia permaneceu no limiar da porta desmantelada, o corpo uma linha tensa e indecisa, dividida de forma visceral entre dois mundos irreconciliáveis. A chuva, incansável e impiedosa, continuava a açoitar as suas costas expostas, cada gota fria e persistente atuando como um empurrão subtil, mas insistente, para dentro, para a escuridão desconhecida que se abria à sua frente.
Atrás dela, o mundo que conhecia, ou que a rejeitara, estendia-se numa tapeçaria de hostilidade silenciosa. A cidade, um monstro de betão e vidro, exibia-se numa profusão de luzes néon que prometiam calor e conforto, mas que, na realidade, não ofereciam nada além de uma luminescência fria e estéril. A multidão, anónima e indiferente, fluía nas calçadas como um rio apressado, passando por ela sem a ver, sem a reconhecer como algo mais do que um obstáculo fugaz, uma sombra na periferia da sua atenção. Aquele mundo não tinha lugar para ela.
À sua frente, o portal para o abismo: o buraco negro e cavernoso de um prédio condenado, uma ferida aberta no tecido urbano, exigindo um salto cego para o vazio. A sua única âncora, a sua única bússola naquele momento de vertigem, era a promessa sussurrada de um rapaz misterioso. Nico. Ele cheirava a tabaco forte, a noites mal dormidas e a um mistério denso e inebriante, e movia-se, ela já percebera, ao ritmo inconstante e melancólico de acordes menores.
Hesitou. Um milissegundo a mais do que o necessário para a razão triunfar sobre a emoção, mas a razão tinha desertado há muito. Foi a curiosidade, uma força motriz mais primária do que o medo, misturada com uma necessidade desesperada de refúgio, que a impeliu. Ela ouviu a voz dele, baixa e rouca, já vinda do fundo da escuridão inescrutável. E seguiu-a.
Não tenho para onde ir, a verdade cortou-lhe a alma, repetindo-se como um mantra doloroso e libertador. A frase de uma canção antiga ecoou, assumindo um novo e terrível significado: She wants to go home, but nobody's home. Não havia lar, e não havia ninguém à espera.
Lívia inspirou profundamente, enchendo os pulmões com o cheiro pesado a mofo, a humidade ancestral e a pó de pedra antiga que emanava do interior do edifício. Deu o passo. O chão sob os seus pés era irregular, as tábuas rangiam sob o seu peso. A porta de metal, pesada e enferrujada, fechou-se com um clangor oco e final atrás dela, um corte abrupto que selou o som da chuva e, simbolicamente, todo o mundo exterior. Ela estava agora completamente isolada.
A escuridão era total, uma densidade palpável que parecia absorver a pouca luz que os seus olhos ainda conseguiam processar.
— Dá-me a mão — pediu a voz de Nico, vinda de um ponto invisível à sua frente, o som quase cortado pela espessura da escuridão. A sua entonação estava desprovida de qualquer doçura ou conforto, mas carregada de uma urgência prática e cortante. — Há escadas e faltam degraus. A estrutura não é de confiança. Se caíres aqui, ninguém te ouve gritar. Ninguém te encontra. Passamos a ser lixo.
Lívia, com o coração a bater descontroladamente contra as costelas, obedeceu sem pensar, estendendo a mão no negrume absoluto que parecia engolir qualquer resquício de luz ou esperança. Não havia tempo para deliberação, apenas para o instinto de sobrevivência.
Quando os dedos dele, ásperos e calejados pelas cordas de uma guitarra que provavelmente tocava até os ossos doerem, ou talvez fosse pelo trabalho árduo e esquecido da vida na rua, envolveram os seus, ela sentiu um choque elétrico, algo inesperado e completamente fora do seu mapa emocional. Não era o calor familiar, a segurança previsível e o refúgio prometido que associaria a Gabriel, o seu porto seguro habitual. Era um calor diferente, agreste, quase selvagem, imperfeito, marcado pelas cicatrizes da luta incessante e pela sobrevivência no limite. Era o calor de alguém que também estava num caminho de queda, que conhecia a vertigem e compreendia a lei impiedosa da gravidade, mas que, crucialmente, sabia exatamente como aterrar sem se partir e, mais importante ainda, como se levantar de novo. Era o toque de um igual na vulnerabilidade, mas um mestre na resiliência.
— Para cima — instruiu ele, puxando-a com uma força surpreendente, o aperto da sua mão uma âncora firme e inquestionável que a guiava com uma autoridade silenciosa, desprovida de ego. — O céu é o limite, ou, neste caso, o telhado. É lá que o ar é menos denso, onde podemos respirar melhor.
Começaram a subir, o ritmo forçado e irregular ditado pelos degraus em falta e pela necessidade de se agarrarem às barras laterais corroídas pela ferrugem. O som dos passos deles ecoava na caixa de escadas vazia e húmida, um ritmo duplo e dissonante numa sinfonia de abandono e decadência. O ruído amplificado era um risco, mas era a única forma de medir o progresso. A cada degrau conquistado, Lívia sentia o esforço físico de se sobrepor à paralisia do medo.
E enquanto subiam, degrau após degrau, sentindo o cheiro metálico e frio da corrosão e do pó, Lívia sentiu, pela primeira vez na noite, que a voz de Gabriel na sua cabeça estava um pouco mais baixa, os seus ecos de preocupação e proteção a recuarem para a periferia da sua consciência. Não porque tivesse desaparecido o sentimento, mas porque a realidade presente, o cheiro a ferrugem que lhe invadia as narinas, a pressão crua e real da mão de Nico na sua, o perigo iminente de um colapso estrutural, exigia toda a sua atenção para a única tarefa que importava: sobreviver àquele momento.
Nico não falava de consolo; falava de estratégia.
Talvez ele tivesse razão. O movimento, a ação ininterrupta, a busca incessante por um ponto mais alto, por um refúgio, eram o único disfarce viável contra a perseguição. E Lívia, subindo naquela escuridão guiada pela mão áspera e decidida de um estranho, começava a internalizar essa lição sombria.
A subida terminou num vasto espaço aberto que, noutra vida, devia ter sido uma penthouse ou um salão de festas. O teto tinha desaparecido parcialmente num dos cantos, deixando a chuva cair livremente sobre uma pilha de entulho que parecia uma escultura moderna de destruição. Mas o resto do espaço estava seco, protegido por lajes de betão espessas.
Nico largou a mochila sobre um colchão velho arrastado para o canto mais abrigado, longe das correntes de ar. Com gestos práticos, ele tirou do bolso um isqueiro e acendeu uma pequena lanterna de campismo a gás que estava escondida atrás de um pilar. A luz sibilou e ganhou vida, lançando sombras longas e dançantes sobre as paredes grafitadas.
— Casa, doce casa — murmurou ele, esfregando as mãos para as aquecer. — Não tem serviço de quartos, mas a vista é imbatível.
Lívia não respondeu. Ela caminhou até à borda do edifício, onde uma parede tinha desabado, oferecendo uma visão panorâmica da cidade. Lá embaixo, os carros eram apenas riscos de luz vermelha e branca, glóbulos a correrem nas veias de um organismo doente. O vento ali em cima era mais forte, gelado, chicoteando o cabelo molhado contra o rosto dela, mas ela não se afastou. A dor do frio era uma distração bem-vinda.
Nico observou-a em silêncio por um momento. Ele viu a rigidez nos ombros dela, a forma como ela abraçava o próprio corpo não para se aquecer, mas para se segurar. Ele conhecia aquela postura. Era a postura de quem espera o próximo golpe.
Ele aproximou-se, parando a uma distância respeitosa. — Sabes — começou ele, a voz competindo com o uivo do vento —, aquele homem na rua... o que pensaste que era o teu fantasma.
Lívia tensou-se visivelmente. — Não quero falar sobre isso.
— Tu não queres falar sobre nada, Lívia. — Nico encostou-se a um pilar, cruzando os braços. — Mas os teus olhos não se calam. Gritam mais alto do que qualquer amplificador que eu já tenha usado.
Ela virou-se bruscamente, os olhos faiscando de raiva defensiva. — Tu não me conheces. Apanhaste-me numa estação de comboios, deste-me boleia para uma ruína. Isso não te dá o direito de psicanálise barata.
Nico não recuou. Pelo contrário, o olhar dele suavizou-se. — Eu não preciso de te conhecer para reconhecer o padrão. — Ele apontou para as paredes em volta deles, para o betão exposto e as vigas de ferro à mostra. — Olha para isto. É uma estrutura sólida por fora, mas por dentro? Está oca. Foi tudo arrancado. Ficaram só as paredes de carga para impedir que o teto caia.
Ele deu um passo em frente, entrando no espaço pessoal dela com cuidado, como quem se aproxima de um animal armadilhado. — É assim que tu estás, não é? Manténs as paredes de pé, a fachada dura, o "não preciso de ninguém". Mas lá dentro... alguém levou a mobília toda. Alguém levou a luz.
Lívia sentiu um nó na garganta, tão apertado que doía engolir. A precisão da metáfora dele era cirúrgica. Alguém levou a luz. Gabriel era a luz. E sem ele, ela era apenas isto: uma ruína habitada por correntes de ar.
— Tu não sabes o que é perder... — começou ela, a voz a tremer.
— Não sei? — Nico interrompeu-a, e pela primeira vez, houve uma fratura na sua própria máscara de "rapaz desenrascado da rua". Ele puxou a gola do casaco, revelando uma tatuagem desbotada na clavícula. Era uma data. Apenas números, escritos numa caligrafia infantil. — Eu não moro num prédio abandonado porque acho piada à arquitetura, Lívia. Eu estou aqui porque a minha casa deixou de existir no dia em que aqueles números foram escritos.
O silêncio instalou-se entre eles, pesado, apenas quebrado pelo silvo da lanterna a gás. Lívia olhou para a data. Era antiga. Ele carregava aquilo há muito tempo.
— Quem era? — perguntou ela, baixando a guarda por um milímetro.
— O meu irmão — respondeu Nico. — Ele era o músico. Eu só tocava para o acompanhar. Quando ele foi... a música parou. Tive de aprender a tocar sozinho. Tive de aprender a fazer barulho suficiente para preencher o silêncio que ele deixou.
Ele olhou-a nos olhos, procurando uma ponte entre as dores de ambos. — É por isso que eu vi a tua reação na estação. Tu não estavas só a ouvir a guitarra. Tu estavas à procura de alguém naquelas notas.
Nico estendeu a mão novamente, mas desta vez não para a guiar fisicamente, mas emocionalmente. — Quem é ele, Lívia? Quem é que te impede de estar em qualquer lugar sem te sentires uma estranha? Dizer o nome ajuda. Tira-lhes o poder. Transforma-os de fantasmas em memórias.
Lívia olhou para a cidade lá embaixo, depois para Nico. A tentação de partilhar o peso era avassaladora.
Dizer "Gabriel".
Dizer "O meu ex".
Dizer "A minha alma gémea platónica".
Dizer que a culpa era dela.
Mas as muralhas dela eram antigas e reforçadas pelo medo. Se ela dissesse o nome dele em voz alta, ali, naquele lugar sujo, sentia que estaria a traí-lo. Gabriel pertencia à Sala Dourada, não a este mundo de escombros. E se ela partilhasse a dor, torná-la-ia real. Enquanto ela guardasse o segredo, ele ainda era, de certa forma, apenas dela.
Ela endureceu o maxilar. O momento de vulnerabilidade fechou-se como uma porta blindada a bater.
— Não há ninguém — disse ela, fria, mentindo com uma convicção que surpreendeu até a si mesma. — Não há nome nenhum. Só estou cansada e sem dinheiro. Não tentes romantizar a minha desgraça para te sentires melhor com a tua.
A rejeição foi brutal. Nico piscou, como se tivesse levado uma bofetada física. Ele recolheu a mão e a expressão aberta desapareceu, substituída novamente pela máscara cínica e distante.
— Tudo bem — disse ele, recuando para o colchão e pegando na guitarra. A suavidade tinha desaparecido da voz dele. — Fica com os teus segredos. As paredes deste sítio são boas a guardar silêncio.
Ele sentou-se e começou a dedilhar algo agressivo, rápido, dissonante. Não era uma melodia para acalmar; era ruído para afastar.
Lívia voltou-se para a cidade. Tinha conseguido o que queria: ele tinha recuado. Estava sozinha novamente dentro da sua cabeça. Mas enquanto a chuva batia no rosto dela, misturando-se com as lágrimas que ela se recusava a deixar cair, Lívia percebeu que a vitória tinha um sabor a cinza.
Nico percebeu que o confronto direto não funcionaria. As defesas de Lívia eram como arame farpado: quanto mais ele puxava, mais ela se feria para se proteger.
Ele parou de tocar a música agressiva. O silêncio voltou a instalar-se no topo do edifício, mas desta vez, Nico decidiu preenchê-lo de outra forma. Não com perguntas, mas com uma oferta de paz. Ele pousou a guitarra com cuidado no colchão e recostou a cabeça no pilar de betão, olhando para o teto esburacado por onde se via o céu chumbado.
— Eu não fugi porque não tinha nada, sabes? — disse ele. A voz saiu calma, despojada da ironia defensiva de antes. Ele não estava a olhar para ela; estava a falar para a noite. — As pessoas olham para mim, com esta roupa e esta guitarra, e acham que sou um produto do sistema. Um miúdo que foi expulso ou que nasceu na miséria.
Ele tirou um maço de tabaco amarrotado do bolso, tirou um cigarro, mas não o acendeu. Apenas o rodou entre os dedos, um tique nervoso.
— Eu tinha uma casa. Uma daquelas casas de subúrbio que vês nos filmes. Relva cortada ao fim de semana, vedação pintada de branco, jantar na mesa às oito em ponto. O meu quarto tinha aquecimento central e lençóis que cheiravam a amaciador de lavanda.
Lívia, que ainda estava de costas para ele, virada para a cidade, não se moveu. Mas a tensão nos ombros dela diminuiu imperceptivelmente. Ela estava a ouvir.
— Quando o meu irmão morreu… — Nico fez uma pausa, engolindo em seco. — Foi um acidente de mota. Rápido. Estúpido. Quando ele morreu, os meus pais não souberam o que fazer com o silêncio. Então, tentaram enchê-lo.
Ele soltou uma risada curta e sem humor.
— Primeiro, doaram as roupas dele na semana seguinte. Disseram que era para "ajudar quem precisa", mas eu sabia que era porque não aguentavam ver os casacos dele no cabide. Depois, repintaram o quarto dele. Um bege neutro. Transformaram-no num escritório. Em dois meses, não havia um único vestígio de que o Alex tivesse vivido naquela casa durante dezanove anos.
Lívia virou a cabeça ligeiramente, o perfil iluminado pela luz fraca da lanterna. A história dele ecoava nas suas próprias ruínas. A ideia de apagar alguém. De higienizar a dor.
— Eles pararam de dizer o nome dele — continuou Nico, a voz a ganhar uma textura áspera. — Ao jantar, falavam do tempo, da política, do vizinho do lado. Sorriam. Comiam. Como se não houvesse um buraco enorme na mesa. Como se não faltasse uma perna à cadeira onde se sentavam. Aquele fingimento... aquela normalidade encenada... começou a sufocar-me mais do que qualquer fumo.
Ele finalmente olhou para Lívia.
— Eu sentia-me um louco lá dentro. Eu queria gritar, queria partir os pratos, queria perguntar "Onde é que ele está?" Mas naquela casa, a tristeza era proibida. Era "inconveniente". Então, escolhi isto. — Ele abriu os braços, abrangendo a ruína, a chuva, o frio. — Escolhi a rua. Porque a rua é honesta, Lívia. Aqui, ninguém finge que está tudo bem. Se estás com frio, estás com frio. Se estás sozinho, estás sozinho. O cimento é duro e a chuva molha, mas pelo menos é real.
Ele levantou-se devagar e caminhou até à mochila. Tirou de lá uma manta de lã grossa, com cheiro a guardado, mas seca. Aproximou-se de Lívia, mas parou a dois passos de distância, respeitando o perímetro dela.
— Eu não estou aqui porque não tenho casa — concluiu ele, estendendo a manta na direção dela, sem forçar. — Eu estou aqui porque a minha "casa" tornou-se um cenário de teatro onde eu já não sabia o meu papel. Preferi ser um fantasma na cidade do que um ator naquela sala de jantar.
Lívia olhou para a manta. Depois olhou para os olhos de Nico. Viu a verdade neles. Viu que a "vadiagem" dele não era uma queda, mas uma fuga de uma mentira insuportável. Era o reverso da moeda dela: ela fugia porque o fantasma a perseguia; ele fugia porque tentaram apagar o fantasma dele.
— O nome dele era Alex — disse Lívia, baixo, testando o nome na língua.
— Sim. Alex — confirmou Nico, com um meio sorriso triste. — E ele tocava muito melhor do que eu.
Lívia hesitou, mas o frio estava a entrar-lhe nos ossos. Ela estendeu a mão e aceitou a manta. Os dedos deles roçaram-se brevemente.
— Obrigada — murmurou ela. Envolveu-se na lã áspera e, pela primeira vez em muitas horas, sentiu um vestígio de calor que não vinha de uma memória febril.
— Senta-te — convidou Nico, voltando para o seu lugar no colchão. — Não vou perguntar mais nada. Prometo. Às vezes, só precisamos de estar perdidos com alguém que conheça o mapa.
Lívia afastou-se da borda do precipício. Caminhou até ao pilar oposto ao de Nico e sentou-se no chão de betão, puxando a manta até ao nariz. O som da chuva continuava lá fora, implacável, mas ali dentro, a atmosfera tinha mudado. O julgamento tinha desaparecido.
Eram apenas dois destroços a flutuar na mesma corrente.
— Toca — pediu Lívia, a voz abafada pela manta. — Mas não aquela música agressiva. Toca… o que estavas a tocar na estação. Antes de eu te mandar calar.
Nico assentiu. Pegou na guitarra novamente. Desta vez, os acordes saíram suaves, líquidos, preenchendo o espaço entre eles como uma ponte invisível. E enquanto ele tocava, Lívia fechou os olhos. A imagem de Gabriel ainda estava lá, à espreita, mas a música de Nico, carregada da sua própria dor honesta, parecia fazer companhia ao fantasma, em vez de o provocar.
Por agora, aquilo bastava.




Este capítulo é intenso do princípio ao fim. A forma como descreves a cidade faz-nos sentir exatamente o que a Lívia sente... desorientação, frio e uma solidão quase física.
A cena em que ela pensa ver o Gabriel é forte. Dá mesmo a sensação de que o luto dela já não é só memória, é uma presença. Ele nunca está mas está sempre. Talvez seja a parte mais dolorosa.
Gosto do contraste com o Nico. Ele não é o salvador. Não vem com promessas bonitas. Vem com realidade. Com estratégia. Com movimento.
O momento da manta e da música é simples, mas poderoso. Não há declarações dramáticas. Há apenas dois destroços a reconhecerem-se um no outro. E isso parece mais…